O Orlando é um cara sério. Ou pelo menos parece (finge?) ser. Mas adora bater papo, trocar idéia, principalmente sobre fotografia analógica. Não é muito fã de toycameras, e exatamente por isso convidei ele pra falar com a gente aqui. “Vou pagar de careta!” disse ele preocupado. Educadamente mandei ele praquele lugar, e disse que o objetivo era exatamente ele contar pra gente, numa época em que só se fala em toycam, lomografia e etc, como é fotografar “a sério” com analógicas.
O resultado é uma das entrevistas mais bonitas, cativantes e inteligentes que já publicamos aqui. Boa de ler, perfeita para uma revista, ou até para um livro sobre o assunto. O cara é bom, o cara é gente boa, o cara merece ser lido.
Então vamos lá. Senta, que lá vem história! ;-)
1) Apresente-se pro povo…
Meu nome é Orlando Calheiros, cordata, primata, brasileiro, carioca, suburbano, botafoguense… Os recortes podem parar por ai, creio.
2) O que faz da vida?
Consta que sou antropólogo, trabalho com populações indígenas, mais especificamente com um povo Tupi-Guarani chamado Aikewara, com o qual convivi por cerca de 13 meses. Naturalmente, este é o meu tema natal quando se trata de fotografia.
3) E a fotografia?
Bem, imagine-se, leitor e entrevistador, curiosos et al., “abandonado” em uma aldeia entre o Pará e Tocantins, imagine que você vai permanecer por meses neste local, convivendo com pessoas que não falam como você – digo isso em um sentido muito profundo, pois os Aikewara até falavam português comigo. Enfim, entre levar um livro ou uma pessoa, levei uma câmera!
Bem, brincadeiras a parte, foi nesse contexto que ressuscitei a fotografia. “Ressuscitei” pois a fotografia fez parte da minha infância, onde acompanhava meu pai, publicitário, nos estúdios, dirigindo ensaios. Conversava e observava bastante os fotógrafos, ficava fascinado com tudo aquilo. Creio que boa parte do que sei sobre fazer retratos – não que eu saiba muita coisa -, aprendi bem nessa época, com estes fotógrafos dos quais sou incapaz de lembrar o nome – uma vergonha -, lembro apenas que usavam Minoltas.
Mesmo assim nunca levei as coisas muito adiante, mesmo quando chegou o momento de “ir para o mato”, fazer a pesquisa de campo que minha tese de doutorado exigia, quando pensei em ressuscitar aquele antigo “fascínio”, minha única vontade era ter algo para me entreter e, talvez, fazer algumas fotos bonitas para a minha tese. Comprei uma DSRL da Sony – influência dos meus antigos mestres anônimos, “minolteiros”, e uma Minolta AF 50mm. Parti apenas com o básico do básico da fotografia na cabeça, todo o resto aprendi fotografando. Tive muito tempo…
4) E a fotografia analógica?
Bem, como disse anteriormente, “aprendi” a fotografar com as analógicas, sabia o valor de, por exemplo, um kodakchrome. Veja bem, não posso falar mal, o digital supriu minhas necessidades durante esse período de pesquisa de campo, foi um instrumento de aprendizado perfeito, mas comecei a ficar entediado, faltava algo, faltava um certo feeling de fotografar que só fui encontrar no filme.
Fui maturando a ideia de voltar para a analógica, pesquisando sobre filmes, câmeras antigas. Comprei uma Maxxum 7, duas dezenas de bons filmes e voltei para a aldeia, uma viagem curta, coisa de um mês e meio. Foi o começo do fim. Fiquei maravilhado com os resultados que obtive de alguns filmes como o AGFA e, meu preferido, o Tri-x. Quando voltei, fui piorando, comprei novas câmeras, comprei material de revelação, montei um mini-lab em casa, passei a desenvolver meus próprios filmes… bem, é nesse estágio quase terminal que me encontro no momento.
Além do feeling do filme, existe algo nas máquinas analógica que me encanta, a historia, uma certa subjetividade do objeto. Lembro-me que quando comprei a minha Olympus de um velho fotógrafo carioca, ele, enciumado da câmera, me fez prometer que faria bom uso dela, que não a transformaria em objeto de decoração. Algo emocionado, contou-me como foi difícil comprá-la, como aquela câmera e lentes (uma Vivitar 135mm) fotografaram o Brizola durante a campanha de 83. Nada mais natural, afinal, lembre-se, não era comum que as pessoas trocassem de câmeras, como se faz hoje em busca de megapixels, elas acabavam se afeiçoando as suas “companheiras”. Mesmo uma Trip pode ter uma história profunda.
5) Quais cameras analógicas você tem?
Não são tantas, mas admito que o consumo é conspícuo. Como disse, minha raiz é Minolta!
Das mais antigas tenho uma XD-11 (as lentes Rokkor, perdoem-me os puristas, são quase perfeitas), das automáticas (Maxxum) tenho uma alpha 7700i, uma 9xi (uma das minhas preferidas, top de linha até hoje), a minha velha de guerra 7 e uma 70. Além destas tenho uma rangefinder Minolta Hi-Matic 7 SII, ótima de usar!
Saindo da Minolta tenho uma Olympus OM-1 e uma OM-2s, tudo por causa das “malditas” lentes Zuiko. Tenho ainda uma Zorki 4k e, minha mais nova aquisição, uma Voigtlander Bessa R3M, ainda não é uma Leica M6, mas, pelo menos, usa as mesmas lentes.
Tento usá-las na medida do possível, contudo, admito que algumas acabam acumulando alguma poeira.
6) Tem algum filme de preferência?
Como disse o Steve MacCurry sobre as cores do Kodakchrome, “some films are like you’re on a drug or something”, concordo e acrescento, alguns são como drogas pois viciam. Sinceramente, e admitir o vício é o primeiro movimento de cura, sou viciado no Kodak Tri-X 400. Esse filme serve para tudo, baixa ele para 50, leva para 3200, é impressionante! Para você ter uma ideia, estou de malas prontas para uma viagem pelas ilhas do Pará, estou pensando seriamente em puxar este filme para 10.000 e ver o que sai disso, tenho quase certeza de que o filme aguenta.

O Tri-x é um tipo de filme que você reconhece pelo negativo, pelo grão. Quando os arautos do apocalipse anunciaram o fim da Kodak comprei rolos e rolos… ainda bem que tudo não passou de um grande susto.
Bem, quando se trata de cores eu gosto bastante dos tons do Portra 160, a forma como ele reage com uma certa luz típica do verão amazônico… é impressionante. Me desculpem os amantes da Fuji.
7) Tem algum estilo de preferência, dentro da fotografia com filme?
Por minha própria formação, fotografia documental.
8) Tem algum fotógrafo que seja referência pra você nessa área? Porque?
Bem, para sair do óbvio, vou citar uma pessoa que talvez seja pouco conhecido pelos fotógrafos e que, mesmo entre os antropólogos, é pouco reconhecida por seu trabalho fotográfico, Gregory Bateson. Ele é autor de um livro fundamental, Balinese Character. A forma como ele se utiliza das fotografias (registradas com o uma Leica) para desvelar aquilo que poderíamos chamar, em termos grosseiros – os antropólogos vão me cobrar -, de personalidade profunda de um povo é algo que até hoje não foi repetido.
Talvez falte aos antropólogos, e não apenas, entender que a fotografia é mais que um mero acessório do texto, uma comprovação dos fatos que estão sendo narrados, mas que elas formam, em si mesmas, conceitos visuais, blocos de sensações, perceptos e afetos. Bateson, certamente, foi um dos primeiros a falar sobre isso, e falou fotografando.
9) Uma dica pra quem tá começando na fotografia analógica.
Aprendam a aprender. Aprenda a entender aquilo que sai da sua câmera. Na fotografia isso começa por não ter medo de errar!
Filmes e filmes vão ser gastos com tentativas e, perdoem-me o clichê – mas estamos falando de fotografia, não é mesmo? -, com o tempo você vai perceber que aprendeu mais com os filmes que estragou que com os que deram certo. Um caso curioso e exemplar: outro dia, por completa desatenção, desenvolvi errado um rolo de filme, um Tri-x puxado em 1200, o granulado estourou, ficou excessivamente constrastado, horroroso. Aprendi muito sobre o desenvolvimento de filmes com este erro. Inclusive, sei, agora, que posso usar esse processo “errado” em filmes com menos contraste, em iso 100, obtendo resultados interessantes.
Além, você deve aprender a entender o seu relacionamento com a câmera, pensar com ela e, fundamental, sem ela. Insisto, o fundamento da boa fotografia é o relacionamento entre o fotógrafo e a câmera. Veja os vídeos do Cartier-Bresson ou, em oposto, do Bob Gruen fotografando, veja a simbiose destes com suas máquinas. Isso é o começo da boa fotografia, é como se a foto fosse feita antes mesmo do espelho bater. Pelo visto, eu penso sempre com uma DSRL em mente.
Enfim, essa coisa de que você não precisa de um bom equipamento para fazer boas fotos é, em parte, uma boa verdade. Você não precisa de uma Leica M6 para fazer boas fotos, você precisa é de um equipamento que se adeque a você, suas necessidades. Veja os turistas, todos armados com as mesmas câmeras, com as mesmas lentes zoom… é isso que você quer como projeto fotográfico? Essa padronização industrial? Aproveite que o mundo analógico te oferece mais opções, preços honestos, e busque um modo seu de fotografar, mesmo que seja fotografar uma corrida de cavalos usando uma Zorki (não consigo pensar em uma imagem mais, digamos, inapropriada). No fundo, fotografia é uma atividade bastante egoísta.

10) Outra dica, pra não te chamarem de egoísta…
Contudo, devemos ir além, e isso não se aplica apenas à analógica; leiam sobre o assunto, não digo apenas sobre os aspectos técnicos, leia Susan Sontag, Deleuze, Flusser… o que estes falam sobre fotografia, arte no geral, vai, com certeza, aguçar a sua sensibilidade na hora dá prática. Ler, Deleuze falando sobre Bacon, por exemplo, parece-me ser o remédio ideal para essa vontade esdruxula que as pessoas tem de fotografar o próprio All-star, ou um copo de Starbucks. Vocês sabem bem do que eu estou falando.

Uma das melhores entrevistas q já vi por aqui, olha..
Obrigado pelos elogios.
Damião, não sei, mas aprendi como “desenvolver” mesmo, até em inglês é “develop”. Creio que revelar seja um termo brasileiro que acho meio “burro”. Pois revelar dá a entender que o trabalho do laboratorista é um automático, que ele apenas revela aquilo que o fotógrafo fez. Bem, qualquer um que já desenvolveu um filme sabe o quanto o trabalho do Laboratorista é o ativo de sua produção.
Muito boa essa entrevista, um tanto quanto inspiradora!
Super entrevista. Curioso ele chamar “revelar” de “desenvolver um filme”. Aproveito e deixo a pergunta ao “fotógrafo careta” Orlando Calheiros. :) Por que desenvolver ao invés de revelar?
Tb tenho curiosidade de saber porque, sobretudo os Instagristas gostam tanto de fotografar seus alimentos e embalagens… um exercício de vaidade? Bom saber que Deleuze tem a resposta. Obrigado, Orlando.
Excelente entrevista. Olhando o flickr de Orlando me vem na mente o nome de outro grande fotógrafo: Pierre Verger. Estudo antropologia e também entendo muito os processos que Orlando citou.
Inclusive fico feliz de saber que ele tambem utiliza uma OM-1, a minha grande paixão! Cm ela fiz uma serie de estudos em fotografia chamada “Fé no Tambor”. http://www.flickr.com/photos/fenotambor
Sensacional, só isso que tenho a dizer.
Sempre aprendendo mais por aqui.
Valeu André.
Eu sou careta!
que nada cara! eu, com minha FM2, gosto bastante desse estilo de foto! mas ainda coloco em minha boca a frase “o acaso me atrai”, seja ele uma situação ou um efeito bem loco, psicodélico e magnifico. Não há necessidade de ser descolado quando se tem um trabalho desses!
mano que ótima entrevista!
Boa demais, né? :)