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Contando Até 10 com Mario Amaya. Editor Chefe da Revista Digital Photographer Brasil

por em 10/03/2012
 

Na caixa de sapatos de fotos da família encontrei muitos negativos de filme Agfa ISS em formato quadrado, documentando a vinda dos meus pais do Uruguai ao Brasil e a minha infância. A caixa contém negativos de filme 110 coloridos, fotografados com uma Kodak Pocket Instamatic, a primeira câmera de que tenho lembrança (…). Minha primeira câmera pessoal foi uma Vivitar toda plástica, seguida de duas sofisticadas Olympus Stylus. Por fim, em 2000 comprei minha primeira reflex, uma Canon EOS 300 – ancestral das atuais Rebels digitais – que sempre produzia resultados incríveis com meus negativos Fujifilm Superia. (…) Por fim, cansei de brigar com digitais limitadas e adquiri uma Nikon D5000 em 2010. Escolhi a Nikon para aproveitar as lentes da câmera de filme da minha mulher, uma Nikon N70. A essa altura eu já possuía um embrião de coleção de câmeras e lentes…

É assim que Mario Amaya se apresenta pra nós: através da sua relação com a fotografia. Quem conhece o Mário sabe que ele está sempre com, no mínimo, uma câmera à tiracolo. Gosta de um bom papo, mais ainda de uma boa polêmica (construtiva! :-). Conhecido de toda a panelinha fotográfica profissional, também gosta de trocar idéias com todos os tipos de fotógrafos, e está sempre disponível. Duvida? Manda uma pergunta no twitter pra ele, pra ver se ele não responde! :-) Com vocês, Mario Amaya.
1) Apresente-se pro povo… Mario Amaya: rebelde intelectual, jornalista e fotógrafo, entre outras coisas – eu poderia ter virado artista plástico, músico ou jornaleiro. Formei-me tecnólogo em Eletrônica e depois em Design Gráfico como autodidata, aproveitando a ascensão da editoração eletrônica e pulando completamente a faculdade. Minha passagem pela Folha de S. Paulo em 1994-96 me ligou ao jornalismo para sempre. Trabalhei na lendária Macmania, uma publicação famosa por ser contracultural, anárquica e contestadora – e deliberadamente ignorada pela Apple. Ao mesmo tempo, participei de vários projetos importantes na Web, desde que ela foi inaugurada no Brasil até ela começar a virar uma “televisão com texto”, quando voltei a me dedicar mais às revistas tradicionais. Meu blog ensaístico está no ar desde o final de 2000 e foi um dos primeiros do Brasil. Uso o Twitter 24 horas por dia e também o Facebook, onde montei um fórum de discussão aberto para os leitores da revista que edito.

2) O que faz da vida? Há dois anos edito a Digital Photographer Brasila única revista de fotografia do país que procura representar as ideias e interesses da nova geração na fotografia. Tem digital no nome, mas não fazemos nenhuma discriminação: já demos capas produzidas com filme, artigos sobre Lomografia e portfólios de grandes mestres da fotografia analógica.

http://www.flickr.com/photos/marioav/6698438003

3) E a fotografia? Já fotografei profissionalmente stills de produtos e fiz duas fotorreportagens para jornal, mas hoje não tenho clientes fotográficos. Sou apaixonado por Street Shot e fotografia de viagem. Nunca saio de casa sem uma câmera. Minha companheira atual de todas a horas é uma Canon EOS 7D com a lente 35mm f/1.4 L.

4) E a fotografia analógica? Se não tiver problema de espaço na mochila, levo a A-1 ou a Leica também. Faço uma foto com ela e outra similar com a digital como controle. Quando mostro essas câmeras a fotógrafos “modernos”, muitos reagem de duas maneiras: 1) Veem a câmera e dizem “que linda!” 2) Pegam na mão, mexem um pouco e devolvem com cara de nojo, dizendo: “que complicada!” É triste, mas é isso que acontece na maioria dos casos.

5) Quais cameras analógicas você tem? Tenho uma Minolta Maxxum quebrada, uma Pentax ME Super no conserto, uma Canon T90 também no conserto, uma Polaroid SX-70 Sonar, a obrigatória Olympus Trip 35 e uma Calypso-Nikkor 2, além de algumas “saboneteiras” (aquelas compactas baratinhas dos anos 80 e 90) e diversas digitais raras e interessantes. As que realmente uso são uma Canon A-1 e uma Leica IIIc (esta na verdade é um empréstimo a longo prazo de um amigo), ambas carregadas com filme neste momento. Sempre visito a lojinha do Ailton (Rua Conselheiro Crispiniano, 40A) para ver as velharias legais que chegam lá: Canonet, Nikkormat, Praktica, Kapsa, Zenit, Rolleiflex… Ah, se não faltasse espaço em casa… Em tempo: graças aos adaptadores de baioneta, as minhas lentes antigas são usadas também nas máquinas digitais: lentes Canon FD na Nikon e lentes Nikon F na Canon EOS. Quando me questionam sobre as lentes serem manuais, respondo provocando: autofoco é para crianças!

6) Tem algum filme de preferência? Uso negativos da Fujifilm, geralmente ISO 400, sem exigências específicas na revelação. Não sou fresco com a escolha do filme, mas sim com a precisão na exposição.

http://www.flickr.com/photos/marioav/6789841279

7) Tem algum estilo de preferência, dentro da fotografia com filme? São as mesmas preferências que tenho com digital. Basicamente sou um “street shooter”, quando faço as fotos muito rapidamente e sem flash. Mas não são “snapshots”, são sempre fotos com composição cuidadosa. Minhas intenções estéticas são tão claramente determinadas a princípio que as minhas fotos feitas com diversas câmeras não têm um visual muito diferente, mesmo quando feitas com analógicas. Não deixo a câmera ditar o resultado. A escolha da lente para mim é muito mais decisiva que a escolha da tecnologia que vai encaixada atrás dela. Sou expert em Photoshop[bb], mas detesto fazer intervenções nas imagens, sejam digitais ou analógicas. Sou inclusive um crítico feroz da atual febre de lambuzeira de efeitos digitais no âmbito profissional, como em retratos e casamentos. Cometem-se abusos dos quais os próprios fotógrafos terão arrependimento quando os seus olhares amadurecerem daqui a alguns anos. Em relação a temas, eu persigo aquilo que acho bonito. Gosto de locais belos, de objetos belos e de pessoas belas. As minhas fotos “feias” são críticas claras a alguma coisa, não exploração estética. Não sigo modismos pseudoengajados socialmente, como fotografar crianças pobres na praia, carros velhos, cães de mendigos e velhinhas solitárias, para tentar passar isso adiante como “arte”. Não é arte, amigo: é apenas a sua ruminação estéril e inconsciente de clichês acadêmicos. Liberte-se deles! Quando viajo, certamente não faço fotos que queiram parecer cartões-postais turísticos, e sim fotos que transmitam um ponto de vista diferente e pessoal – mas sempre respeitando os temas.

8) Tem algum fotógrafo que seja referência pra você nessa área? Por quê? O cara com quem recentemente tive uma grande identificação foi o Frederico Mendes, fotógrafo que construiu sua fama com filme nos anos 1970-80 e ultimamente faz um trabalho de Street Shot com modernas compactas digitais, no qual vejo muita ressonância com minhas próprias ideias visuais – mesmo havendo um mundo de distância entre ele e eu no que toca a formação acadêmica, experiência de vida e tudo o mais. O meu encontro com ele no ano passado me animou a perseguir uma ambição maior dentro desse campo, porque até então eu nunca tinha me achado especial, original ou digno como fotógrafo, mas ele deu aquele “empurrãozinho” de mestre. O Frederico merece menção também porque na minha revista já apareceu um monte de gente que admiro, mas ele ainda não. Discorrer sobre caras como Brassaï, Meyerowitz, Winogrand talvez soe gratuito ou pedante, dependendo do interlocutor, então eu não me defino em termos de referências. E acima de tudo, não busco imitar ninguém, nem seguir suas palavras como lei. Os outros assuntos fotográficos que admiro são moda e erótica, mas nesses ainda não entrei com trabalhos próprios.

9) Uma dica pra quem tá começando na fotografia analógica. Cuidado para não ficar bitolado! Sua câmera não é sua vida. Sua vida será feita com muitas câmeras, e quanto mais diferentes uma da outra, melhor. Você passará a usar cada uma com uma finalidade distinta. Vá à rua 7 de Abril e compre uma câmera de filme profissional dos anos 1990: elas estão baratas e produzem imagens incríveis. Vá ao bazar do Lar Escola São Francisco e adquira várias “saboneteiras” de alta qualidade por preços ridículos como 10 reais cada. Evite as feiras de antiguidades, onde os compradores são decoradores e não fotógrafos e os preços ficam acima do razoável. E daí que a sua câmera é uma antiguidade genuína e não um desses novos brinquedos hypados? Fotografia analógica não é sinônimo de Lomografia – por mais que se tenha simpatia pela ideia da marca – e também não é sinônimo de imagens superestilizadas ou de baixíssima fidelidade – caso você não queira. Uma máquina de filme com todos os controles manuais e uma lente fixa é a minha escolha para aprender a fotografar verdadeiramente bem – e isso com qualquer equipamento, pois a habilidade adquirida se transmite de um a outro. Uma analógica honesta obrigará você a entender sempre o tipo de luz com que está lidando. As câmeras digitais, especialmente compactas e celulares, camuflam os seus erros e deixam você tecnicamente preguiçoso. Não ficar bitolado significa também não desenvolver atitudes desdenhosas em relação a técnicas e equipamentos diferentes dos seus. O campo expressivo da fotografia é infinito.

10) Outra dica, pra não te chamarem de egoísta… Fotos servem para contar histórias. O que o observador da sua foto verá na imagem é a mensagem que ela carrega, não a história de sua criação. A visão é tudo; o processo é secundário. E agora você fica com mais fotos (digitais) do Mario. 

[Update de 23/01/2013: As fotos infelizmente não estão mais disponíveis, por opção do entrevistado]

 

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comentários
 
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  • Helmut
    07/09/2013 em 2:31 am

    Pena q surtou e resolveu brigar com todo mundo. Carinha complicado esse Mario.

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  • Hildo Alegria Filho
    20/09/2012 em 9:22 am

    Grande Mario Amaya ! Bela entrevista ! Abraços !

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  • Chrissy
    24/07/2012 em 9:26 pm

    Ola,

    Parabéns pelo excelente trabalho, lhe convido para vir fazer uma mostra na baixada santista… com carinho, Chris

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  • Marcelo
    12/03/2012 em 5:02 pm

    Essa Nikon que recebe lentes FD da Canon é a Nikon D5100? Estou perguntando porque já li que usar adaptadores nas Nikons digitais é quase impossível, por conta do tipo de baioneta que a Nikon usa.

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  • Ronaldo Poli
    11/03/2012 em 12:47 pm

    Show de bola…Sempre acompanho o Mario pelo twitter e pela revista…Gosto das atitudes e pensamentos…Também não o conheço pessoalmente, mas um dia sei que sairei na revistas. Parabéns pela entrevista.

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  • 11/03/2012 em 10:03 am

    Conheço o Mario desde q ele assinava Mario AV. Hoje, graças a ele, sou um feliz colaborador da DPBR.

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  • 10/03/2012 em 10:53 am

    Desde que conheci as palavras do Mario através da revista DPBR notei uma pessoa inquieta, questionadora e anárquica, que se incomoda com o comodismo. Apesar de não conhecê-lo pessoalmente, tenho um grande respeito pelo que ele representa para a fotografia.

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  • 10/03/2012 em 10:34 am

    “Uma analógica honesta obrigará você a entender sempre o tipo de luz com que está lidando. As câmeras digitais, especialmente compactas e celulares, camuflam os seus erros e deixam você tecnicamente preguiçoso”. Sem mais, perfeito.

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