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Fotografia com filme: porque você deveria tentar – Parte 2 de 2

por em 22/05/2012
 
Food Bubbles

Por André Corrêa

E hoje, como prometido, vamos continuar com Heshan Jayakody e seu excelente texto que defende a fotografia analógica para todos os fotógrafos. Se você não leu a primeira parte, tá aqui o link ;-)

Diferente do texto de ontem, que mais defendia a fotografia de filme do que falava de coisas novas, aqui o autor divide com a gente sua experiência com vários tipos de filme, e dá suas dicas de como escolher o melhor filme pra cada situação.

Existem características que diferenciam os diferentes tipos e marcas de filme perceptíveis nos seus resultados e que você vai aprender a ver, e a ter opiniões sobre. Essas características incluem granulação dos filmes, saturação de cores, contrate… e funcionarão bem em alguns tipos de imagem, enquanto que destruirão outros. Brincar e experimentar os vários tipos e marcas de filme ajudarão você a descobrir qual filme usar pra cada propósito. Outro ponto importante é se lembrar que, diferentemente das digitais, aqui seu ISO é fixo. Você escolhe a velocidade do filme que quer, e fica preso com ela até o fim do rolo. Então, não compre um filme de ISO 100, considerado lento, e saia por ai tirando fotos à noite…

Então, olhando as variáveis dos diferentes tipos de filmes, nós temos:

Gato

Por André Corrêa

Granulação: geralmente baseada no ISO. Como na fotografia digital, onde ISOs altos resultam em ruidos a imagem, filmes de ISO alto geralmente resultam em mais grãos. Isso pode ser legal para alguns tipos de foto, por exemplo, se você quer produzir uma imagem de rua arenosa, mas não vai funcionar com uma paisagem com um belo céu e um lago, onde naturalmente se procura por suavidade e texturas limpas.

Alguns tipos de filme simplesmente lidam melhor com a granulação do que outros, e por isso é importante testar e usar os diferentes tipos de filme para ver e comparar os resultados reais, ao invés de apenas ficar lendo a teoria. Por exemplo, o Kodak Ektar, supostamente, possui os grãos mais finos de todos os negativos coloridos do mundo! Já experimentei tanto o Ektar (ISO 100) quanto o Fuji Reala (ISO 100), e sinceramente não consigo ver a diferença entre os dois. Porém, tendo usado um Kodak Tri-X 400, e comparando ele a um Kodak T-Max 400, achei o Tri-X bem mais granulado do que o T-Max. Mas, como eu já disse, um pouco de grão pode realçar sua foto, e melhorá-la. Não tenha medo dos grãos.

Saturação de cor: esse obviamente se aplica somente a filmes coloridos. Alguns filmes tendem a ficar supersaturados, com cores artificiais, falsas, enquanto outros trazem belas cores naturais, saturadas somente o necessário. É claro que existem filmes que parecem chapados e sem graça, e você pode evitá-los se assim desejar. Nos filmes preto e branco existem também variações, nesse caso, dos tons de cinza, de filme pra filme. Alguns possuem tons ásperos, e mal apresentam tons de cinza entre o branco e o negro, enquanto que outros apresentam apaixonantes tons intermediários de cinza, e existem ainda os que dão um incrível ar prateado aos cinzas.

L'Occitane Café

Por André Corrêa

Contraste:sim, o contraste varia também. Pra mim, isso é especialmente perceptível e importante em filmes preto e branco. Eu prefiro meus filmes pb com contrastes médios pra alto. Baixo contraste não funciona pra mim, apesar de já ter visto exemplos incríveis de imagens preto e branco de baixo contraste. Então, novamente, experimente!

Dos diferentes tipos de filme que já usei (tenho me dedicado mais aos negativos), listo aqui algumas características que reparei:

  • Fuji Superia/Superia X-Tra (200, 400): meu filme colorido padrão. Barato, confiável, muito bom. Amos as cores que ele traz. Não muito contrastado, não muito saturado… na verdade eu até diria que as cores são levemente pálidas. A granulação é boa. Pra um ISO 400, acho ele bem pouco granulado, aliás. Para fotos aleatórias, e principalmente pra testar novas câmeras e lentes, esse é o meu filme preferido.
  • Fuji Reala (100): Filme de nível profissional, possui um dos grãos mais finos que já usei. As cores são mais saturadas do que as do Superia, mas não muito. Bastante contrastado e, novamente, lindos grãos finos. Provavelmente meu filme negativo C41 preferido.
  • Kodak Ektar (100): outro filme de nivel profissional. Diria que sua granulação é tão fina quanto a do Reala, apesar da Kodak afirmar que ele tem o grão mais fino do que os demais! Belas cores também, e belo contraste. Assim como o Reala, uso ele pra paisagens, e o evito pra retratos, pois esse tipo de saturação não é muito bom pra pele.
  • Kodak Portra (160, 400): como o nome sugere, esse filme foi criado para retratos (portraits, em inglês), reproduzindo corretamente tons de pele, e evitando saturação demais, mantendo um belo contraste. Funciona muito bem pra retratos, é claro, mas não me importo de usar ele com outros objetivos também, de vez em quando. Sempre experimente. Não se prenda às “regras”.
  • Kodak Tri-X (400): um filme preto e branco bem granulado, bem contrastado e um pouco áspero. Não é meu favorito. O primeiro rolo que usei foi um desastre: tons muito fortes, com tons intermediários praticamente inexistentes. As áreas pretas pareciam pular em cima das brancas, e os grãos eram muito grandes pro meu gosto. Tive a impressão de que o rolo estava vencido (eu esqueci de verificar. Sempre verifique!), então saí e fui comprar outro. Saiu um pouco melhor, mas ainda muito granulado pra mim. A textura simplesmente parecia áspera demais pra mim. Mas, como eu disse, existem momentos pra se usar filmes granulados. Logo, de jeito nenhum vou parar de comprar Tri-X.
  • Fuji Neopan Acros (100): meu preto e branco favorito. O grão é extremamente fino, e os cinzas são lindos, quase prateados, e muito, muito suaves. Contraste acima da média, perfeito na minha opinião. Excelente pra fotografar pessoas, assim como fotografia de rua.
  • Kodak T-Max (100, 400): um filme preto e branco de grão fino, belo contraste e tons. Eu sugiro usar o T-Max 100 pra fotografias de rua de dia. o contraste não é muito alto, e os tons são escuros, mais escuros que o Neopan, que eu amo, mas bastante controlados e suaves. Com ISO 100 os grãos são bem finos. Mas se você quiser fotografar com pouca luz ou quer apenas um filme mais rápido, tente o T-Max 400. O grão ainda é bem fino, e possui as mesmas qualidades do ISO 100. mas se você quer algo bem granulado, tente o Tri-X.
  • Ilford HP5 400: um filme preto e branco de alta velocidade, produzidos pela lenda dos filmes preto e branco, a Ilford. Esse filme produz um visual “clássico”, meio difícil de explicar, na verdade. Eu simplesmente gosto dele. A granulação é bastante controlada, bem fina… contraste mediano, eu diria. Um filme bem legal pra uso geral.

É… acho que isso resume o que eu já testei até hoje. Eu disse que eu era novo nesse lance de fotografia com filme. Mas não posso esperar pra colocar minha mão em mais alguns Ilford, e uns Kentmere, e uns Fomapan

Vou tentar terminar essa série guiando vocês na escolha de um filme para uso geral.

Sem Título / Untitled

Por André Corrêa

Em primeiro lugar… negativo ou slide? Se você quer preto e branco, tem que ser negativo. Pra mim, outro fator decisivo é a velocidade do filme. Dou preferência a negativos se estiver comprando filmes com ISO acima de 200, porque grãos em slides não são pra mim. Além disso, vale à pena você pesquisar onde poderá revelar seus slides (processo E6), já que esses lugares não são tão comuns quanto os que revelam negativos coloridos. Se você não encontrar um lugar que revele E6, você não tem muita escolha a não ser fotografar usando negativos.* E, por último, mas não menos importante, lembre-se da regrinha que diz que filmes negativos têm mais tolerância. Se você tem uma câmera com fotômetro bastante preciso, e você acha que sua exposição vai ser bem precisa, você pode ir em frente com o slide. Mas se você tem dúvidas, ou quer flexibilidade, definitivamente escolha um filme negativo.

Agora, é claro, vamos aprender a escolher um filme preto e branco. Nada pra explicar aqui…

A velocidade do filme! Ah sim. Isso é crucial. ISO 100, conhecido como filme pra luz do dia, é obviamente pra fotografia diurna. Sim, essa escolha vai te dar grãos finos, mas fotos de grão fino mas embaçadas por terem sido feitas à noite não vão ficar legais de jeito nenhum. Imagens noturnas nítidas e um pouco granuladas são sempre melhores do que fotos embaçadas de grão fino. Logo, saiba o que você vai fotografar, aonde você vai fotografar, e a que horas vai fotografar. Fotografar à luz do dia NÃO SIGNIFICA QUE VOCÊ SÓ PODE escolher filmes lentos (ISO 50 ou 100). Como eu falei antes, tente fotografar algumas ruas granuladas com um filme de alta velocidade. Já fotografar à noite SIGNIFICA SIM QUE VOCÊ SÓ PODE escolher filmes velozes (ISO 400, 800…).

Finalmente, escolha uma marca que você já conheça por experiência própria, ou sobre a qual já tenha lido (aqui, por exemplo!), que tenha as características que você deseja pra aquela sessão de fotos em especial. Cores, saturação, contraste, nitidez, grão/velociade, textura… dependendo do que você estiver fotografando, preste atenção nesses fatores, e faça a sua escolha.

E então… pegue sua câmera, e vá fotografar!

Mas… (sempre tem um “mas”)… lembre-se de que hoje em dia filmes são quase sempre digitalizados. Mesmo quando são ampliados/impressos, seu laboratório vai, na maioria das vezes, digitalizar seu filme e imprimir as digitalizações, usando uma impressora, e não o tradicional mas menos conveniente método de fazer “cópias molhadas” no quarto escuro. O que isso significa? Que, mesmo que você esteja atento às características do filme escolhido, seu produto final pode variar bastante graças ao processo de digitalização. Uma imagem com cores pálidas e sem graça pode ser bastante aprimorada, independente do tipo de filme que você tenha usado, com o uso de softwares de digitalização, Photoshop e similares. Da mesma forma, uma imagem produzida originalmente com cores supersaturadas pode ser corrigida, suavizada ou até mesmo convertida para preto e branco!

Little Neon Light

Por André Corrêa

É claro que isso pode ser bom e ruim. Se você está digitalizando pessoalmente, isso te d’á um enorme controle criativo sobre a imagem final, de modo que se você realmente se dedicar ao seu processo de digitalização, pode terminar com um belíssimo resultado. Porém, se você deixa a digitalização pra ser feita pelo laboratório, você está nas mãos do cara do laboratório. Por exemplo, eu redigitalizei uma imagem que tinha sido digitalizada no laboratório… a imagem de uma flor, que o laboratório digitalizou como uma flor vermelha. Minha digitalização mostrou ela como sendo púrpura. Na verdade, eu não me lembro de cabeça a cor original da flor. Mas isso mostra o que pode acontecer, o que pode ser feito. Eu posso transformar a flor em vermelha, ou deixá-la púrpura, se preferir. Ou rosa. Eu tenho dezenas de opções. No final das contas, eu só quero que ela tenha a melhor aparência possível. E foi isso que eu fiz (deixei ela púrpura). Mas isso me mostrou o papel que a digitalização tem, e o quanto o resultado final pode ser afetado, não importa qual tipo ou marca de filme eu tenha usado.

Porém (“porém” de novo…) existe um limite para o que pode ser editado no seu filme digitalizado. Você ainda notará características do filme utilizado. Por isso, não importa o quão bom em tratar fotos você é, é sempre melhor escolher o filme certo para aquela situação. Você nem sempre vai poder corrigir uma imagem chapada e sem graça no Photoshop.

E, com isso, eu me calo sobre os diferentes tipos de filme 35mm! Mas lembre-se que muito do que falamos se aplica a filmes de médio formato também. Porém, como eu não usei câmeras de médio formato (ainda), evitei falar sobre pontos específicos destes formatos.

Esse texto de forma alguma pretende ser um guia pra uso de filmes. Existe muito mais sobre a complicada e bela arte da fotografia com filme, que eu tentarei cobrir em mais detalhes no futuro. Mas, se você é novo nisso, espero que tenha sido o bastante pra te deixar bem curioso pra começar!

* Como nós sabemos, não é bem assim… :-)

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comentários
 
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  • Juli
    17/06/2012 em 11:37 am

    Nunca tinha visto alguem se referir a iso como velocidade do filme!

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    • Vinícius Ribeiro
      29/06/2012 em 2:31 pm

      É porque quanto maior o iso levando em conta a regra sunny16 (abertura F16) mais rapido deve ser a velocidade do obturador, por isso que se fala filme rapido, só fazer teste com maquina digital no manual se tiver, com o iso mais alto captura mais luz, sendo assim deve ter uma velocidade maior, para compensar a alta exposição do filme (iso), por isso se diz filme rapido, o mesmo para lentes, tem gente que chama lente 50mm/1.8 de lente rapida, pois tem aberturas maiores e proporcionam possibilidade de congelar uma imagem em ação, como corridas…

      Responder

  • flávia basssalo
    24/05/2012 em 1:03 pm

    VIVENDO E APRENDENDO COM A VIDA ANALÓGICA DE SER!!!

    VALEU POR TODAS AS LEITURAS QUE FAÇO AQUI!

    Responder

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