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Slow Photography: qual é o objetivo de se tirar uma foto, afinal?

por em 19/06/2012
 
Na Beira

Aluna de Workshop em um momento Slow Photography

Há alguns anos atrás, começou a entrar na moda um movimento chamado “Slow Food” (Comida Lenta), que buscava mostrar pras pessoas que elas podem, e devem, investir mais tempo em suas refeições, “fugindo do ritmo frenético do dia-a-dia e dos efeitos padronizantes do fast-food (“comida rápida”, numa tradução ao pé da letra)”. Todo mundo achou legal, deu matéria em todos os jornais e revistas, virou mania, coisa e tal. Muito legal… as pessoas passando mais tempo junto com familia e amigos, aproveitando melhor os alimentos, curtindo os sabores e tal.

Mas e daí, né? A gente tá aqui pra falar de fotografia.

Pois bem. Acontece que outro dia, enquanto dava um workshop, me dei conta de que, se não existe, deveria existir um movimento de “Slow Photography” (Fotografia Lenta), exatamente pelos mesmos motivos: “fugir do ritmo frenético do dia-a-dia e dos efeitos padronizantes da fotografia digital, sempre à mão e descartável (“fast-photography”)”. Daí fui pesquisar.

Confesso que fiquei triste, porque eu queria ter inventado o movimento. Mas na verdade, cheguei bem atrasado. Pra minha surpresa, descobri que a coisa não só existe, como já tem adeptos espalhados pelo mundo inteiro, há  algum tempo já. E encontrei ótimas referências que vão me ajudar a, nesse post, te mostrar o quão legal pode ser demorar muito tempo pra tirar uma foto.

A partir de hoje, publicarei uma série de posts sobre Slow Photography, que a meu ver, é uma das coisas mais legais pra se fazer dentro da fotografia analógica (mas não APENAS na fotografia analógica). E Vou começar com a tradução de um artigo que o jornalista e fotógrafo amador Tim Wu publicou na revista Slate. Esse artigo é considerado por muitos o primeiro “documento” sobre o assunto, e já foi citado e republicado em vários sites.

Como já fizemos outras vezes aqui, o texto será dividido em duas partes. Uma hoje, outra amanhã.

Simbora? Simbora: Com a palavra, Tim Wu:

Lonely Bench

Fotografia lenta no Parque do Ibirapuera, com uma LC-A

Numa viagem recente a Israel, eu passei algum tempo na antiga cidade de Jerusalém, observando as pessoas tirando fotos. No geral, foi um espetáculo facinante, que me fez lembrar de cachorros marcando seu território. Homens e mulheres se aproximavam, digamos, da tumba de Jesus, rápidamente voltando os olhares pra traseira de suas câmeras, disparavam alguns flashes, e seguiam em frente. Me dei conta então de como o processo todo se parecia como um reflexo involuntário. O ato de fotografar havia se tornado um processo completamente inconsciente.


Eu não questiono o desejo natural de se fotografar as férias ou festas. Mas eu estou interessado em o quanto nossa relação com a fotografia se tornou parecida com nossa relação com comida e com outras coisas: a velocidade se tornou mais importante do que qualquer outra coisa. As câmeras de hoje em dia são equipamentos incríveis. É fácil tirar centenas ou até milhares de fotos em um único dia. Eu não sei se é isso mesmo, mas eu suspeito que na última década foram tiradas mais fotos do que em todo o resto da história anterior da humanidade.

Mas, enquanto tirar fotos se tornou uma forma de registrar praticamente todo e qualquer momento, existe uma perda quase não percebida. A fotografia ficou tão fácil que a câmera hoje ameaça substituir o olho. Nossas câmeras são tão avançadas que olhar para o que você está fotografando se tornou absolutamente opcional. Pra minha surpresa, nenhum monumento que eu vi em Israel pôde competir com a traseira das câmeras fotográficas. O que se perde é a idéia de que a fotografia pode te fazer passar um tempo olhando pro que está na sua frente, observando o que você, em outra situação, estaria ignorando.

Tudo isso acabou gerando uma rebelião da qual eu me considero parte. Ela é chamada de Movimento de “Slow Photography”, ou fotografia lenta.

Untitled

Médio formato, por Buiu.

Não sou um fotógrafo profissional, e nem mesmo um amador talentoso. É perda de tempo tentar ensinar a qualquer um o porque ele deveria tirar fotos “melhores”. No entanto, vale à pena perguntar: Qual é o objetivo de se tirar fotos? E o que está se perdendo na cultura da Fast Photography?

Pra muitas pessoas, incluindo eu mesmo, fotografia é principalmente sobre documentação, ou registro. É sobre tirar uma foto como um esforço de captar um momento enquanto ele acontece, de encenar uma pequena revolta contra a tirania do tempo. É por isso que tradicionalmente nós fotografamosm em momentos que acreditamos ser raros. Poucas pessoas fotografam seu dia-a-dia, mas a maioria delas vai a uma festa de formatura do colégio apenas uma vez… ou talvez duas. Um bebê logo se torna uma criança, mas adultos ficam com a mesma cara durante décadas.

Mas, se fotografia era algo pra ocasiões especiais, hoje temos a incrível habilidade de documentar cada minuto da nossa vida. E isso pode, é claro, ser bem divertido. No mínimo todo mundo vai saber que você realmente fica diferente depois de alguns drinks. Mas a facilidade de se fotografar também gerou uma ambição de criarmos um registro de nossas vidas que é praticamente do tamanho das nossas vidas. Se alguns homens primitivos supostamente temiam que a fotografia roubaria suas almas, hoje temos medo de não fotografar e perder aquele momento pra sempre. Mas lutar contra o tempo é uma batalha perdida. O esforço de se registrar tudo é inútil, e logo começa a se tornar vazio.

É por isso que, eventualmente, qualquer um que se considere envolvido de alguma forma com fotografia começa a se interessar por beleza (e a usar a câmera pra cria-la). A diferença entre a o ato de documentar e o impulso de buscar a beleza é que o segundo tem o poder de produzir não apenas uma memória, mas uma resposta emocional em qualquer observador. E isso é muito diferente do impulso de apenas registrar. Assim como fotos em grupo nunca são belas, também não são belas fotos de pessoas na frente da Torre Eifel (a torre é enorme, e as pessoas ficam muito pequenas).

Sob o Sol / Under the Sun

Quer lugar melhor pr fotografia lenta do que a praia? Todo mundo paradão…

Você precisa desacelerar pelo menos um pouco pra criar belas fotos. Mas nem por isso a fotografia rápida é inimiga dos bons resultados, já que ela tem a vantagem da quantidade: se você tira milhares de fotos, uma ou duas vão acabar saindo excelentes. Fotógrafos profissionais se baseiam nesta lógica, e essa é também a teoria dominante nos safaris africanos. A todo momento no Serengeti, milhares de obturadores estão abrindo e fechando, e entre os gigabites de lixo estarão algumas ótimas fotos.

Mas não, a maior vítima da fotografia rápida não é a qualidade das fotos. Somos nós. Nós perdemos algo mais: o lado experimental, o prazer da fotografia como uma atividade. E tentar combater essa perda, tratando a fotografia como uma experiência, e não meios para um fim, é a própria definição da Slow Photography.

Em uma definição mais cuidadosa, Slow Photography é o esforço de se inverter a relação usual que temos com processos (fotográficos) e resultados. Geralmente você usa uma câmera porque você quer resultados (as fotos). Na Slow Photography, a idéia básica é de que as fotos em si (o resultado) é secundário. O objetivo é a experiência de se estudar cuidadosamente um objeto exercitando a escolha criativa. É isso.

Bom gente, por hoje é só. Pensem nisso, e amanhã o Tio Tim Wu continua conosco, falando de como começar a praticar a fotografia lenta. Té mais!

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comentários
 
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  • 24/06/2012 em 11:17 am

    É simplesmente excitante ler esse texto! Uma coisa até que você falou que por um segundo fugiu do foco, e que eu mesmo já tinha me tocado disso! É que as lentes das câmeras estão substituindo nossos olhos, e é verdade… Falando rapidamente, quando fui a um show, sem compromisso de fotografar, porém estava lá como sempre com a câmera em mãos, e em algum momento me toquei de que meu objetivo era aproveitar o show, coisa que não estava fazendo, estava me preocupando apenas com a “Fast Photography”, e isso não me deixou mal, quando percebi o que podia causar na minha vida, não estou sendo dramático, mas é tipo, no futuro terei muitos registros do passado, porém parece que não teria vivido aquilo, pq não aproveitei no momento que deveria… Como vc falou, é inevitável a “fast”, eu a trato como o lado racional da fotografia, já a “slow” como o lado emocional… Eu poderia passar horas expondo minhas filosofias sobre isso aqui, mas só quero dizer que é sempre gratificante ler algo de meu interesse e escrito de uma forma tão cativante! Parabéns pelo site e pelas abordagens!

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  • Bianca Carvalho
    20/06/2012 em 3:30 pm

    Adorei o texto. Mas bah, toda vez fico dizendo isso, que se torna até chato. O blog é bom e ponto final.

    Agora, eu que sou mais radical com meus exemplos nem sempre tão bem compreendidos (deve ser por isso!), outro dia, comentando com um colega, adepto das digitais, eu comparei o ato de fotografar com analógicas mais ou menos como “se sentar na varanda para tomar um café de tarde, enquanto todos fogem correndo do apocalipse”. É meio que “take it easy baby”…
    Me referi a esta pressa toda das pessoas atualmente, sem nem sempre saber aonde querem chegar.

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  • Estevao Calahani
    19/06/2012 em 2:36 pm

    Que legal este texto, André. Na verdade, esta idéia é a essência do recente interesse na fotografia analógica. Ter o cuidado de olhar, selecionar, enquadrar, enfocar, controlar a abertura, velocidade… idéia que vai em contra à pressa e velocidade do mundo digital. Estamos redescobrindo o prazer de fotografar valorizando o processo e não só o resultado. Abraço

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    • 19/06/2012 em 5:29 pm

      Estevao, concordo. Aliás, não tem nem com o que concordar ou discordar. É um fato. Eu costumo destacar ainda a personalidade de artesão que os interessados apresentam. São pessoas curiosas pelo processo, e não apenas pelo fim. Uma curiosidade deliciosamente infantil que todos deveríamos cultivar…

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