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Alguns pensamentos sobre a vida útil de câmeras fotográficas, e de fotografias.

por em 16/07/2012
 
Auto Retrato

Por deaydeby

Esbarrei nesse texto outro dia, e na mesma hora mandei uma mensagem pedindo autorização ao autor pra traduzir e publicar. E explico o porque: o texto foi escrito originalmente por um fotógrafo profissional, para outros profissionais, o que foge do escopo do Queimando Filme. O lance, porém, é que o autor – o fotógrafo da Malásia Ming Thein –  faz um excelente trabalho ao mostrar que câmeras digitais e analógicas são, sobre muitos pontos de vistas técnicos, funcionais e, principalmente, comerciais, animais bem diferentes.

E pra nós, amadores e amantes, é muito bom entender isso pra que possamos buscar as melhores ferramentas pro que queremos fazer, principalmente pros iniciantes, que geralmente chegam na fotografia analógica cheios de vícios digitais, que precisam perder (ou pelo menos aprender a deixar de lado) pra poderem mergulhar no analógico. Você vai ler muito sobre o universo da fotografia digital nos próximos parágrafos, mas com certeza isso vai te fazer pensar mais e melhor sobre o universo do analógico. E essa é a idéia.

Porém, vale lembrar que esse post retrata a opinião do autor. E, como a gente já falou aqui, opinião é que nem Olympus Trip: cada um tem a sua. Portanto, fique à vontade pra discordar, comentar, complementar. Só não fique nervosinho se não concordar com o que está escrito aqui, porque ninguém está dizendo que existe uma verdade absoluta, ok?

Sendo assim, com vocês, Ming Thein.


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A foto ao lado é de parte do meu equipamento de 2012. Ainda estão faltando: D800E, PCE 85/2.8 Micro, AI 45/2.8P, 35/1.4 ASPH FLE, Pen Mini, OM-D, Panasonic 20/1.7, Panasonic Leica 45/2.8, D-Lux 5 Titanium,a mais alguns SB900s, painéis…

Essa pequena montanha de equipamento me leva a dois pensamentos bastante assustadores. Em primeiro lugar, não existe um fim à vista. A gente segue acumulando mais e mais equipamento com o objetivo de continuar buscando o máximo de aproveitamento do ponto de vista artistico e de qualidade de imagem. Você tem que ter, ou uma agenda cheia e bolsos recheados, ou uma boa quantidade de clientes recorrentes.

O segundo pensamento é sobre obsolecência. Na época em que se fotografava com filme*, os corpos e lentes das câmeras ficavam com a gente por muito tempo. Você investia em lentes, em um bom corpo de câmera – um que suprisse suas necessidades como fotógrafo – e então bastava escolher o filme certo para aquele trabalho. Nesse sentido, a diferença de qualidade de imagem entre marcas de câmeras dependia somente das diferenças entre as lentes do fotógrafo. Se você colocasse um mesmo filme em qualquer câmera, as diferenças de nitidez, ou acuidade, ou cor, ou qualquer outra coisa, se resumiria somente às diferenças entre as lentes. Se você quisesse mais qualidade de imagem, iria atrás de um formato maior.

Se o mundo da fotografia digital seguisse essa lógica, teríamos algo como um único “modelo” de sensores de câmeras digitais, com um único padrão de pixels e distâncias entre eles, de digamos 4.9 microns, o que nos daria imagens de 16 megapixels em um formato APS-C (usado na maioria das SLRs Canon), 36 megapixels em formato FX (Nikon), 60 megapixels me formato 645, e  algo meio bobo em um grande formato. Pra uma equivalência em tamanhos de impressão, o formato maior ultrapassaria o formato menor por uma relação igual à proporção de suas resoluções.

Só que não é bem esse o caso, porque existe uma série de truques tecnológicos empregados em alguns sensores digitais que acabam produzindo imagens de qualidade que não se espertaria daquele tamanho de sensor. Ou seja, o corpo da câmera, hoje em dia, possui um papel muito mais importante na produção da imagem, porque ele contém também “o filme”, e ele não é algo que você possa trocar quando uma nova emulsão é lançada, como se faziam com filmes.

Câmeras dos anos 50 e 60 ainda estão bem vivas e funcionais hoje em dia. Sim, algumas podem estar com obturadores grudentos, ou problemas mecânicos devido a um grande período sem os devidos cuidados. Mas  verdade é que elas são (ou foram) A) feitas pra durar e B) feitas pra continuarem fazendo um belo trabalho enquanto encontrarmos filmes pra colocarmos nelas. 

O processo químico de revelação também não mudou muito nos últimos anos. Negativos podem (provavelmente) durar centenas de anos com os devidos cuidados de armazenamento. Quanto tempo, exatamente, ninguém sabe.

Porém, no mundo digital, estamos encarando algumas questões bem delicadas, e questões que afetam todos os fotógrafos digitais. Vamos examiná-las separadamente.

A vida da camera: Na época do filme, obturadores eram feitos pra durar umas cinquenta mim exposições, em uma câmera profissional. E, realmente, ninguém além de um profissional tiraria essa quantidade toda de fotos. Filme sempre tem um custo-por-foto e um esforço associado. Você acaba sempre pensando um pouco mais antes de disparar um quadro, e isso geralmente resulta em uma quantidade menor de fotos feitas, mas mais fotos que você consegue aproveitar.

Como a fotografia digital é “grátis”, os fotógrafos experimentam muito mais (e aprendem muito mais rapidamente). Mas isso também significa que você vai esgotar a vida útil de um obturador se você for um fotógrafo dedicado e mantiver a sua câmera por alguns anos. Mesmo as câmeras profissionais possuem obturadores limitados a aproximadamente trezentas mil exposições mais ou menos, e eu conheço um monte de fotógrafos de esportes cujas câmeras já passaram da marca de um milhão de fotos! Eu mesmo já tive que trocar obturadores das minhas câmeras algumas vezes. Isso por si só não é nada de mais, enquanto houverem partes sobressalentes disponíveis no mercado. Porém, se alguma coisa dá errada com os componentes eletrônicos, sua câmera pode se tornar um belo peso de papel se o fabricante parar de fabricar as placas e circuitos para troca. Chips não são algo que você possa trocar tendo alguns anos de experiência como fotógrafo, diferente de obturadores mecânicos, por exemplo.

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Por me estoy comiendo el sol

Lentes: Até as lentes modernas sofrem desse mal. Sim, elas ainda são feitas de vidro e helicóides, mas elas também são bastante dependentes de um monte de componentes eletrônicos pra controlar funções de foco e abertura do diafragma. E não vamos nem falar daquelas com giroscópios ativados magneticamente  pra melhor estabilização. Nem mesmo os motores em anel sem núcleo usados pra agilizar o foco são infalíveis. As primeiras lentes AFS da Nikon ficaram famosas por precisarem de reparos nada baratos quando elas começavam a fazer rangidos e chiados estranhos.

Novamente, você vai se ver num mato sem cachorro se um dos componentes eletrônicos pifar. A única exceção fica por conta das lentes totalmente mecânicas da Leica e da Zeiss. Essas provavelmente sobreviverão até ao apocalipse.

Baterias e cabos: qualquer um que tenha uma câmera mais antiga que use baterias Ni-MH ou Ni- Cd vai se identificar com esse problema: uma vez que as baterias deixam de estar disponíveis, você ganha um peso de papel. E a natureza inerente da química diz que isso pode acontecer em cinco anos, dez, se você tiver sorte. Eu fico feliz de não ter nenhuma câmera que entre nessa categoria, mas eu tenho algumas baterias de lítio que já foram tão usadas que já estão praticamente inúteis. E eu ficaria bem preocupado se descobrisse que elas não serão mais fabricadas em um futuro próximo.

Uma vez que os estoques ficarem zerados até no eBay, isso provavelmente significará o fim da linha (e quem sabe quão antigos os estoque de lá são). Outra coisa que eu realmente odeio é a necessidade de se usar cabos de video de formato proprietário pra coisas como video ou USB. Se você perde ou estraga aquele adaptadorzinho que veio com a câmera, você provavelmente não vai ter muitas sorte conseguindo um substituto, a não ser que seja um modelo de câmera realmente popular. Mas, até hoje, que eu saiba, nenhuma câmera chegou a esse nivel de popularidade. Pelo menos, pra nossa sorte, alguns fabricantes vêem a lógica em usar cabos mini-USB padrão ou minijacks de 3.5mm, assim como em usar padrões para baterias e recarregadores…

Midias de Armazenamento: Esse é um assunto que me preocupa muito. A gente já viu grandes mudanças de um tipo de midia digital pra outro, com praticamente nenhum suporte ao modelo anterior depois que ele sai de moda. CDs gravados em casa de alguns anos atrás parecem ser causas perdidas quando se fala de leitura dos mesmos, DVDs criados logo que o formato nasceu são problemáticos por causa da tecnologia usada, e alguém aí tentou fazer funcionar um HD antigo recentemente? Eles nem sempre funcionam. A melhor forma que encontrei até agora pra manter meus arquivos e backups foi usar HDs externos, limitando o tempo de uso deles (se não estiver usando, deixe eles desligados), e trocando-os por modelos mais novos de dois em dois anos (por vários motivos:  primeiro, maximizar a compatibilidade futura. Segundo, aumentar a disponibilidade de espaço. Terceiro, uma fé de que tecnologias mais modernas serão mais confiáveis. E, por último, porque os HDs antigos podem ser colocados como backups complementares.

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Por Larice Barbosa

Online: Se você armazena suas fotos online, tenha certeza de ter um backup offline. Eu tenho certeza que o site KodakGallery tinha um monte de usuários tranquilos… pelo menos até eles terem tirado o site do ar mês passado. Eu tenho medo de pensar o que pode acontecer com os servidores quando as tias e tios de todo mundo perceberem que todas as suas fotos estão lá e que precisam ser baixadas imediatamente, ou pior, se esquecerem de que elas estão lá. O maior problema é que, geralmente, não existe backup automático pra esses serviços. Você tem que baixar as imagens uma a uma. Se, por exemplo, o Flickr sair do ar, eu perderia mais de treze mil imagens (pelo menos suas versões pequenas, pra web). Isso não seria tão crítico, a não ser pelo fato de que todas as imagens do meu site pessoal estão hospedadas lá. Mas, ainda assim, daria pra recuperar. Mas não seria legal.

Compatibilidade de arquivos: De todos os problemas que os fotógrafos digitais podem vir a encontrar no futuro, esse é de longe o maior. Não estou tão preocupados com JPEGs, porque esse parece ser um formato que chegou pra ficar. O que me preocupa é ter que abrir esse monte de arquivos RAW no futuro. Até agora, o Adobe Camera Raw tem feito um ótimo trabalho mantendo compatibilidade total com câmeras antigas (o que explica porque os arquivos do programa atualmente são tão grandes). Mas eu fico pensando o que vai acontecer se essa plataforma mudar no futuro. Nós podemos apenas torcer pra que a demanda pra esse tipo de serviço continue grande o bastante pra que os fabricantes continuem produzindo esses produtos. Uma segunda leva de arquivos DNG** pode ser uma opção pra organizar seus arquivos. Porém, é mais do que sabido que o (ACR) Adobe Camera Raw não é a melhor opção de  conversão pra todos os tipos de arquivos, e que imagens de maior qualidade podem ser conseguidas através da conversão usando-se outros programas específicos para determinadas câmeras. Logo, eu me preocuparia com quais dados e informações não estão sendo corretamente convertidas/transferidas para o novo formato. Eu não tenho uma solução pra isso, a não ser manter uma coleção completa de arquivos TIFF não comprimidos, cuja codificação é relativamente simples, e para a qual não deve ser tão difícil assim manter suporte no futuro.

Sem Título / Untitled

Por André Corrêa

Existe um último assunto sobre o qual eu gostaria de falar aqui, e é sobre ecossistemas. Não estou dando uma de Greenpeace. Eu me refiro especificamente ao suporte técnico que é necessário pra se manter um fluxo de produção digital, e inclui de tudo, desde cartões de memória até cabos, baterias e computadores envolvidos. Deixando as competições relacionadas à qualidade de lado, acredito quer temos que pensar em um upgrade completo em todo o nosso material a cada três ou cinco anos.

Já não é apenas com o corpo da sua câmera que você tem que se preocupar hoje em dia. Mas também com o computador que você usa pra manipular aqueles arquivos enormes, atualizações de Photoshop pra se obter o máximo de seus arquivos RAW, cartões de memória mais potentes e HDs pra guardar tudo, até mesmo um monitor maior, com m ais resolução. E tudo isso, é claro, custa dinheiro.

Existem duas formas de lidar com isso. Se você é um hobista, um amador, eu recomendo comprar um pacote completo de elementos compatíveis entre si, e ficar com eles até que um dos elementos críticos comece a dar problema, ou morra e tenha que ser de fato substituido. Isso deve te dar pelo menos uns cinco anos de uso, provavelmente até mais. O lado bom é a economia. O lado ruim é o baixo valor de revenda que você vai ter no final.

Como profissional, você provavelmente vai ter que considerar o outro extremo: fazer upgrade assim que uma nova versão aparecer. Seu equipamento usado ainda vai ter um valor de revenda, e isso poderá te ajudar a diminuir os custos do upgrade. Trocas incrementais do equipamento de suporte podem ser feitas por um custo relativamente baixo, e te mantêm competitivo. Eu sou um early adopter masoquista, e pior isso sempre pego esse último caminho.

Agora, é muito importante escolher um caminho e ficar nele (ou trabalhar com filme. Aí é só comprar uma câmera e ficar com ela pelo resto da vida). Ou você vai ficar perdido pra sempre em uma terra de ninguém de gastos infinitos.

*Novamente, vale lembrar que a abordagem dele aqui é a de um fotógrafo profissional…

** Formato usado por fotógrafos e empresas produtoras de software pra tentar padronizar os arquivos fotográficos de alta qualidade, conhecidos como RAW. DNG = Digital Negative = Negativo Digital.

OBS: Por solicitação do autor, publico abaixo o rodapé que ele mantém em todos os seus posts. Ou seja, as palavras, e os links, abaixo, são dele, e não meus :-)

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comentários
 
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  • 21/07/2012 em 10:11 am

    Opa Ëmerson! Realmente o post não é só analógico, mas é isso que é legal, né? A comparação e as diferenças dos dois universos… obrigado! :-)

    Responder

  • 17/07/2012 em 9:33 pm

    Muito interessante este post. Embora fuja um pouco do foco analógico, acredito que para muita gente que, assim como eu, também faz uso constante do digital, esse texto é muito interessante, um texto maduro e profissional, como poucos encontrados na net, algo levado a sério até a raiz da questão. Parabéns, excelente post!

    Responder

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