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Podrão-lab: a experiência que tinha tudo para dar errado, mas não deu :-)

por em 26/07/2012
 

Pentax K1000 + Ultrafine 400, rebobinado

Um dia meu amigo Thiago Saraújo me pediu ajuda para organizar um depósito na universidade onde trabalhamos. Em meio a um monte de tranqueiras do estúdio fotográfico e de outros departamentos, encontramos uma caixa cheia de químicos para revelação de filmes preto e branco. Todos vencidos.

Tinha vários pacotes de D-76 (o mais novo venceu em agosto de 1998) e também muitos fixadores da Kodak (o mais novo vencido em 2007).  Pensamos que não prestavam e quase jogamos fora, mas resolvemos guardar para brincar com eles mais tarde. Nunca tínhamos revelado filmes antes, o que nos fez agir com cuidado, mas tornou tudo ainda mais divertido.

Depois de algum tempo (meses), com ajuda de outro amigo, Jorge Borges, também leigo no assunto, montamos o laboratório em um banheiro desativado e preparamos os químicos. Rebobinei um filme Ultrafine 400, carreguei uma Pentax K1000 com ele e saímos para fotografar. Mais tarde, Jorge e eu revelamos o filme e tcharam! Não é que o negócio prestou?

Reparem como os grãos ficaram finos

Deixamos o filme no revelador por 7,5 minutos (orientação do Digital Truth), com 30 segundos de agitação constante no início do processo e mais cinco agitações a cada minuto (invenção minha). Depois ficou no fixador por cinco minutos, seguindo o mesmo esquema de agitação. Sinceramente, não sei se fizemos certo. Se alguém tiver alguma correção a fazer, fique à vontade.

Deu certo. Mas, pensando bem, acho que o revelador não funcionou exatamente como deveria. Talvez o fato de estar vencido há 14 anos tenha influenciado nisso (“Jura?”). As altas luzes, que levam mais tempo para serem reveladas, não apareceram e as fotos acabaram ficando muito cinzas.

Dá para ver os aranhões…

Por falar nisso, os tons de cinza ficaram meio engraçados, com um toque de magenta, e o contraste ficou uma bosta. Em compensação, os grãos ficaram minúsculos, o que me impressionou bastante. Principalmente por se tratar de um filme rebobinado, barato, de segunda linha.

O rebobinador deixou uns arranhões no filme. No começo achei ruim, mas depois de puxar um pouco o contraste no PhotoShop até que gostei. “Como assim, PhotoShop? Vocês se metem a revelar filme e depois cometem uma heresia dessas?” Veja bem, não vou nem discutir com você, tá?. Só vou dizer o seguinte: Esquece. Não existe fotografia sem manipulação. Relaxa e aproveita.

No dia seguinte testamos um Kodak T-max 400. Segundo o DigitalTruth, deveríamos deixar 7,5 minutos no revelador, mas deixamos 12, para tentar alcançar os tons mais claros. Quase chegamos lá. Acho que mais um ou dois minutos e teria ficado ótimo. Mas o contraste melhorou sensivelmente. Claro que o T-max é bem melhor que o Ultrafine, não resta dúvida. Mas tenho certeza de que o tempo maior no revelador fez muita diferença.

Agora vou dar a palavra aos outros alquimistas do grupo. Contem aí, o que acharam da experiência?

Thiago Saraújo – Apesar de conhecer teoricamente como se dava o processo de revelação, eu nunca tinha me arriscado a por a mão na massa e misturar os químicos para ver no que dava. Tínhamos tudo em nossas mãos, um laboratório carregado de histórias, que estava parado havia muitos anos, e uma caixa cheia de químicos vencidos. O que nos faltava era a ousadia de separar um espaço no “depósito”, antigo laboratório, que já foi banheiro antes disso, para darmos início a um projeto que antes só existia em nossas ideias.

Pois bem, nosso projeto começou a andar. De início fiquei receoso com nossos químicos vencidos há quase 14 anos. De novo, tínhamos apenas nosso termômetro de quase 40 conto e os filmes do Samuel. O restante estava trancafiado naquele velho laboratório. Nosso projeto deu resultado e logo renderá muitas experimentações, por enquanto estamos no básico P&B, mas quem sabe onde iremos chegar? Agora é só continuar pesquisando e experimentando no nosso “Podrão”. Quem sabe até esse nome evolua para algo mais simpático.

Se a mudança de nome depender da renovação do estoque de químicos, acho que vai demorar. Acho que tem uns oito pacotes de fixador e uns 15 de revelador.

Jorge Borges – Gostei bastante da experiência. Tive dificuldade pra entender o processo no começo, mas no final funcionou bem. Apenas uma pequena dificuldade de minha parte pra colocar o filme na espiral, o que me deu certo “trabalho” até eu desistir e passar a vez.

O que exigiu mais paciência no desenvolvimento todo foi esperar a água alcançar a temperatura ideal. A ansiedade aqui não deixava a gente esquecer que a água precisava estar em 20°C. 

Pois é, e quem sofreu mais com essa coisa de esperar a água (que não era água, era D-76 rs) esfriar fui eu, Samuel. Levei os químicos para minha sala e liguei o ar-condicionado no talo! Fazia um frio de 16°C lá dentro e o revelador foi baixando sem pressa dos 52°C até 20°C. Levou umas três horas e eu quase congelei enquanto esperava.

Agradecimento especial a Mariana de Ávila, que operou brilhantemente o interruptor da lâmpada e garantiu que o laboratório ficasse escuro, quando precisava ficar escuro; e iluminado, quando precisava ficar claro. Sem ela não teríamos conseguido.

Mais fotos para vocês:

EOS 30 + T-Max 400

EOS 30 + T-Max 400

Pentax K1000 + Ultrafine 400

EOS 30 + T-Max 400

Pentax K1000 + Ultrafine 400

Pentax K1000 + Ultrafine 400

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comentários
 
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  • Damião
    12/05/2013 em 12:35 pm

    Que demais, Samuca.
    Tenho em mãos um fixador vencido em 11/2012 que usarei hoje. Fiquei muito tranquilizado com os resultados do seu vencido hà 14 anos. :)
    Bela experiência!

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  • Thomaz Frias
    30/08/2012 em 9:46 am

    Muito legal, parabéns.
    Sobre o tom magenta, por a imagem estar em RGB, esse tom pode ser a cor da base do filme. Aconselho a tirar a saturação da imagem digitalizada, já que não existe tom de cor em fotografia PB, não é mesmo?
    E sobre o contraste no Photoshop, é mais que normal, afinal usamos o filtro de contraste na ampliaçao. :)
    Quem nega usar Photoshop nas suas digitalizações, não está extraindo tudo o que a película pode oferecer. É o mesmo que ampliar sem nenhum controle de tempo de exposição do papel, contraste, dodge, burn e etc.

    abraços!

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  • IK
    23/08/2012 em 6:36 am

    Para primeira vez e usando químicos vencidos ficou muito bom! Parabéns! Da próxima tente também ampliação pois garanto que é mais divertido!

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  • 09/08/2012 em 5:44 pm

    Eu achava manipulação heresia também, mas depois do post do André, tive que mudar de idéia. Afinal, a parte da manipulação digital também dependerá – e muito, da sua criatividade. Ferramentas todos tem, mas o que o artista faz com ela, é que faz toda a diferença. Eu por exemplo, mando tão mal em edição de imagens, que um céu com nuvens se confundiria com um saco de pão amassado tranquilamente…

    Parabéns pelas fotos, ficaram incríveis!

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  • Guilherme Assis
    03/08/2012 em 10:24 am

    Parabéns pelas fotos. Gostei da ideia.
    Agora quero saber onde é o Podrão-Lab pra revelar uns filmes antigos lá, rs.

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    • 04/08/2012 em 7:07 pm

      Uai, procura a gente lá. Aproveita enquanto o laboratório não é reativado oficialmente, porque depois a coisa vai ficar….digamos….burocrática. Você entendeu, né?

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  • Juliano
    26/07/2012 em 6:33 pm

    Samuel, lembro-me quando vc perguntou no FB sobre o que fazer com esses químicos… taí o resultado. Eu gostei e posso te dizer que estão como deveriam. Sim, talvez tenham perdido um pouco do poder revelador mas gostei do resultado. Não achei que faltou revelação nas altas, pra mim, quando fica um branco total, sem detalhes é que faltou revelação nas altas, qdo tem textura e informação nas altas ela está revelada. O problema que vc achou, ao dizer que estão muito cinzas, pode ser a digitalização.

    No mais, forte abraço e parabéns pelo processo e pelo achado. Só tinha D-76? Nenhum Ilford para compartilhar com o amigo aqui???… rs…

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    • 27/07/2012 em 1:05 pm

      Pois é, até que não ficou ruim, mas acho que faltou contraste. Como primeira experiência, considero muito bom, até. Principalmente se levarmos em conta as condições em que foi feita a coisa.

      Os químicos que tenho aqui são D-76, microdol e dektol. Se quiser trocar um dektol 18 anos por um ilford jovem é só falar! rs

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      • Juliano
        27/07/2012 em 5:38 pm

        hahhahha… to fora. Estou a procura de um Ilford ID-11. O dektol é revelador papel… por enquanto ainda não estou brincando com ampliações.

        Realmente algumas faltou contraste, mas não podemos culpar 100% a revelação por isso. Muito vezes o assunto tinha pouco contraste, ou a exposição criou um negativo sem contraste.
        Abraços e mostre mais coisas dessa aventura.

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  • 26/07/2012 em 1:09 pm

    Mas que resultado surpreendente!! Alquimia fotográfica sempre com belas surpresas. As fotos ficaram ótimas e acompanhar o processo desde o começo deve ter sido ainda melhor! Estou louco pra montar meu kit de revelação caseiro, mas infelizmente tá difícil encontrar o tanque…

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