5comentários

Pra Pensar: Você está (sempre) pronto pra tirar “aquela” foto?

por em 03/08/2012
 
Por

Por Nick Ut

O post de hoje é #prapensar…

A imagem aí do lado é conhecida da maioria dos fãs de fotografia de guerra. Ela foi feita por um cara chamado Nick Ut, durante a Guerra do Vietnã, e retrata uma menina nua, bastante queimada, após um ataque de Napalm feito pelo exército dos EUA. Essa foto, como seria de se esperar, em um momento em que a fotografia era a melhor forma de fazer quem estava de fora da guerra saber o que acontecia lá dentro, chocou todo o mundo, inclusive os americanos, e foi bastante usada pelos que defendiam o fim imediato da guerra. Ou seja, essa foto – assim como outras no decorrer da história – se mostraram muito mais do que simplesmente uma foto, mesmo que o fotógrafo não tivesse essa intenção.

Burnett, posando de cool e descolado pro espelho…

“Mas e daí?” E daí que recentemente outro fotógrafo que estava lá, junto com Nick Ut, chamado David Burnett, deu uma entrevista pro The Washington Post contando, dentre outras coisas, como ele perdeu essa foto porque não estava com o equipamento preparado. Suas câmeras tinham acabado de ficar sem filme, e ele estava tentando trocar os rolos exatamente no momento do ataque. Quando acabou de recarregar sua câmera, já era tarde demais. Ele havia perdido uma das fotos mais importantes da história.

E ele diz o que aprendeu com isso, na entrevista:

“Depois desse dia, meu senso de estar “fotograficamente pronto” passou a ser mais acurado. Meu instinto me ajudou bastante em várias histórias depois disso. Você nunca sabe o que vai acontecer em seguida. Antecipar o que pode acontecer, o que pode vir a acontecer. Essa é a chave para ser um grande fotógrafo.” 

Ou seja, traduzindo em miúdos menos dramáticos e poéticos, ande sempre com sua câmera carregada, e filmes à mão. Mesmo sendo apenas um amador, você nunca sabe quando uma PUTA foto vai se apresentar bem na sua frente*.

Mas é importante também estar preparado pra continuar quebrando a cara mesmo tomando todos os cuidados. Você acha que o nosso amigo David nunca mais teve problemas com câmeras sem filme? Olha só o que ele conta no final da entrevista:

“Em março de 1979, (…) eu fui designado como fotógrafo oficial do Acordos de Paz que estavam sendo negociados pelo presidente (dos estados unidos, Jimmy) Carter entre Egito e Israel. Era um dia histórico, com muita cobertura de canais de TV e fotógrafos. Eu estava carregando minhas três câmeras, mais outras duas de fotógrafos amigos, já que eu tinha sido colocado em uma posição onde eu conseguia ver os três signatários: Carter, Begin e Sadat. 

Assim que eles entraram no palco, eu comecei a fotografar. Eu fotografava loucamente enquanto eles assinavam os documentos e os passavam uns para os outros. E, em um momento mágico, depois de todos abaixarem suas canetas, eles se levantaram e, inesperadamente, se cumprimentaram, apertando as mãos, umas sobre as outras, enquanto rajadas de vento balançavam as três bandeiras atrás deles. Essa era a foto. Enquanto levantava uma de minhas câmeras, me dei conta de que o filme dela já tinha sido totalmente usado. Peguei outra câmera: mesma coisa. E então a terceira, a quarta, e a última câmera. Pânico. Eu estava sem filme em todas as cinco câmeras, e mesmo com um carregador motorizado, eu estava a no mínimo de 25 a 30 segundos de tirar uma foto.

A foto que Burnett não tirou, mas que dezenas de colegas dele tiraram…

Não houveram mais apertos de mão espetaculares. Mais nenhum cumprimento diplomático. Tinha acabado, e eu não tinha sequer uma foto daquele momento que, na minha opinião, falava por si só.”

Pois é… #prapensar ;-)

* É claro que você pode sacar seu iPhone, ou sua digital compacta. Afinal, o importante é tirar a foto! Mas esse é um site de fotografia de filme, então vamos falar de problemas de fotografia de filme, né? ;-)

Quanto vale esse post pra você?
Pense nisso e, se achar justo, colabore conosco! Você pode apoiar o Queimando Filme através de doações (faça a sua aqui!), divulgando esse post para seus amigos, ou até simplesmente clicando nos banners dos anunciantes! Tudo isso ajuda o Queimando Filme a continuar postando conteúdo de qualidade para todos os amantes da fotografia analógica ;-)

comentários
 
Deixe uma resposta »

 
  • luiz h. carneiro
    20/02/2014 em 1:35 pm

    Acho que a pergunta que não se cala é mais do que técnica, é uma questão de humanidade, a foto da menina correndo nua pode ter tido mais repercussão para o fim da guerra do que se ele tivesse parado de fotografar e ir ajuda-la… Mas na hora ele não sabia disso, e ai quem aqui deixaria de ajudar uma criança queimada viva, para bater uma foto… Ele pode ter batido a foto e corrido para ajuda-la depois, mas mesmo assim tem que ter muito sangue frio…

    Responder

  • 02/09/2012 em 11:21 am

    Pois é. mas essa preparação é maior que o filme: é uma preparação de “presença de espírito” mesmo. De envolvimento com a cena. É difícil a gente fazer uma foto se não pensou a imagem como uma fotografia possível antes. Quem aqui nunca perder “a foto” de um acontecimento por pura “amarelação”? Eu já! rs

    Responder

  • kalyua
    09/08/2012 em 12:46 am

    a resposta é: NÃO!
    Agora a (outra) pergunta que ficou foi: Como ele conseguiu acabar com filmes de 05 câmeras??? serio! Numa cena tao banal e repetitiva… fiquei pensando… rsrsr!

    Responder

  • 07/08/2012 em 5:53 pm

    Minha resposta é não, não estou preparada. A primeira foto ainda me choca!
    Eu sempre me pergunto por que o fotógrafo não tomou uma atitude, diante de certas cenas/situações, em vez de parar pra tirar uma foto. Ainda mais quando é algo que suplica ajuda/solidariedade.
    Mas eu sei que a resposta é que, o que ele fez valeu muito mais, ao fotografar, ecoou aquele grito pelo mundo…

    Responder

  • Thiago
    03/08/2012 em 3:09 pm

    Resumo: se você está ao lado do David Burnett, não precisa fotografar igual a um louco, é só esperar o filme dele acabar que com certeza vai aparecer a oportunidade de uma foto espetacular! rs

    Responder

Deixa aí seu comentário!