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Estudando folhas de contato, Parte 1: Momento ou momentos decisivos?

por em 09/08/2012
 

“Uma das melhores formas de se aprender como entrar na mente de um fotógrafo é estudar suas folhas de contato.
– Eric Kim”

Eu estava a um tempão pra escrever um review sobre o fantástico (e incrivelmente caro, custando de 300 a 450 reais) livro “Magnum Contact Sheets”. Mas como não o tenho (eu mencionei o quão caro ele é?) e nem sei se um dia vou ter (porque ele é caro), ainda não consegui parar pra analisar ele, em uma livraria mesmo, profundamente o bastante pra me sentir à vontade pra escrever um texto sobre.

Foi aí que esbarrei nesse texto do fotógrafo de rua Eric Kim, com o qual me identifiquei loucamente, e que decidi traduzir pra vocês*. Ele vai bem além de falar o quanto o livro é incrível, e questiona interpretação que temos da principal “verdade” da fotografia de rua: o “momento decisivo”. Quer ver? Dá uma lida… fala aí, Eric!

Duas fotos que Cartier-Bresson fez da mesma cena. Espanha, 1933, Andaluzia, Sevilha.

Um dos maiores equívocos que eu sei que correm no meio da fotografia de rua é “o mito do momento decisivo”. Mas o que eu quero dizer quando digo que “o momento decisivo” é apenas um mito?

Bom, é claro que geralmente existe um “momento decisivo” quando você aciona o disparador, para capturar aquele momento exato que você deseja que esteja em uma foto.

Porém, um dos mal entendidos mais comuns que afetam fotógrafos de rua (incluindo eu mesmo) é o de que o momento decisivo é (ou está) em apenas um click, uma foto. Depois de estudar muitas folhas de contato do livro Magnum Contact Sheets, me tornei capaz de alcançar um novo nível de entendimento da mente do fotógrafo de rua.

Ficou curioso? Continue lendo, então.

Atrás da Gare Saint-Lazare, 1932.  Henri Cartier-Bresson

Definindo “O Momento Decisivo”

Henri Cartier-Bresson define “O Momento Decisivo” da seguinte forma:

“Há uma fração de segundo criativo quando você está tirando uma foto. Seus olhos devem ver uma composição ou uma expressão que a própria vida oferece a você, e você deve saber com intuição quando clicar na câmera. Esse é o momento em que o fotógrafo é criativo. Oop! O Momento! Uma vez que você o perde, está perdido para sempre.”

Na primeira vez que li esse parágrafo, eu pensei que Henri Cartier-Bresson (assim como tantos outros fotógrafos de rua famosos) ficavam simplesmente esperando pelo momento decisivo e apertassem o disparador quando ele acontecesse.

Porém, eu estava enganado pensando dessa forma, porque HCB não tirava apenas uma foto quando via que um momento decisivo estava prestes a acontecer (David Hurn se refere a isso como o “momento fértil”), mas sim várias fotos da mesma cena.

Folha de contato de Criança com uma Granada de Mão de Brinquedo no Central Park, Nova Iorque, USA . Diane Arbus

O que é uma Folha de Contato?

Uma das melhores formas de se aprender como entrar na mente de um fotógrafo é estudar suas folhas de contato. Mas o que é uma folha de contato exatamente?

Uma folha de contato é quando você fotografa um rolo de filme, deita todas as tiras do negativo revelado em cima de uma folha de papel fotográfico, e então o revela, pra que possa ver todas as suas fotos de um rolo de filme em uma única folha de papel.

[Nota do QF: É uma explicação confusa e simples demais, na minha opinião. Se você, caro leitor que não entende nada de ampliação analógica, não entendeu, dá uma olhada nesse link pra entender o processo em si e nesse outro pra entender como se faz a tal da folha de contato.]

Criança com uma Granada de Mão de Brinquedo no Central Park, Nova Iorque, USA (1962). Diane Arbus

As imagens vão aparecer bem pequenas, é claro, e você vai precisar de uma lupa ou outro tipo de lente de aumento pra inspecionar suas imagens. “Tirar uma boa foto de uma folha de contato” segundo Cartier-Bresson “é como descer ao porão e voltar com uma boa garrafa de vinho.”

Como a maioria de nós fotografa com câmeras digitais hoje em dia, podemos usar o Adobe Lightroom ou qualquer outro programa de gerenciamento de imagens pra inspecionar nossas fotos.

[Nota do QF: Na verdade essa mesma frase vale pra nós, amadores analógicos. Como hoje em dia é difícil achar quem faça uma folha de contato, scanear as fotos e inspecioná-las no Lightroom também é uma excelente opção pra nós…]

Logo, quando você estuda uma folha de contato de um fotógrafo, você consegue entrar no cérebro dele. Por exemplo, você pode ver quais fotos ele tirou durante a cena toda, assim como a foto que ele escolheu.

Duas fotos da mesma cena que Henri Cartier-Bresson fotografou. Existem mais umas 4 ou 5 fotos da mesma cena, mas não estou encontrando elas online agora. Acima, A foto mais conhecida. Abaixo, Quando as crianças perceberam a presença de HCB, o momento se foi.

Olhando as folhas de contato de Henri Cartier-Bresson

Se você observar várias das folhas de contato de Henri Cartier-Bresson, vai ver que muitas das suas imagens mais memoráveis não foram feitas com apenas um disparo, mas sim selecionadas de uma série de fotos da mesma cena.

Por exemplo, uma das minhas fotos favoritas de HCB (ao lado) é um momento incrível. Você vê as crianças brincando nos escombros, totalmente alheias a guerra que acontecia a volta deles, e os olhares de pura alegria e prazer em seus rostos. Todos eles posicionados perfeitamente no quadro, com suas expressões únicas, fazendo da imagem algo memorável.

Porém, ele não ficou simplesmente esperando pela foto ideal e depois foi embora. Ao invés disso, ele disparou várias vezes na mesma cena, e só depois escolheu a foto que melhor representava o momento.

Ele fez várias fotos na horizontal, e até umas na vertical. Você pode ver (pela folha de contato) que ele capturou “o momento decisivo” logo no começo da cena, e que a magia se foi logo em seguida, quando as crianças se deram conta de que ele estava ali.

A foto famosa. Espanha. 1933. Valencia. © Acervo de Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

Outra imagem da qual gosto muito é a de uma foto que ele fez na espanha, de um homem misterioso olhando através de uma portinhola. O homem está ligeiramente fora de foco, usa um chapéu, e está olhando levemente para o lado, e uma das lentes do seu óculos tem um forte reflexo. Isso dá a imagem um ar misterioso, enquanto algo acontece no fundo da foto, à esquerda da imagem, o que acrescenta uma tensão à foto.

O homem subitamente olha pro outro lado, e o momento deixa de existir. spanha. 1933. Valencia. © Acervo de Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

Novamente, HCB não tirou somente uma foto. Ao invés disso, ele esperou que a cena se desdobrasse e fez múltiplos disparos. Em algumas das fotos a cabeça do homem está virada, e em outras seus dois olhos estão visíveis através dos óculos (eu não tenho essas imagens aqui, mas as vi no livro Magnum Contact Sheets). Porém, quando ele se vira de leve e faz uma cara pensativa – esse é “o momento decisivo”. Eu duvido que Henri Cartier-Bresson tivesse esta imagem exata já em sua mente quando ele estava fazendo as fotos. Pelo contrário, eu assumo que ele descobriu a imagem somente depois, quando estudava suas folhas de contato.

E ai? Curtiu? Amanhã a gente continua o post, com Eric Kim falando sobre porque devemos disparar várias vezes ao darmos de cara com algo interessante… mesmo quando estiverem te olhando feio ;-)

* Caso você esteja se perguntando, o Queimando Filme tem a autorização de Eric Kim para tradução e publicação de todos os textos publicados no site http://erickimphotography.com/. Aliás, o Eric tem também a nossa autorização pra publicar nossos posts lá… mas algo me diz que ele nunca vai fazer isso ;-)

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comentários
 
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  • Luciana
    12/06/2013 em 1:40 pm

    O Instituto Moreira Salles publicou uma versão em português do livro e está R$ 190,00.

    Responder

  • Ricardo Sanchez
    11/08/2012 em 10:32 am

    Acredito realmente que a maioria dos fotógrafos trabalham dessa maneira. Porém na palestra que Andy Karr fez em SP a alguns meses, sobre fotografia contemplativa, ele disse que tire sempre, somente uma foto do motivo, porque ele acredita que depois disso perde-se a magia do momento. E realmente acho que é algo a se considerar.

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    • Felipe
      11/08/2012 em 11:20 am

      Isso que o Andy falou é uma grande cagação de regra. Se fosse assim, nos filmes, só rodariam um take. Nada pior do que revelar um filme e ver que vc errou a
      Foto por meio segundo. Fora que grandes fotos da historia tem mais de um take. Salve raras exceções.

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  • Marcelo
    10/08/2012 em 10:29 am

    Na Amazon este livro está US$ 94,50. Com os US$ 10,00 de envio dá US$ 104,50.
    Como o dólar está mais ou menos R$ 2,00, o livro vai sair por uns R$ 209,00. Bem mais barato.

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  • Marianne
    09/08/2012 em 11:21 pm

    Ou eu sou muito lerda ou minha mente não consegue processar de jeito nenhum essa foto do homem da portinhola. A sensação que tenho que é o homem (do fundo da foto) esta saindo de tras da madeira com desenho do meio circulo (o que da uma desproporção surreal pra imagem), e não lá do fundo da foto.
    Será que mais alguem, a primeira vista, entendeu assim?

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  • Felipe
    09/08/2012 em 7:27 pm

    Cara, na boa. Não usa a citação do Eric Kim como algo realmente válido. Ele é só um carinha, que tira umas fotos bem meia boca, e fica dando uns workshops por ai, pra um monte de nego sem talento e todo mundo fica querendo chupar as bolas dele… Sério, teu blog é legal, não vamo ficar dando mais moral pra um cara que é bem mais ou menos. Abraço

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    • 09/08/2012 em 9:53 pm

      Oi Felipe! Olha, não me entenda mal. Mas eu não citei a frase por ser de quem é, mas sim porque gostei dela, assim como gostei do texto todo. Não curto louvação à personalidades vivas ou mortas. O que gosto é de divulgar coisas legais que encontro. Nesse caso, é exatamente isso: um texto que achei legal. Poderia ser do dono da padaria daqui da esquina, e eu teria publicado da mesma forma. :-)

      Abs e obrigado!

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    • 10/08/2012 em 4:29 pm

      Realmente, fotos beeeeem meia boca mesmo!
      Ele é tipo uma Lady Gaga da fotografia, muito hype para pouco talento.
      Para o que falam dele, era de se esperar fotos muito melhores.

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  • 09/08/2012 em 4:23 pm

    Artigo muito interessante!
    Sempre curti as folhas de contato ou como aprendi, “provas de contato”.
    Tenho as minhas ainda guardadas e ainda hoje gosto de visualizar as imagens no Lightroom de uma forma semelhante às provas de contato, para classificá-las e depois fazer alguns ajustes.
    E é isso mesmo que o artigo diz. Vendo a prova de contato se têm uma idéia muito precisa sobre como pensou o fotógrafo durante seus cliques.
    Comparo as provas de contato às estórias em quadrinhos. De uma foto à outra, uma estória vai sendo contada.
    Sobre o “momento decisivo”, acredito que ele exista, tal como descreveu o Bresson. Nós é que imaginamos que ele seria realizado numa única tentativa.
    Entendo que, por mais que façamos 3, 7, 15 fotos de uma mesma cena/assunto, aquela que escolhemos como “A foto”, foi aquela que no momento exato do clique, tudo estava em perfeita harmonia.
    É claro que, quando isso ocorre numa única tentativa, torna o feito ainda mais impressionante.

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