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Mário Bock e suas… 2.800 câmeras!

por em 14/08/2012
 

Quem esteve recentemente na Consigo, famosa loja de fotografia em SP, teve a chance de ver parte (uma pequeniníssima parte, na verdade) da vasta coleção de câmeras de filme do fotógrafo Mário Bock. Eu não tive essa sorte (mas quero ir lá assim que der), mas achei que seria legal bater um papo com esse apaixonado por câmeras. Afinal, um cara que tem quase três mil câmeras fotográficas em casa merece nossa atenção, né?Desse papo saiu uma entrevista bem legal. Até porque, diferente do que você pode estar pensando, ele não é um maníaco por fotografia com filme. Ele é um apaixonado por fotografia :-)

O Mário é jornalista e fotógrafo (especializado em motos) e (segundo ele mesmo :-) “atualmente, o maior especialista e testador do Brasil, quiçá do mundo, de câmeras digitais, de filme e clássicas”. Trabalhou durante muitos anos na revista Fotografe Melhor, de onde se afastou recentemente. Contra sua vontade.

Mas, sem mais enrolação, vamos a entrevista, onde ele fala de suas câmeras queridas, e um pouco dos seus anos de fotógrafo.

Pra começar uma pergunta fácil: quantos rolos de filme você já queimou (usou) na vida?

Bom considerando que comecei a fotografar com uma Kodak Rio 400, em 1965, quando tinha 13 anos e idade e não parei mais, acho que já cheguei à casa dos um milhão de filmes, p&b, negativos, slides, lito (alto-contraste), tipo infra-vermelho e outros.  Ah, e também filmes de cinema de 8 e Super 8. Mas, calculando melhor, na profissão como fotógrafo desde os 21 anos,  usando uma média de 50 filmes 35mm por mês (nesse formato na maioria, pois sou fotojornalista), são então 600 filmes por ano, então queimei  cerca de 23.400 filmes. Cada filme, uma emoção na hora de fotografar e no momento de apreciar o resultado.

Quando te perguntam “mas você ainda fotografa com filme?” o que você responde (palavrões estão permitidos :-)

Bom, tenho tantas câmeras  de filme na minha coleção (cerca de 2.800) que realmente de vez em sempre boto um filme nelas e saio por aí fotografando.  Não profissionalmente (hoje tem de ser digital, não tem jeito, por muitas razões), mas sim para curtir uma câmera clássica, matar saudades do filme e de curtir o negativo revelado. Muito legal. Aliás, a parte mais legal no uso da câmera do filme é a revelação do negativos e ampliação do negativo. Sem essa etapa – mantenho meu laboratório funcionando aqui no quartinho da empregada – se perde pelo menos metade da gaça de usar a câmera de filme.

O analógico foi alí e já volta, já voltou, ou não volta mais? Ou nem foi?

Ai ai… como seria se a câmera analógica, de filme, nunca tivesse ido embora… Porém, acho que nunca foi embora, ou foi-se e não volta mais… ainda bem! Deixa explicar melhor essa confusão: a câmera analógica nunca foi embora, justamente porque a câmera digital, diga-se as reflex  nada mais é que a mesmíssima SLR de filme só que ao invés do filme ganhou o sensor e a parte eletrônica inerente, claro.

 

A câmera digital, considerando às autofocus de filme, são idênticas no ajuste da sensibilidade, na regulagem da sensibilidade, nos ajustes da velocidade, diafragma, foco, modos de exposição,  autobracketing… com as inúmeras vantagens da digital: não há custos de filme e de revelação, certeza da qualidade da foto, enquadramento mais preciso, correção de cor (white balance), ajuste maravilhoso da sensibilidade  ISO (a maioria dos filmes iam até 400 ASA…), rapidez no processamento e entrega do serviço pro cliente, facilidade no aprendizado… Outra vantagem é com a ecologia – a fabricação do filme e a revelação, com o revelador, ácido acético, hipossulfito (fixador) e tantos produtos usados na revelação do filme colorido, iam tudo para o ralo da pia…

Mário Bock e sua coleção (ou melhor, uma pequena parte dela) exposta na Consigo…

Como você equilibra digital e analógico nas suas vidas profissional e pessoal?

Profissionalmente falando só digital, não tem jeito, em especial devido aos custos do material, revelação e prazos de entrega ao cliente. Pessoalmente, vira e mexe saio com minha bela Nikon F2, outras vezes com a Canon F1 (eram concorrentes na época),  adoro as Asahi Pentax, as Konica, as Minolta. Outra câmera que adoro usar é a Fujica ST 701, de 1971, bela câmera e grande famíllia, inovadora na época. Outro dia fotografei com uma Zeiss |Ikon Super Ikonta, que usa filme 120, que vem com uma bela objetiva Carlm Zeiss Tessar 80 mm f/2.8. As Rolleflex, sempre.

Meu sonho ainda é usar as grandes câmeras de fole que usavam chapas de vidro 9 x 12 cm (depois acetato), produzias belas fotos, tenho um monte delas aqui, mas queria muito usar as chapas de vidro, voltaria com certeza no passado com as câmeras no tripé, pano preto para ajudar o foco no despolido, flash de magnésio….

Qual o maior prazer em fotografar com filme?

Nenhum, a não ser voltar nos velhos bons tempos em que os usava em quantidade. Prazer eu tenho com a revelação e na curtição do filme revelado, ainda pingando o fixador fedido. E depois ampliando no quartinho escuro.

135, 120 ou outro formato? Preto e branco ou colorido?

O filme 35mm é excelente. Dá pra fotografar sem parar… prazeres sem fim. O filme 120 vai numa câmera maior e visa fotos de qualidade extrema, e tudo tem de ser feito com mais calma… mais estudado, commaior precisão. O resultado sempre vale à pena.

Aliás, a câmera de médio formato acho que vale a pena ser usada por todos que querem curtir o filme fotográfico. Como é legal usar uma Rolleiflex, ou mesmo uma Yashica Mat, ou outras da família, que usam filme 120 e produzem grandes negativos 6×6 cm. A Rollei, com sua lente Carl Zeiss, até hoje gera fotos de incrível nitidez (principalmente as com lentes Tessar), é uma delícia dar o foco, avançar o filme, ajustar a velocidade e a exposição pelas janelinhas na parte superior… até o click final, um ruído que gera um prazer tão legal para o fotógrafo como o do motor de uma Harley Davidson…  Mas é muito importante que todas a câmeras de filme que se usa tenha lentes limpinhas, cristalinas, impecáveis, se não não vale a pena.

Quanto aos filme p&b, a curtição maior é revelar o filme. Acho que ainda existem químicas para revelar filmes coloridos e slides, mas disso não manjo nada. 

Falando da sua coleção agora… como ela nasceu? Em que pé ela está hoje?

Minha coleção começou em 1983 com uma filmadora na estante da sala. Depois vieram outras para sua companhia, e hoje a coleção lota o terceiro quarto do meu apartamento, o armário de roupas do meu quarto (estão lá as Nikon F, FM,FE, Nikormat…),  e o quartinho da empregada. Continuo comprando câmeras nas feirinhas de antiguidades (tem três aqui em São Paulo que acontecem nos finais de semana), no Mercado Livre e por pessoas que querem se livrar de sua relíquias – que claro, não são suas e sim dos seus pais, avós….

Meu grande sonho, que tem de acontecer logo, é montar um “museu” aberto ao público, quem sabe em Gramado (RS) ou Monte Verde (MG) cidades turísticas. Alguém aí se prontifica em me ajudar nesta empreitada? Se não der certo garanto que pelo menos vamos curtir câmeras de filme sem parar.

Qual a sua filhinha mais querida, dentro todas as beldades da coleção?

Claro que tenho muitas queridinhas, como as Leica, Contax, as Rollei, adoro as Exakta, Contaflex e também as Edixa, as primeiras reflex de 35 mm  (alemã) com o jeitão SLR  que temos hoje. Mas a câmera que mais aprecio pela grandeza (nos dois sentidos) é a Speed Graphic, americana, apta para os três “B”, como era conhecida – foi usada no “B” (batles) batalhadas de 2ª Guerra Mundial; no “B” de babies (bebês) e no “B” de bridges (pontes) para foto técnica e de estúdio. A maioria das estrelas de Holywood foram fotografadas por ela, além dos gangsters (mafiosos da época. Foi mesmo uma câmera histórica, uma câmera de estúdio adaptada para uso no campo (portátil) por muitos anos feita por uma divisão da Kodak. Ela teve a honra e a primazia de  iniciar um novo tipo de jornalismo no EUA – os tabloides, que publicavam fotos imensas e s ensacionalistas, com a qualidade proporcionada pelo negativo de grande formato.

Quais os outros destaques da coleção?

Todas as câmeras de fole, sejam as pequenas, as grandes e as imensa; as câmeras diminutas, como a Minox – famosa por ser usada para espionagem durante a guera – e as câmeras “miniatura” como eram chamadas todas as câmeras de 35mm (no caso as de telêmetro iniciada pela Leica). De telêmetro tem aqui na coleção um monte, todas as fabricantes faziam câmeras desse formato, inclusive a Nikon, Canon, Minolta, Olympus, Yashica e outras.  Exceto a Asahi Pentax, que nunca fez câmeras desse formato.  Na minha coleção, o maior destaque sem dúvida é a Nikon F2 com seu belo motor-drive e lente espelhada de 500mm, uma beleza, um monumento dentre o equipamento fotográfico em geral. Por isso mesmo mereceria até uma estátua em sua homenagem por tanto que fez (de bom) para a humanidade, desde seu lançamento em 1971. Seguindo a carreira da Nikon F, que ganhou fama na guerra do Vietnã e responsável pelo sucesso da Nikon em todo mundo.

Qual câmera tem a história mais divertida? (e qual é a história, é claro :-)

Tenho aqui na minha coleção uma câmera que sempre chama atenção. É a Zenit Sniper, feita a partir da década de 1970,  que vem com uma lente de 300. Vem  montada num conjunto que se assemelha a uma espingarda. A princípio para dar maior firmeza no enquadramento, foto (por botão inferior) e disparo, embora na prática essa traquitana não funcione muito. Hoje não usaria essa câmera no Brasil por nada nesse mundo. Vai que me confundem com bandidos em pleno assalto…

Outras câmeras bacanas são as Kodak Instamatic  para filme 125, com temas infantis, com a tampa da lente com o formato e desenho do Mickey, da Minie, do Dinossauro… fabricadas exclusivamente no Brasil, essas camerazinhas de plástico, na época bem  baratas, hoje tem bom valor no exterior… quem diria, né?  

Outra câmera “divertida” é a reflex da Exakta. Foi a primeira câmera 35 mm do mundo nesse formato, e a primeira a usar flash de lâmpada descartável, a “bulb”. A graça da câmera era que parecia ter sido feito para canhotos: todos os ajustes, alavanca de avanço do filme e também o disparador ficava ao alcance da mão esquerda. Os destros tiveram de se acostumar com essa esquisitice e, mesmo assim, ela fez enorme sucesso e vendeu muito.  Ah, uma outra curiosidade dessa câmera – ela tinha uma “faquinha” interna para cortar o filme, por isso mesmo ele não precisava ser totalmente exposto para mandar para a revelação.

E, pra terminar, qual a sua mensagem para os jovens mancebos que cresceram sem a fotografia analógica nas suas vidas, e agora ficam rodando por aí curiosos atrás “dessa coisa estranha chamada fotografia com filme”?

Com certeza vale demais a experiência de usar uma câmera de filme, seja de 35 mm ou 120 e curtir todos os bons (e maus) momentos que os fotógrafos de antigamente experimentaram. Naturalmente, se quer usar uma câmera de filme tem de ser as clássicas, de funcionamento mecânico, as das gerações mais recentes, eletrônicas, não valem,  parece não ter graça. Gostoso é avançar o filme manualmente, ajustar a exposição e o foco idem, curtir o click do disparo.

Ah, claro, é curtir a beleza física e técnica do equipamento, das lentes, do flash. Todas as câmeras clássicas servem, naturalmente, muito importante que sua lente esteja limpinha. Recomendo as Exakta, a Asahi Pentax (ambas SLR), a  Werra (com lente Carl Zeiss),  a Rolleicord e as Yashica, a Yashica Electro (35 mm) com suas lentes conversoras, muito linda, as Olympus Trip e Pen (meio quadro), bem bacanas. E, insisto, para que o prazer seja maior no uso da câmera analógica que o próprio fotógrafo revele e amplie sua fotos. Pra terminar, um conselho – corram, que o filme e material de laboratório já está acabando.

É isso, gente… legal o papo, né? Então dá uma olhada (e se divirta com os dois fazendo uma zona com as câmeras ;-) nessa entrevista que ele deu pra um prograna do qual nunca ouvi falar  pro programa Em Alta, de Alex Ruivo.

Quer ainda mais? Então toma uma galeria!

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comentários
 
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  • Elson Avallone
    16/02/2016 em 4:40 pm

    Olá, boa tarde. Tenho uma câmera Speed Graphic em perfeito estado, faltando somente a lente. Sabe onde posso conseguir uma, mesmo sem funcionamento? Obrigado

    Responder

  • Tiago ribeiro
    29/04/2015 em 12:04 pm

    Tenho um flash da Cânon Tókio/Japan 1950,interessado?

    Responder

  • larissa
    27/04/2013 em 12:34 pm

    Oi Mário,este ano na minha escola faremos uma amostra cultural e o tema que nós escolhemos foi arte,e dentro de outro projetos pensamos em alugar uma máquina polaroid,para podermos expor fotos dos visitantes vestidos com adereços diferenciados.Sendo um dos poucos colecionadores que conheço,gostaria de saber se está aberto a alugueis de máquinas ou até mesmo a venda dos filmes,enfim se estiver entre em contato

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  • Hilton
    26/10/2012 em 11:56 am

    Excelente! O Mario é um colecionador de primeirissíma!!

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  • Mariana
    11/10/2012 em 8:55 pm

    então, irei para São Paulo agora no feriado e queria saber se o Mario fica la na loja, e se a exposição é permanente, queria dar uma passadinha la na loja e trocar uma ideia com o cara, alguém sabe me dizer? (:

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  • Alberto Moreno
    18/08/2012 em 7:34 am

    As cameras com filme são melhores para fotografar corridas (carros, motos, cavalos e pessoas) porque capturam a imagem na velocidade da luz, as “cameras” digitais nem são cameras, pois não possuem o espaço vazio que caracteriza a camera por onde passa a luz, e usam ondas eletromagneticas para capturar a imagem por isso são mais lentas, experimentem fotografar cenas rapidas na televisao e verão o delay, o atraso entre o clique e a imagem realmente capturada, então vocês entenderão…

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  • 15/08/2012 em 1:10 pm

    Quero muito que o museu do Mário venha para Gramado, daí posso ir visitar muitas vezes… Moro a 20km da cidade.
    É uma pena ter saído da Revista, já li várias matérias dele na Fotografe Melhor :(

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  • 14/08/2012 em 11:21 pm

    Excelente entrevista, André. Eita vício bom este de colecionar rss.
    Tomara que cada vez mais as pessoas se motivem a usar filmes, para que nunca se acabe. Enquanto houver consumo e interesse, acredito que haverá produção.
    Abraço

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  • 14/08/2012 em 5:18 pm

    ótima a entrevista! e igualmente inspiradora. O que ele falou é bem verdade. Aqui onde eu moro, apenas dois lugares fazem revelações de filme, daqui a pouco isso não existe mais. =/

    tenho muita curiosidade de revelação também, mas deve dar um super trabalho. rs.

    Enfim. parabéns pelo texto! (:

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  • 14/08/2012 em 2:59 pm

    Tamb´pem tenho toc de ficar carregandio manualmente o filme quando a maquina esta vazia, é delicioso

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