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Sete razões para experimentar fotografia em grande formato

por em 19/09/2012
 

 

 

Alex e uma de suas câmeras de grande formato

O convite pro Alex Villegas se tornar colaborador do Queimando Filme aconteceu a mais de seis meses atrás. Mas o Alex é assim, um cara que tá sempre cheio de projetos, cheio de idéias e, como acontece no seu modo de fotografia preferido – o grande formato – gosta de fazer tudo a seu tempo, com calma. Felizmente a espera valeu, e hoje Alex estréia no QF com seu primeiro post sobre, como não poderia deixar de ser, a fotografia em Grande Formato.

Seja bem-vindo, Alex! Falaí, manolo!

Grande formato é um mundo bizarro; são dezenas de modelos diferentes, cada um com um desenho diferente, tamanho diferente, peso diferente, super poderes (!) diferentes. Mexer com essas câmeras é sempre uma aventura – tanto que eu, digital de nascimento, acabei me apaixonando por esses monstrões, que hoje respondem por uma parte muito importante do meu trabalho.

Falando em responder, a idéia deste artigo é responder a pergunta que mais tenho ouvido por aí:

Mas porque raios você agora usa esse trambolho?

Por várias razões, mas vou citar sete:

1. É um esporte completamente diferente

Embora nos últimos anos eu até tenha adquirido um certo gosto em fotografar na rua, eu nunca me imaginei como um Cartier-Bresson: um tiozinho de sobretudo se escondendo atrás dos postes pra pegar “o momento decisivo”. Nada contra, só não é o meu esporte preferido. Meu esporte preferido é uma mistura maluca de pintura com experiência científica – eu analiso as coisas como elas aparecem pra mim, tento entender, e vou acumulando as dúvidas. Tudo o que eu não entendo eu fotografo, pra ver se as coisas ficam mais claras. Estranho, né? As pessoas têm os mais variados motivos para fotografar, e alguns são bem esquisitos.

Clicar assim exige muita observação e pouca “fotografação”. Aí eu vi que clicava bem pouquinho, com a câmera no tripé pra analisar bem o enquadramento – e me senti armando um cavalete pra pintar num post-it. Já que é pra ser uma coisa mais zen, mais estática, eu podia usar uma camerinha maior, né? Fui ver quais eram as opções.

2. 4×5 é o menorzinho e mais barato

Por incrível que pareça, 4×5 é o caçulinha do grande formato. É um baita negativo – aproximadamente 10×12,5cm, o que equivale a 11 vezes a área do 35mm – mas não é o maior de todos: há ainda o 5×7, 8×10, 11×14 (tudo isso em polegadas) e mais alguns monstrões que chegam a 40x50cm. Grande, não? Um 8×10 é do tamanho de uma capa de revista, dá pra acreditar?

Sally Mann e uma 8×10

O legal do 4×5 é que te dá toda a flexibilidade do grande formato, por um preço que ainda é bem bacana; pago cerca de 50 dólares por uma caixinha de 50 chapas PB de boa qualidade, o que somando com os químicos (revelo em casa mesmo) não dá 4 reais por clique. Mais barato que Polaroid!

Trabalhar com filme colorido ou de dimensões maiores sai bem mais caro, mas aí aparecem outras opções; o Impossible Project está fabricando instantâneos em 8×10, e a partir desse tamanho também fica interessante usar processos antigos e pouco conhecidos, como colódio úmido ou mesmo daguerreótipo. Dá pra fazer em casa, mas não tente sozinho – tudo é tóxico nesse mundo dos processos fotográficos do século retrasado.

Isto é o que é preciso para revelar chapas 4×5. Menos a cerveja; são garrafas pra guardar os químicos diluídos!

3. O processo é mais controlado e divertido

Outra vantagem do grande formato é que pensamos sempre em uma chapa de cada vez. Posso puxar o filme, mudar o químico, mudar o tempo de revelação para mexer no contraste, enfim! Dá para fazer tudo, foto a foto. Em um rolo, tenho de processar todas as fotos de uma mesma maneira. Com chapas, posso fazer inclusive duas fotos iguais e revelar de maneira diferente. No caso do PB, é fácil fazer em casa mesmo.

Aqui tem três lentes, duas Rodenstock e uma Schneider

Com câmeras de grande formato, é comum não se ligar muito em marcas – praticamente qualquer lente serve em qualquer câmera – mesmo que ela tenha 100 anos de idade – com mínimas adaptações que qualquer um consegue fazer. Há centenas de opções para cada categoria de lente, e cada um tem suas favoritas. Se você trocar de câmera, provavelmente vai poder conservar suas lentes.

5. Te obriga a ter uma boa técnica

Em grande formato, a mecânica de tudo é extremamente simples – você mesmo pode desmontar completamente a sua câmera para limpar ou trocar peças, e a resistência do conjunto é típica de equipamento agrícola. Dificilmente uma câmera dessas quebra, e quando quebra, é mais fácil ela ir parar no marceneiro ou serralheiro do que num técnico em câmeras. 

Essa simplicidade acaba obrigando o fotógrafo a entender bastante do ofício; o foco é controlado simplesmente pela distância entre a lente e o filme, a perspectiva pela inclinação da parte de trás da câmera, e por aí vamos – o que frequentemente faz com que a gente acabe pegando de volta da gaveta aqueles livros de técnica fotográfica, com todos aqueles cálculos e compensações que a gente até viu, mas nunca chegou a aprender…

Um rolinho 135 em cima de uma chapa 4×5… grande não?

6. Quando sai, fica lindo!

Considerando que todo um ritual é necessário e leva pelo menos uns dez minutos pra armar todo o equipamento pra uma foto, a satisfação de ver um negativo DAQUELE TAMANHO reveladinho é enorme. E também é enorme a ampliação – considerando que um negativo 35mm precisa ser ampliado 8 vezes pra dar um print 18x24cm, imaginem um 10x12cm ampliado 8 vezes! O céu é o limite – bom, o tamanho do ampliador também é, mas que é que… ah… fica lindo!

7. Quando não sai, a história é bacana

Olha só: considerando que todo um ritual é necessário e leva pelo menos uns dez minutos pra armar todo o equipamento pra uma foto, qualquer distração é fatal. Eu já esqueci tampinha dentro de câmera, abri a caixa onde o filme estava do lado errado, fiz o foco bonitinho e chutei o tripé quando me afastei da câmera, já revelei filme virgem, já esqueci de armar a lente, já prendi o fole errado e ele soltou no meio da foto…

Essa eu revelei virgem, porque montei o filme do jeito mais errado possível

Enfim: se fazer besteira é fundamental pra aprender, por que não fazer besteira com estilo?

É isso.  Esses são os principais motivos que me fizeram escolher uma câmera analógica da década de 80 para trabalhar; e embora eu use 35mm, 6×7 e digital, é com esse trambolho que mais me divirto.

Em breve espero falar sobre as câmeras mais interessantes e baratinhas que se pode achar por aí, e como começar no formato; até lá!

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comentários
 
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  • Antonio
    03/01/2017 em 8:08 pm

    tenho uma calumet 4×5 com lente 135 está a venda

    Responder

  • 29/07/2013 em 12:38 am

    Ei, o posta sobre “como começar em grande formato” já rolou?

    Alex, tenho uma Mamiya C330 – as TLRs com lentes intercambiáveis… e estou pensando em usa a sua lente 80mm 2.8 num projeto gambiarra de grande formato. Que acha?
    Na verdade ando pensado tb em “quebrar o pescoço” da Mamiya pra conseguir tilt shift…

    Mas enfim, torço para que saia logo este seu artigo sobre maneiras de se iniciar do grande formato. Já andei pesquisando umas Rodenstock no ebay… sonhar é de graça :)

    Responder

    • 29/07/2013 em 9:43 am

      Já! É esse aqui: http://www.queimandofilme.com/2012/10/02/eu-quero-clicar-em-grande-formato-e-agora-parte-1/

      Olha, com lente de C330 não vale a pena não… ela não tem cobertura pra colocar nada maior que 6×6 atrás dela. O coração de toda câmera é a lente, então eu arrumaria uma lente de GF (qualquer uma) e faria o resto na mão… dá pra fazer uma caixa correndo dentro de outra pra fazer o foco, dá pra costurar um fole estranho com neoprene, dá pra desenhar movimentos se vc tiver algum jeito pra marcenaria…

      Se eu não achar um back 8×10 pra minha Sinar, acho que vou tentar construir uma câmera dessas. Mas isso é aventura pra daqui a um bom tempo.

      Responder

  • Joao Paulo
    16/07/2013 em 5:55 pm

    Alex, excelente arquivo. Estou querendo fazer uma ampliação no tamanho 170 x 120 cm em alta resolução é mais adequado uma câmera analógica de grande formato ou uma full frame digital da conta? Quero tirar uma foto de um ângulo espetacular do Pão de Açucar aqui no RJ para emoldurar e botar na sala da minha casa. Como vão olhar de perto, a resolução precisa ser impecável.

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    • 16/07/2013 em 6:38 pm

      Olha, João, bem usada, uma 4×5 dá uma surra em qualquer digital 35mm em termos de resolução. Mas tem de ser um bom filme, boa lente, profundidade de campo/básculas cuidadosamente calculados e scan em scanner de qualidade feito por um operador competente (se for imprimir em fineart). O grau de dificuldade técnica é muito maior do que a mesma foto feita com uma fullframe, tem muito mais coisa que pode dar errado. Mas quando tudo dá certo, o resultado é inigualável.

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  • Cesar
    03/03/2013 em 9:47 pm

    o artigo é iluminador!
    Fiquei matutando sobre a utilização de dois processos: o sujeito fotografa em analógico e usa o suporte digital para ‘revelação’. Pergunta de leigo: não fica um pouco contraditório? Não quero ser tradicionalista, mas não prejudica a qualidade da imagem, pela própria natureza do processo? Obrigado!

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    • 03/03/2013 em 10:24 pm

      Obrigado Cesar!

      Bom, pessoalmente eu não tenho nada contra os processos híbridos; tem gente que fotografa em digital, imprime, pinta a impressão à mão, escaneia a impressão depois… e fica lindo! Mesma coisa a galera que fotografa em negativo e depois escaneia; o fato do resultado ficar bom esteticamente torna aquela coisa dos pixels e grãos de certa forma irrelevante.

      Outro aspecto interessante: prefiro manter a coisa o mais analógica possível porque gosto dos tons das ampliações em gelatina de prata, mas também sou obrigado a escanear e tratar digitalmente – é a única maneira existente hoje de publicar uma imagem, seja na internet, seja em livro/revista. Aí acabo entendendo o cara que prefere investir todo o tempo dele tratando a imagem escaneada digitalmente e depois imprimir numa jato de tinta; o resultado impresso vai ficar muito próximo ao que ele vê na tela.

      Quem trabalha com ampliações em gelatina de prata tem que se conformar com o fato de que poucas pessoas irão ver aquela imagem com aquelas características; o resto do mundo vai ver uma cópia digital que não faz jus ao original. Quem trabalha em cima do scan não precisa passar por essa frustração :D

      E isso em PB. Em cores a coisa fica mais complexa ainda, e acaba favorecendo o sistema híbrido negativo colorido/inkjet.

      Grande abraço! Espero ter conseguido responder a questão, que é complexa…

      Responder

  • Jefferson
    08/11/2012 em 6:16 pm

    Muito bacana sempre gostei de grandes formatos de cameras e não entendo muito de seu funcionamento.
    Gostei também das GARRAFAS DE NORTEÑA (a melhor cerveja Uruguaya) com a honrosa função de após ser degustada com uma parrillada,acondicionar os químicos.
    Abraço a todos

    Responder

  • tduarte
    25/10/2012 em 5:59 pm

    vem, segundo post. te queremos!

    Responder

  • Flavia
    28/09/2012 em 10:04 am

    Que bacana! Você poderia gravar um video pra mostrar esse processo, né?
    Parabéns pelo post!

    Responder

  • Gustavo
    27/09/2012 em 7:32 pm

    Caros, como vocês fazem para comprar químicos para revelação com um preço decente? Somente tenho achado por aqui com preços abusivos…

    Abraços,

    Gustavo.

    Responder

    • 27/09/2012 em 7:36 pm

      Opa Gustavo! O que seriam “decentes” e “abusivos” pra você? E onde é “por aqui”? :-)

      Abs!

      Responder

      • Gustavo
        27/09/2012 em 9:25 pm

        Fala André. Realmente faltou mais detalhes em minha pergunta… :)

        Cara, o “por aqui” é Rio. Só estou encontrando revelador e fixador (este último quando encontrei…) em torno de R$ 100,00 cada (Ilford). É esse preço mesmo? Achei caro…

        Vale a pena comprar no Ebay?

        Abraços!

        Responder

        • 28/09/2012 em 7:17 am

          Olha, quando li sua pergunta, achei que você era um pão duro… ;-) mas não é não! Tá O DOBRO daqui de SP! Dá uma olhada no site da Consigo. Não sei quanto tá pela internet, mas direto na loja tá metade desse preço. E sem duvida procurando na internet existem lugares menos conhecidos que vendem mais barato. No forum Esquina da Foto tem uma area de conversa só sobre filme que tem uma turma super “roots” que compra nos lugares mais obscuros… vale se cadastrar lá e bater um papo com eles…

          Abs!

          Responder

        • 28/09/2012 em 7:18 am

          P.S: No eBay nunca comprei, mas não compraria não… os quimicos são restritos, e se a PF pegar, vai apreender com certeza. Têm que ser enviados em embalagens especiais e devidamente identificadas. Se for comprar no exterior, use lojas reconhecidas, como a Freestyle…

          Responder

    • Alex Villegas
      30/09/2012 em 5:59 pm

      Olha, eu tenho comprado na Greika – eles importam os químicos mais comuns, como o D-76, Dektol e fixador Kodak, mas tem um pedido mínimo e precisa de CNPJ. Ou seja, tem que socializar a compra.

      Responder

  • 22/09/2012 em 11:07 pm

    Cara, estou aguardando ansiosamente esse segundo post com as câmeras e como começar nesse mundo. Nunca havia lido nada a respeito, mas depois de ler esse post fiquei com muita vontade de tentar!

    Grande abraço!

    Responder

  • Gabriel Bernardo
    20/09/2012 em 5:38 pm

    Fala Alex.

    rapaz onde se consegue comprar lentes Grande formato em bom estado?

    abs

    Responder

    • Alex Villegas
      20/09/2012 em 5:55 pm

      Acho que é um bom assunto pra um próximo post – mas só pra adiantar, essencialmente eBay, Mercado Livre e fóruns de fotografia analógica, como o APUG e o Large Format Photography Forum.

      Responder

  • Ricardo Mello
    20/09/2012 em 4:39 pm

    Aliás, melhor dizendo, qual tipo de ampliador é adaptado pra fazer ampliações em papel a partir desse tamanho de negativo?

    Responder

  • Ricardo Mello
    20/09/2012 em 4:37 pm

    Mas.. qual tipo de ampliador revela esse tamanho de negativo? E dá pra encontrar isso ainda hoje em dia?

    Responder

    • Alex Villegas
      20/09/2012 em 5:53 pm

      Pra ampliar existem dois caminhos: scanner + impressora inkjet, ou um ampliador específico. Eu tenho um Omega D2VXL: uma sopa de letrinhas que nomeia um monstro de um metro e meio de coluna que tive que buscar em São Vicente, num C3… foi no mínimo engraçado.

      São difíceis de achar, mas ainda estão por aí. Boas marcas são Durst, Omega, Beseler. Mas o caminho mais popular são os scanners de mesa mesmo – o negativo é tão grande que mesmo scanners mais ou menos conseguem uma boa imagem.

      Responder

  • Yago Moreira
    19/09/2012 em 11:10 pm

    Alex, com certeza estarei lá.

    Abraço!

    Responder

  • Sinclair
    19/09/2012 em 5:29 pm

    Muito legal. Você revela no taco method?

    Responder

    • Alex Villegas
      19/09/2012 em 10:45 pm

      Na verdade não… como eu planejo a revelação foto a foto, faço uma chapa de cada vez mesmo – o que elimina aqueles malabarismos com elásticos de cabelo.

      Responder

  • Yago Moreira
    19/09/2012 em 1:26 pm

    Muito bacana, Alex! Não sei se tenho vontade de ter uma grande formato, mas pelo menos uma vez eu gostaria de usar e fazer todo o processo de revelação.

    Responder

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