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Opinião: O futuro da fotografia com filme está numa peça de Shakespeare…

por em 24/09/2012
 

Alunos do workshop queimando filme, turma 4 de SP

 

“We few, we happy few. We band of brothers!”

Essa frase (“Nós poucos, nós poucos e felizes, nós, bando de irmãos!”) é da peça Henrique V, de William Shakespeare, e vem à minha mente sempre que vejo novos sinais da mudança no mercado da fotografia de filme. Isso porque quem já conversou comigo sabe que a minha “tioria” é a de que a fotografia de filme nunca vai morrer. Vai sim deixar de ser uma coisa de muitos, e se tornar uma coisa de poucos: amadores, hobistas, artistas. Poucos, mas poucos e felizes. Um bando de irmãos.

Frescura? Exagero? Pois bem, pode ser… pra alguns. pra outros, é uma batalha, uma luta diária, uma luta de poucos, por uma paixão. Paixão antiga, paixão recente, mas paixão. Que motivos racionais levariam uma pessoa a fotografar com filme hoje em dia? Eu não conheço muitos. Até porque todos que conheço fazem isso por motivos nada racionais. Buscam “os prazeres da fotografia com filme“, sejam eles quais forem. Os rituais, a espera, a imprevisibilidade, a textura, o companheirosmo do… bando de irmãos que se une em torno desse hobby.

Alunos do workshop queimando filme, turma de Curitiba

Bando de irmãos que se desentendem, que debatem, que aprendem, que discordam acaloradamente em grupos do Facebook ou no Twitter. Fãs da Lomography, puristas de SLR e Hasselblad em punho, não interessa. Somos poucos, mas somos poucos e felizes. Querendo ou não, somos um bando, um pequeno bando, um bando de irmãos.

“Mas e as empresas? E os fabricantes? E a Kodak falindo, e a Fuji parando de produzir?” Esse é o ponto: não precisamos da Kodak, irmãos, não precisamos da Fuji. Nós precisamos de filmes, e de câmeras. Filmes que nos atendam em nossos objetivos criativos, câmeras que nos ajudem a registrar as imagens que vemos. Se a Kodak não vai mais fazer filmes, outros pegarão essa espada e produzirão, não 1.000.000.000 filmes por mês, mas 1.000 que sejam. Não é o bastante pra gente? Então que sejam mil, e não um bilhão! Somos poucos, afinal.

Câmeras? As antigas vão durar até seus netos terem netos. Sejam Zenit russas, sejam japonesas Olympus, alemãs, americanas, câmeras produzidas no século passado pra durar fazem exatamente isso: duram. Lentes? Duram ainda mais. Não existem muitas? Não precisamos de muitas. Somos poucos. Poucos e felizes. Vamos às ferinhas, vamos ao Mercado Livre, ao eBay. Vamos nos unir no Facebook, em fóruns e trocar, vender, comprar.

Alunos do workshop queimando filme, turma do Rio de Janeiro

Câmeras novas? De plástico, sim, porque não? Na forma de hobby, na forma de brincadeira, na forma de paixão, as câmeras ganharam o nome de “lomo” graças a coincidências e loucuras de universitários de Viena, que acreditando nesses poucos, nesse bando de irmãos, resolveram criar a primeira empresa dessa nova era da fotografia de filme. Hipster? Careira? Modinha? Pode ser, mas também foi a primeira a dizer que a fotografia analógica como hobby é para todos. E, graças a ela, outros fabricantes de “câmeras de brinquedo” (Toycameras sim, e com orgulho!) vêm crescendo e ganhando espaço. E com isso mais gente compra suas primeiras câmeras de filme, descobrindo novas formas de brincar com a fotografia. E com isso mais filmes são produzidos pelos que seguraram essa onda.

Nós poucos, poucos mas felizes, bando de irmãos, temos um mundo maravilhoso à nossa volta. Não precisamos de câmeras novas a cada semestre, centenas de tipos de filmes diferentes de grandes fabricantes. Nós precisamos, cada um de nós, de uma ou duas câmeras, um punhado de filmes, um lab de confiança… e dos outros, do “bando de irmãos” da peça de Shakespeare.

Alunos do workshop queimando filme, turma de Belém do Pará

A força da fotografia analógica como hobby está nos grupos, nos sites, nos blogs, nos encontros. Não está na Kodak, na Fuji, na Nikon, na Canon… ou na Lomography. Está em você. Está em mim. Está nessa vontade de sair fotografando, um filme por vez, pra ver “no que dá”.

Na tal peça de Shakespeare, o rei Henrique V da Inglaterra vai à guerra com a frança e, em uma batalha, que acontece exatamente no dia de São Crispim, ele vai pra batalha final contra os exércitos inimigos com, sei lá, dez vezes menos soldados do que a frança. Pra motivar seus homens ele faz o (famoso) discurso do Dia de São Crispim. Nesse discurso ele diz o que digo aqui, copiando descaradamente ele: não precisamos de muitos. Precisamos de poucos, unidos, por um objetivo: fotografar com filme. Unidos, como somos, como estamos, mesmo discordando, ganharemos essa batalha que está mais em nossas mentes e em nossos medos do que no mundo real.

Se estamos destinados a morrer, já somos o máximo
Que nosso país pode perder; e, se vivermos, 
Quanto menos formos, maior a honra que partilharemos. 
Deus! Te imploro, não queiras nenhum homem mais, 
Por Júpiter! Não sou avarento com o ouro, 
Nem me importo que vivam às minhas custas; 
Não me incomoda que outros vistam minhas roupas: 
Tais coisas de aparência não estão entre meus valores; 
Mas se for pecado cobiçar a honra, 
Sou a alma mais pecadora de todas.

Eu me sinto honrado de poder fazer parte de esse bando de loucos, bando de irmãos. Me sinto feliz de fazer parte desse grupo que, contra a maré, decide fotografar com filme a cada dia, pelo simples prazer de fazê-lo.

#prontofalei

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comentários
 
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  • 05/11/2012 em 9:05 am

    Lindo.
    Comovente.

    Mas é isso aí, assino em baixo, ~seus bando de loco~ #tamojunto!

    Responder

  • 03/10/2012 em 4:39 pm

    hahah, lindo, gostei muito do texto. Pode ser que sejamos poucos, mas poucos unidos.

    Não é o foco do seu texto mas, lembrei-me do Cavaleiro das causas perdidas, hahahh, Dom Quixote. Vamos empunhar nossas espadas velhas e ir para a luta.
    E outra, aonde houver um consumidor, certo que haverá um vendedor. Porque, afinal, estamos no capitalismo, ora bolas. A lomography, apesar de eu não gostar mucho, é prova disso.
    E aqueles nossos parentes mais antigos que a gente, com certeza já empunhou uma analógica e gostou, e, na oportunidade mais cômoda, comprou uma. Desfazer-se de uma câmera de filme, díficil. A NÃO SER… a não ser que seja para um amante. Alguém que não vai jogar as traças. Alguém que ele nota que irá usufruir. Analógica guardada, para o dono, é algo que fica perdido. hahaha, são coisas que, quando passadas à novas mãos, carregam e agregam um valor sentimental e uma expectativa.

    Abraço.

    Responder

  • 30/09/2012 em 10:22 pm

    Parabėns pelo texto inspirado, André. Acredito que qto mais pessoas continuarem fotografando com filmes melhor será para o futuro da fotografia analógica. O projeto Queimando Filme funciona muito bem como propulsor deste uso.

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  • 27/09/2012 em 8:35 pm

    Falou e disse André! Com certeza foi um dos melhores posts, e o mais inspirador!
    Que a força esteja conosco!

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  • Vanclécio
    26/09/2012 em 10:36 pm

    muito bonito o texto, parabéns!

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  • Joice Mattos
    24/09/2012 em 5:20 pm

    Que viva o analógico..Para sempre \o/

    Responder

  • 24/09/2012 em 3:49 pm

    Lindo texto… lindo e emocionante.

    Parabéns, Xara!

    E assim é.

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  • Yago Moreira
    24/09/2012 em 2:18 pm

    Um dos melhores posts do site. Parabéns, André!
    Câmeras e lentes não irão acabar, pois as antigas são quase indestrutíveis mesmo. Filmes talvez em uns 4 ou 5 anos podem ficar escassos, mas o que me preocupa são as assistências técnicas e laboratórios. Será que os filhos dos técnicos e ‘laboratoristas’ querem aprender o serviço do pai e levar isso adiante? Ou aqueles fotógrafos que sabem fazer todo o processo de revelação, será que vão ter tempo para prestar serviços para os outros? Beleza, podemos aprender, mas e o material necessário pra isso? Até quando vão produzir? E como está no começo do post, fotografia com filme será uma coisa para pouco$, principalmente aqui no Brasil, já que tem coisas que só encontramos no exterior com um preço salgado, então imaginem como será daqui uns 10 anos. Eu acredito que a fotografia analógica pode deixar de existir, mas enquanto ainda está na ativa, vamos aproveitar ao máximo e dar ao luxo de ficar testando vários tipos de filme em vários tipos de câmeras.

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    • 24/09/2012 em 8:19 pm

      Obrigado Yago! ;-)

      É por aí mesmo… problemas vão ocorrer, e de fato mais barato não vai ficar. Mas eu acho que as soluções virão do coletivo: os mais experientes ajudando os mais novos a encontrar as soluções pra cada demanda, como já acontece com outros hobbys, como modelismo, culinária, e tantos outros…

      Responder

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