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Potinhos de tinta, Eggleston, e um mundo sem cores…

por em 19/11/2012
 

E hoje é dia de estréia de mais uma colaboradora no Queimando Filme! Luiza Cavalcante é de Belém do Pará, e mora atualmente em Buenos Aires, Argentina, onde foi estudar… fotografia! ;-) Ela começa sua participação contando uma historinha que viveu em uma de suas aulas… fala Luiza! Bem-vinda! :-D

Minha foto pb… ou quase pb…

Em uma das minhas aulas de laboratório fotográfico que tive aqui em Buenos Aires, a professora me apresentou um estojinho cheio de potes de tinta e me perguntou “quer brincar?”. Eu ri, respondendo que sim e achando que era pra fazer uma pintura, talvez se baseando em uma foto, algo assim, mesmo assim, estranhei. Ela pediu para que eu escolhesse uma fotografia que eu já tinha revelado e ampliado, fui folheando as paginas do fichário onde as guardo, todinhas ali. Apareceu esta, uma praça que eu não sei o nome, uma das primeiras fotos preto-e-brancas que fiz aqui na cidade ainda desconhecida. Escolhi por causa das árvores, descobri uma paixão por fotografar árvores.

Ela abriu os potinhos e me deu uma porção de pincéis, “pode começar”. Eu fiquei olhando pra ela com cara de interrogação e foi então que entendi tudo e quase chorei de emoção quando a ficha caiu. Aquelas tintas, os pincéis, a fotografia preto-e-branca. Ela queria que eu voltasse no tempo e aprendesse a pensar como na época em que não existia as cores nas fotografias e as pessoas pintavam e se pintavam, as vezes tentando se aproximar da realidade e muitas vezes, nem tanto. Foi uma das experiências mais bonitas que já tive na vida: a de pintar a foto, que eu mesma criei, revelei e ampliei com as mesmas tintas que pintavam há tantos anos atrás.

William Eggleston

Imagina isso, o tempo em que as fotografias ainda não tinham cores… Devia ser difícil associar e reconhecer lugares e pessoas naquela época. Quando os rolos coloridos foram inventados, o primeiro corajoso que teve suas fotografias expostas no Museu de Arte de Nova York, foi William Eggleston. Ele conseguiu esse fato histórico mesmo depois da acusação do fotógrafo Walken Evans de que as cores em fotos era uma “ilegitimidade artística”.

Eggleston foi além e, ao invés de arriscar seu trabalho comprando aqueles rolos coloridos novos desconfiáveis, ele comprava cromos (Kodakchrome já existia e já deixava fotógrafos felizes da vida), já que, desde sempre esses são os que dão cores vivas, realismo e nitidez às fotografias. Ele saía com sua grande angular, uma Leica ou Canon de 35mm com e abria mão dos flashes, pois gostava de explorar as luzes ambientes, do sol ou das artificias e às vezes, usando as duas ao mesmo tempo. Lanchonetes, estacionamentos, lojas, postos de gasolina e o surgimento de malls são alguns dos temas recorrentes das imagens fortes de Eggleston.

De William Eggleston

Acho que, nesse mundo de tantos cliques em que vivemos, onde a quantidade de imagens às vezes é até mais importante que a qualidade, a necessidade da nostalgia e a volta do mundo analógico seja uma forma de nos aproximarmos da sensação de descoberta, da espera e da beleza. A escritora e filósofa Susan Sontag que sou eternamente fã, disse certa vez: “Quando temos medo, atiramos, mas quando ficamos nostálgicos, tiramos fotos”

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comentários
 
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  • Carlos
    23/03/2013 em 3:43 am

    Oi Luiza, munitions banana seu texto. Parabéns!
    Nem sei se vai ver minha pergunta, pois faiz tanto tempo que postou. Mas eu sou novo no site e estou lendo tudo desde o inicio…rs.
    Esta técnica funciona com qq tipo de tinta ou teria de ser uma especial!.

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  • Renato N. Prado
    09/01/2013 em 1:18 pm

    Buenos Aires de mi corazión. Com o perdão e pezar de não saber hablar español. Tem uma loja de câmeras antigas na Av. Independencia 408, San Telmo. Fique ali próximo em minha lua de mel em Buenos. Só pude comprar um filtro, porque não estava preparado financeiramente para comprar câmeras. Mas o pessoal me indicou o caminho para eu achar o Kodak Tri-X que eu andava tão saudoso.
    Conhece essa loja? Fica a dica pra quem passar por Buenos Aires.

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  • Thais
    21/11/2012 em 4:37 pm

    Muuito interessante mesmo…
    nossa, meu sonho estudar fotografia em BsAs, mas ainda estou procurando uma escola…
    seria perguntar demais em qu escola vc estuda?

    Valeu

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    • 21/11/2012 em 6:16 pm

      Eu estudo no Instituto Fotográfico Argentino, mas to fazendo um curso específico de Laboratório Preto e Branco, estudando processos de revelação e cópias. Tem muitas escolas com graduação de Fotografia bem interessantes, só pesquisar :}

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  • 19/11/2012 em 12:12 pm

    Estudar fotografia numa cidade onde até a rua mais feia, rende uma foto bonita deve ser muito bom. Parabéns! Por curiosidade, que tipo de tinta é essa? Deu vontade de experimentar.

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  • 19/11/2012 em 12:10 pm

    Seja bem vinda Luiza! Adorei e fiquei bem curiosa pra saber qual é o tipo de tinta que vc usou. Conta aí?

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