9comentários

Low-Fi é a vovozinha: comparando resolução de filme com megapixels…

por em 26/11/2012
 

Quem nunca foi chacoteado por estar usando algo tão retrogrado/primitivo/antiquado como uma câmera DE FILME?

“Isso é mais velho que eu!”
“Ainda funciona?”

Ou o clássico da geração que nasceu em cima de um mouse:

“O que é ISSO, tio???”

Pois é. Quem gosta de uma boa película tem que ouvir essas e muitas outras. Tudo bem. Nessa nova era digital, somos como aqueles sábios que se afastam de todo o barulho da modernidade em busca do silêncio interior – de uma verdade mais simples e pura, com cheiro de filme vencido.

Perto de mim, podem falar de tudo sobre fotografar com filme. Cores exóticas (processo cruzado). Ritmo mais calmo (um rolo de cada vez). Restrição criativa (“apenas” 36 frames por bobina). Abandono da gratificação instantânea (só quando chegar do laboratório). Falem tudo. De tudo. MENOS que filme é pior que digital.

“Um filme desses não tem a mesma definição de uma saboneteira último modelo!”

Êpa… Ai não!

Não posso deixar que a ignorância se imponha. Principalmente sabendo que filme é muito, mas MUITO melhor em termos de resolução. Mas aqui nós defendemos mais um estilo de fotografia do que questões meramente técnicas, certo? Pode até ser, mas como um bom nerd eu me sinto no dever de esclarecer – a quem quiser saber, claro – que aqui o buraco é mais embaixo.

Tudo começou tempos atrás quando consegui os meus primeiros rolos de Fuji Velvia 50 – um dos cromos mais legais que consegui por essas bandas. E paguei um bom $$$ por eles. Estava eu, feliz e contente com a minha aquisição, quando fui visitar uma tia minha que ficou impressionada como eu usava filme – e especialmente pelo custo de tudo.

“Mas é bem melhor. As cores são ótimas e o compasso de toda a experiência é bem mais agradável para mim.”
“Mas é melhor que digital?”
“Como assim melhor?
“Melhor oras… Isso ai tem quantos megapixels?”

A pergunta de 100.00₫!!! (cem mil dongs vietnamitas equivalem, aproximadamente, a R$ 10,00). Que as imagens com filme nos parecem mais agradáveis, isso é obvio. Mas por que isso ocorre? É só uma questão de gosto? Graças ao Ken Rockwell, e seu artigo Film Resolution (Pixel Count) podemos responder com números e não somente impressões pessoais.

Resumidamente:

  • Um filme colorido possui camadas sensíveis às cores em toda a sua superfície – absorvendo informação dos vermelhos, verdes e azuis presente na cena fotografada.
  • Filme absorve a luz tridimensionalmente – altura,largura, intensidade – em todo o seu espectro de tons (RGB), mantendo a mesma resolução a medida a medida que transita dos tons claros (highlights) para os escuros (shadows), até os menores detalhes que ele é capaz de capturar.
  • Para termos uma base, aquela belezura do Velvia é capaz de resolver até 160 linhas – por milímetro (!!!). Está duvidando? Pergunte para a Fuji, bitch!
  • Um sensor digital, bem da verdade, não enxerga cores (Oi???), mas valores de luminescência. Isso mesmo. Intrinsecamente, toda câmera digital é preto e branco. E isso pode ser muito bom.
  • Então, para poder ter essa informação, cada micro sensor tem colocado na sua frente um filtro para que somente um valor (Vermelho, Verde ou Azul).
  • Esses filtros são dispostos em forma de um mosaico (comumente um Bayer filter)– para se formar uma imagem colorida, interpolando os dados filtrados da câmera para reconstruir as outras cores da imagem original.

“Mas ai você está misturando duas coisas diferentes!!!” Nem tanto. Para podermos comparar os dois tipos de imagem, vamos tentar aproximar os valores: um pixel de uma câmera digital representa um par de bits de informação de cor e luminescência. Então, tendo em vista que o sensor de uma Nikon D800 possui 36 Megapixels, ou 36.152.320 de pixels (7.360 x 4.912) , em um sensor que mede 35,9 x 24mm, podemos chegar ao seguinte valor:

Pixels

Área do sensor

Pixels por mm

7.360 x 4.912

35,9 x 24 mm

√36.152.320/861,6 mm²

36.152.320

861,6 mm²

204,8402235

Nada mal, né?

Ooooh, wait… Estão lembrados daquele pequeno detalhe da interpolação? Pois é. Cada pixel é uma (boa, convenhamos) estimativa da real informação original da imagem capturada.

Para sermos justos com os sofisticados algoritmos desenvolvidos pelos fabricantes dos sensores modernos, podemos considerar que tenhamos metade da informação original por pixel (a distribuição de um Bayer filter é normalmente 50% Verde, 25% Vermelho, 25% Azul).

Sendo assim, podemos dizer que temos o equivalente a 102 pixels da informação original por mm – utilizando o sensor de maior resolução equivalente ao nosso bom e velho frame.

Fazendo o raciocínio inverso, a resolução de um slide do Velvia 50 seria:

Resolução

Área do frame

Resolução equivalente

160 linhas por mm

36 x 24 mm

864 x 0,1

0,1 Mp*

864 mm²

87 Mp**

Tá bom, um filme com (o equivalente a) 87 megapixels?

Por Lomocouple, Velvia 50 em Xpro… até assim a resolução fica boa, né?

Se sobrou algum defensor da dita superioridade das câmeras digitais profissionais, querendo apelar para sensores de médio formato digital – ou mesmo os fabricantes de backs digitais como Hasselblad ou Phase One, acho melhor pensar duas vezes. Só para manter o mesmo padrão, a Fuji também faz Velvia 50 para filmes 120 (em imagens 6×4,5 de 56 × 41.5mm), 4×5 (10.2 x 12.7 cm) e 8×10 (20.3 x 25.4 cm). Com as mesmas 160 linhas por milímetro. Faz as contas.

Bom, é isso. Mas, pra terminar, é claro, temos algumas observações:

1. Esse é o desempenho de UM tipo de filme. Como já sabemos bem, cada tipo, de cada fabricante, tem suas características próprias. Os dados são baseados nas informações disponíveis pela própria Fujifilm.
2. Também deve se levar em conta o papel das lentes na obtenção dos resultados, que deveriam ser tão capazes quanto o próprio filme
3. Ainda com todo esse poder, também é bom ter um Scanner que esteja à altura do que você quer capturar – como o erótico Hasselblad Flextight X5 Scanner e seus 8.000 dpi.
4. De nada adianta ter o filme mais refinado, a lente mais capaz, se VOCÊ não souber fazer fotos boas o suficiente.

* Cada linha irá requerer um pixel claro e um escuro, ou dois pixels. Assim, será necessário aproximadamente 320 pixels por milímetro para representar o que é registrado no Velvia 50. 320 x 320 é igual a 0,1 Mp.

** Se formos interpolar da mesma forma os “pixels do filme”, usando o mesmo fator de 1:2, a resolução final estaria em modestos 174Mp (!!!)

Quanto vale esse post pra você?
Pense nisso e, se achar justo, colabore conosco! Você pode apoiar o Queimando Filme através de doações (faça a sua aqui!), divulgando esse post para seus amigos, ou até simplesmente clicando nos banners dos anunciantes! Tudo isso ajuda o Queimando Filme a continuar postando conteúdo de qualidade para todos os amantes da fotografia analógica ;-)

comentários
 
Deixe uma resposta »

 
  • 22/11/2015 em 10:15 pm

    Oi Bruno, creio que esta visão de qualidade por tamanho de grãos em filme é um equívoco. Na época do negatvo entrei em debate com diversos colegas sobre. Eu cheguei a conclusão que quanto mais natural em mantinha os grãos na revelação mais qualidade e profundidade de campo ganharia na cópia. Isso acontece porque como você mesmo disse antes os grãos são unidades tridimensionais. Comecei a revelar meu Trix 400 por exemplo com reveladores sem Sulfito, porque o mesmo danificava e afinava os grãos. Havia já no final dos anos 90 uma febre em afinar grãos e o Microfem da Ilford estava vendendo igual banana, nesta mesma época fui a França e trouxe o Rodinol, o resultado foi espetacular.

    Responder

  • 22/11/2015 em 10:08 pm

    Olá não consegui chegar a duas contas, como fazer o inverso de megapixels para linhas? Você recorreu a alguma tabela? E como vc chegou a 204,840223?

    Responder

  • Augusto
    20/12/2014 em 7:43 pm

    Augusto. Acho que a verdade é o exato oposto. Enquanto o meio físico (negativo) dura 100 anos em condições ambientais normais, O meio digital caduca rapidamente: fita magnética, cassete, disquetão, disquetinho, mini-disc, CD, DVD, Blue Ray, cartões de memória etc, tudo se torna low tech muito rapidamente. Como é tudo magnético a informação eletrônica é danificada magneticamente (basta deixar sobre um auto falante por um tempinho). E para piorar o cenário, é muito difícil buscar um arquivo de disquete de 3,5″ feito no word usado no Windows 95 com qq computador atual. Simplesmente não funciona, assim como nada do Windows CE é lido pelo Windows 7. A menos que se passe para o papel, o destino do acervo fotográfico digital existente em mãos não profissionais e se perder em poucos anos por causa de um HD danificado, de uma reformatação descuidada, de um Del errado ou de um avanço tecnológico devastador, desses que acontecem a qq momento. Já para destruir um negativo revelado, só voluntariamente. Os ganhos da digitalização são irrenunciáveis, já seu maior dano fotográfico foi justamente acabar com a revelação e, por extensão, com os laboratórios fotográficos. Poucos imprimem. A foto tornou-se banal e descartável. Essa mudança cultural é sólida. Postou acabou. Se lotar a memória, DEL.

    Responder

  • Sergio
    25/01/2013 em 10:24 pm

    Concordo com tudo o que foi dito. Sou da época dos filmes e continuo com eles, embora tire mais fotos com minhas digitais. A questão que pega, ao meu ver, é a pós-produção da coisa toda. Inevitavelmente vc terá que digitalizar para preservar/compartilhar/organizar suas fotos reveladas em filme. Senão, vc as perde. Ou corre sério risco de as perder em algum momento. SIm , tenho fotos de mais de 80 anos bem impressas e conservadas. Mas tb tenho dezenas de negativos que urge digitalizar senão… E aí entra todo o artezanato da coisa, trocentas técnicas de limpezas de negativos/diapositivos, como escanear, que scanner utilizar etc., etc. e… etc. E, para completar, máquinas analógicas, de filme, tirando as “lomográficas”, não são mais fabricadas, pelo menos não com a qualidade das antigas. Enfim, existem desvantagens muito sérias a se considerar. Gostaria de experimentar esse Velvia 50. Será que vende aqui no Rio de Janeiro? Grande artigo, parabéns e obrigado por compartilhar essas informações.

    Responder

  • 26/11/2012 em 8:21 pm

    Entendi Bruno,
    Quanto mais baixo o ISO do filme a qualidade será menor, porque o filme é menos sensível e quando a luz chegar corretamente até ele, o ruído será bem menor, e a nítidez maior.
    Quando se fotografa com uma digital no escuro, se ajusta o ‘iso’ dela para essa condição, a maioria dos sensores não é tão eficaz, mas se saem melhor que um ISO maior numa câmera de Filme. É isso? Ou estou quase lá?
    Caso for responder essas no próximo post, não precisa responder. Aguardarei ansioso. rsrs
    Abraços.

    Responder

    • 28/11/2012 em 1:19 pm

      Matheus,

      A qualidade da imagem nos filmes de ISO baixo está diretamente ligada ao tamanho médio dos grãos de prata que compõem a imagem na película. Filmes de ISO mais elevado possuem grãos maiores – que são mais facilmente visíveis ao olho nú. O André já abordou um pouco disso nesse artigo.

      Nas câmeras digitais, o ruido é uma série de outros fatores (por exemplo, o aumento da carga elétrica que é submetido o sensor).

      Um abraço!

      Responder

  • Eduardo Andrade
    26/11/2012 em 3:51 pm

    Eu fotografo muito com filme, e eventualmente as pessoas me pedem p/ ver como a foto ficou, daí então eu digo que é uma câmera de filme. A primeira reação de praticamente todos é fazer uma cara de interrogação, do tipo “como assim, filme??!”. Depois dessa primeira reação, me perguntam se é “filmagem”, eu respondo que não, que é rolo de filme negativo. Uns 25% lembram do que se trata (teve gente de 40 anos de idade que chegou a me dizer que nem imaginava que isso ainda existia!), e os outros 75% continuam na dúvida mesmo… Eu acho isso curioso, já que a fotografia digital é relativamente nova, deve ter uns 10 ou 12 anos no Brasil, se muito.

    Responder

  • 26/11/2012 em 3:45 pm

    Eu achava que as digitais eram melhores(apesar da variabilidade desses dados). hahah
    Foi muito útil. Aposto que alguns desinformados vão dizer que sua máquina compacta analógica de 30 R$ do mercado livre te uma imagem triplamente melhor do que uma Nikon das ‘mió’. fhudishfuishfusaifhudifhusaf

    Mas enfim, se tivermos uma Hasselblad H4d(ou alguma mais top) e a melhor analógica, com lentes, cenários, iluminação, equivalentes, e a foto seja tirada no mesmo lugar.
    Qual foto sairia melhor?

    Responder

    • Bruno Massao
      26/11/2012 em 5:01 pm

      A resposta está no próprio texto. Se você usar a mesma ótica, com as mesmas condições de luz e configurações de abertura e velocidade iguais, a unica diferença vai ser o modo de captura (negativo x sensor digital). Se você comparar com um Velvia 50, a fotografia analógica será melhor. Se você fotografar com um Kodak Ultramax 400, provavelmente a digital melhor. Se você fotografar com um Konica VX 100, com certeza a imagem digital será melhor. ;)

      Responder

Deixa aí seu comentário!