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O que é falha de reciprocidade (e porque você não deve se importar com isso)…

por em 15/03/2013
 

Acima: Escritório de Helmut Friedel – 29 de julho de 1996 a 29 de julho de 1997 – por Michael Wesely

AVISO AOS NAVEGANTES: O texto a seguir é sobre um assunto chato, irritante, que causa sonolência e extremamente técnico. Tentarei mantê-lo simples e de fácil entendimento, mas já deixo claro que esse tema é extremamente focado em um aspecto da fotografia. Sentem e relaxem, ok? ;)

Pera ae, então se o assunto é assim tão chato, por que você está escrevendo sobre?

Calma! Uma leitora do Queimando Filme, a Jéssica, enviou um e-mail perguntando sobre o assunto, e como nós partimos do princípio de que a dúvida de um pode ser a dúvida de muitos, estamos escrevendo aqui.

Bom, vamos ao simples primeiro, certo? Falha de reciprocidade (do inglês reciprocity failure) não é nada mais que a inabilidade de uma determinada superfície fotossensível (seja um sensor, um filme ou um papel fotográfico) conseguir formar uma imagem em determinada situação de luz. A questão, porém, é mais “complexa”: cada mídia tem a sua falha de reciprocidade. Não há um número exato que indique, por exemplo, que todo filme de ISO 400 deve ser exposto por pelo menos 1/60 pra captar baixas luzes, ou que um filme ISO 100 deve ser exposto por 1/15 para tal feito. Simplesmente varia de acordo com o tipo de filme, marca, ISO, camada de cor… e não há como medir sem testar. E aí é que mora a pegadinha: você não precisa testar para saber qual é a falha de reciprocidade do seu filme preferido se as suas fotos forem “normais”. E, por normais, eu digo nada de astrofotografia, longas exposições, velocidades ultra insanas (tipo 1/10.000 pra mais) e afins.

Para você ter uma ideia de como funciona mais ou menos, imagine que você esteja em uma determinada situação:

Você tem um filme de ISO 400 na câmera, e fotometrando uma cena obtêm f/2.8 de abertura com 1/30 de velocidade. Um amigo seu, que tem exatamente as mesmas câmera e objetiva que você, porém está usando ISO 800, fotometra a mesma cena e recebe f/2.8 com 1/60 de velocidade. A fotometria de ambas as fotos é a mesma, mas a do seu amigo saiu um pouquinho – digamos, bem pouquinho MESMO – mais escura. Isso é chamado de falha de reciprocidade.

Entendeu mais ou menos? Pois bem, vamos continuar. Essa diferença de luz, em fotografias comuns, não faz a menor diferença. Isso mesmo: não faz diferença alguma. Você e seu amigo olhando as fotos vão pensar que elas são iguais, porque a diferença de luz é minúscula!

Citarei como exemplo uma foto que fiz, em determinada situação. Eu havia comprado o controle remoto da minha DSLR, e inventei de fazer uma longa exposição absurda. Armei tripé, encaixei a câmera, enquadrei, joguei a abertura em f/32, ISO 100, bulb e deixei a câmera expondo por nada mais, nada menos, que 1 hora. Só que, ao ver o resultado, a foto estava extremamente vermelha. Isso mesmo, vermelha, e isso é devido à falha de reciprocidade. Como os díodos que captam a cor vermelha são mais “sensíveis” que os verdes e azuis, a tonalidade vermelha acabou se sobressaindo sobre todos os outros tons. Isso não significa que não havia outras cores na foto, mas que, simplesmente, o tom vermelho predominou. E vale citar que a foto foi feita lá pela 1 hora da manhã, em uma noite sem Lua e com a câmera apontada pra um local praticamente sem nenhuma fonte de luz. Claro que o exemplo citado ainda sofre de outros fatores que você não precisa se preocupar com filme, como aquecimento do sensor e da própria câmera, mas é uma das amostras em que a falha de reciprocidade se torna óbvia.

Outro bom exemplo em que ocorre a falha de reciprocidade é quando você puxa um filme. Caso você puxe um filme de ISO 400 para 1600, por exemplo, você vai mudar a propriedade dele e ele vai sofrer uma falha de reciprocidade direta. Ao revelar, você precisa “corrigir” essa falha, o que vai alterar os níveis de contraste e cor. E aqui é que mora o outro fator pelo qual você não precisa se dar ao trabalho de se importar com o tema: se você utiliza um laboratório comum e não digitaliza seus próprios negativos, não vai fazer a mínima diferença porque ele ja vai vir para você com as cores corrigidas pelo operador do minilab.

Resumindo: falha de reciprocidade não é uma técnica fotográfica, e sim uma falha – como o próprio nome diz – que o fotógrafo deve estar ciente caso vá fazer alguma aplicação específica. A Jéssica ainda perguntou, no e-mail, se essas fotos do fotógrafo Michael Wesely foram obtidas com a falha de reciprocidade. E a resposta é simples: não – a falha existia e isso foi um desafio que ele teve que contornar para conseguir essas imagens. No próprio artigo está escrito “não há como pré-calcular um tempo de exposição,então você deve experimentar e fazer cálculos de ajuste a partir de dados de cada uma das fotos geradas por esses experimento”. Assim, ele fez vários testes, com tempos de exposições de 3 meses, 6 meses e assim por diante. As fotos do artigo, por exemplo, foram feitas com quase 3 anos de exposição cada.

Então, o meu conselho é: Se você, em algum momento da sua vida, decidir fazer astrofotografia, fazer uma foto com pinhole expondo por meses (ou até mesmo anos) ou fotografar objetos em movimentos hiper-rápidos, eu sugiro que você retome o assunto e o estude com calma e determinação. Caso contrário, isso não vai afetar em nada a sua vida, portanto esquece isso e vai se divertir fotografando.

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comentários
 
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  • 15/03/2013 em 11:13 am

    Olá, Bruno.

    Uma nota sobre sensores de cameras.

    Até onde sei não existem sensores coloridos, todos os sensores são sensíveis a intensidade de luz, a cor se dá no filtro colocado diante do sensor. Outra coisa que sei é que os tons avermelhados tem as ondas mais longas, e são mais resistentes a refração da atmosfera. Dá uma olhada aqui: http://www.youtube.com/watch?v=isrHUfFiNTg

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    • Bruno W
      30/03/2013 em 9:53 am

      É, mas a cada 4 pontos de luz que entrma na câmera 2 são vermelho 1 verde e 1 azul. Então da para enteder por que a foto ficaria avermelhada.

      Responder

    • Bruno W
      30/03/2013 em 9:54 am

      É, mas a cada 4 pontos de luz que entram na câmera 2 são vermelho 1 verde e 1 azul. Então da para entender por que a foto ficaria avermelhada.

      Responder

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