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Crônica de uma Viagem Analógica – Parte 1

por em 16/03/2013
 

O depoimento de hoje vem em forma de literatura ou, pra ser mais exato, de crônica. Daniel Carvalho nos mandou sua experiência recente de levar câmeras e filmes em viagens internacionais na forma desse delicioso conto que, no final, nos deixa querendo saber mais da tal viagem. Ele disse que outras partes virão e, por isso, essa é a parte 1. Tomara que as outras venham mesmo… :-)

Então é isso. Com a palavra, Daniel Carvalho!

Quando estávamos na fila do aeroporto pra passar pelo raio-x talvez tenha sido o momento de maior tensão da viagem pra mim. E não era pela minha barba que me deixava com cara de árabe (eles acham que todo árabe é terrorista), meu nervosismo suspeito ou minha mochila cheia de fios, gadgets e coisas esquisitas. Não. Eram os rolos de filmes. Ver minha mochila rolando pela esteira em direção àquele monstro que iria destruir meus 15 rolos me apavorou.

– O senhor se incomoda se eu passar essa sacola de filmes fotográficos pela revista manual?

Ele me olhou como se eu fosse explodir o avião.

– ISOs abaixo de 1100 (ele inventou esse número na hora) não acontece nada.

– Mas o fabricante diz que… (já estava com o discurso de um artigo que tinha lido aqui no site sobre o assunto) – Senhor (voz ríspida), não tem problema com ISOs abaixo de 1300 (hã?!).

Botei os filmes dentro da mochila, cobri com tudo o que tinha dentro, até papel de bala, na vã esperança de protegê-los dos raios mortíferos; imaginei meus filmes virando um tipo de Hulk depois de tanta radiação. Vi minha mochila passar pelo aparelho com uma cara de raiva, desespero, sei lá! Passei pelo detector e ainda deu tempo de ver os rolinhos todos juntinhos como se gritassem de dor pela tela do raio-x. Pensei: “É, acho que o papel de bala não funcionou…”

***

Durante a viagem liguei o “What the hell” e fotografei normalmente. Vai que a história ISO 1129 tem algum fundamento… Portugal se mostrava pra mim analogicamente lindo. Até tinha esquecido do raio-x… até embarcarmos pra Londres. Mais uma carga de radiação. Dessa vez foi “Senhor, é para sua própria segurança”, regado ao bom e velho sotaque da terrinha. Cheguei em Londres e não aguentei. Em Portobelo Market (aliás, um paraíso para nós, viciados em nitrato de prata) comprei alguns rolos pra garantir, alguns que nunca tinha visto no Brasil (filmes da Polaroid e da Agfa que não se ve por aqui). Fotografei desencanado. Londres é um paraíso pra Street Photography. Já tinha esquecido do raio-x. Até embarcarmos pra Paris.

Mais uma carga de radiação. Já estava imaginando meus filmes em estado líquido. Paris, cidade luz, capital do romantismo, era meu último destino. Dali não tinha mais embarque. Larguei o dedo totalmente relaxado. “O que foi já foi”. Se meus filmes não estavam fluorescentes nem quentes, alguma coisa deveria prestar.

Terminamos a viagem. Aquele último dia de viagem, aquele que bate uma ressaca, aquela vontade de fugir e não ir, aquele dia que você lembra que tem que arrumar a mala e então lembra que ela vai ter que passar por mais um raio-x. Aliás, dois raios-x: meu voo tinha conexão. “Fuck”! Pensei: “Vou chegar no Rio com um novo ‘Chernobil’ “.

***

Mandei revelar os filmes (24 rolos no total) no melhor laboratorio do Rio (e portanto o mais caro). Queria minimizar os estragos. Depois de uma semana de apreensão e unhas no limite da carne viva, algumas surpresas:

1. as fotos saíram! TODAS!
2. os cromos ficaram levemente puxados pro vermelho.
3. os negativos de Portugal (1° destino) ficaram intactos (exceto um que velou porque o zé mané aqui abriu a máquina antes de terminar de rebobinar)
4. os negativos de Londres (2° destino) puxavam para um amarelo, mas que realçou a temática urbana da cidade, sem prejudicar as outras cores. Tipo um Instagram roots.
5. os negativos de Paris (3° e último destino) puxaram um pouco mais pro amarelo e saturaram bastante, que em umas duas fotos chegaram a atrapalhar, mas que nas outras deu um efeito diferentão.
6. não sei se foi vazamento de luz na camera ou foi realmente o raio-x, mas na beirada do filme, acima do serrilhado, velou em uns 2 rolos.

***

Quer uma conclusão? Não tenho. Eu poderia ter batido o pé, explicado que o próprio fabricante não recomenda, que exigiria a revista manual, que chamaria o Papa (na época havia um), mas não fiz. Sei lá porque. Covardia, preguiça, desleixo. O lance é que todos os rolos de filmes foram bem fritados durante toda a viagem e que adorei o resultado. Significa que vou fazer isso de novo? Não. Mas acho que entendi mais uma vez (de tantas) que em fotografia não há regras, nem tantos alicerces como muitas vezes pensamos ter. E que mesmo o “erro” te deixa infinitas possibilidades.

Surpresas nem sempre são boas; mas neste caso, foram.

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comentários
 
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  • Cassio Rogerio
    18/05/2013 em 10:12 pm

    Daniel,

    Em qual lab você mandou revelar?

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  • 21/03/2013 em 1:19 am

    Daniel Carvalho é simples um dos fotógrafos mais sensíveis que tenho visto nos dias de hoje. Fico imaginando ele com dedicação total a fotografia e sem se preocupar com dinheiro… Acho que é o sonho da maioria de nós nessa profissão. rsrs

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  • Thiago
    18/03/2013 em 12:03 pm

    Daniel,

    realmente as fotos ficaram belíssimas! E gostei demais do texto também!
    Porém, o que mais me dá medo na hora de viajar com as analógicas não é o raio-x e sim, o medo de deixar uma determinada câmera ou filme pra trás. Minha paixão por analógicas fez com que eu acumulasse algumas câmeras, e todas são queridas demais, e cada uma tem o sei jeito, e seus prós e contras. Escolher a(s) câmera(s) e filme(s) certos pra levar pra mim é o que me tira o sono! Rs.
    O raio-x faz parte da surpresa!
    Abraço e parabéns novamente pelo post!

    PS: no aguardo da parte 2, 3…

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    • 18/03/2013 em 8:19 pm

      Olá Thiago.

      Cara, nem fala. Deixei um mundo pra trás. Minha Olympus Pen, a mais prática e “Point-and-shoot” que tenho ficou; minha tele 70-200mm 2.8f ficou; meu xodó, a Canon AT-1 ficou; meu tripé ficou; meu flash ficou… Cara, levei o essencial do fundamental, sabe. Por um lado foi bom porque me fez me virar nos 30 (como vou dizer em outro post), mas por outro fez falta em alguns momentos. Vida que segue, aprendizado q

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  • 17/03/2013 em 11:38 pm

    Mais uma perguntinha rsrs?
    Vc mesmo faz a digitalização dos arquivos ou é um laboratório? No caso de lab pode passar o contato? Os arquivos servem para impressão?
    As fotos ficaram com cara de cinema =)
    Obrigado pela resposta anterior, abraço!!!

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    • 18/03/2013 em 12:24 am

      Cara, com 24 rolos de filme, tirando a revelação, eu ia gastar, a R$ 25,00 reais o rolo (pra fazer em alta resolução) pra digitalizar num bom laboratório (que pro meu olho não é satisfatório). Fazendo a conta, gastaria R$ 600,00. Fiz uma pesquisa, começando aqui pelo QF mesmo (tem uma seção só sobre digitalização) sobre scanners e cheguei ao modelo que me atenderia: Epson V600. Nem tão amador, nem tão profissa. Preço: R$ 800,00. Fiquei com o scanner pra mais fotos e pra fazer servicinhos pra galera conhecida a um preço camarada até eu conseguir zerar o custo do scanner.

      E o look de cinema, cara, é a maravilha do analógico. Isso o digital só consegue simular. As únicas edições que fiz nas fotos foram de contraste, brilho e compensações que são naturais na digitalização (nenhum scanner é perfeito). Fora isso, o segredo é fotografar com filme, muito raio-x e um pouquinho de abuso. rsrs

      Abraços

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  • 17/03/2013 em 10:54 pm

    Eu não tive muita sorte na viagem que fiz em 2004 para São Francisco e Nova York.
    Fui obrigado a passar meus filmes preto branco, ISO 400, no formato 120, em TODOS os raios -X . Todos os aeroportos que passei havia uma aviso que filmes com ISO superior a NÃO deveria passar no raio-X. Eles estavam pilhados por causa do 11 de setembro de 2001.
    Todos os filmes ficaram uma mancha, em forma de uma grossa linha, no sentido do comprimento do filme. Foi uma tragédia. Eu havia levado minha Hasselblad e fiz belas fotos(pelo menos eu acredito nisso).
    Procurei um advogado por aqui para processá-los, todos amarelaram achando uma causa muito trabalhosa. Eu merecia uma indenização.

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    • 18/03/2013 em 12:18 am

      Olá Rinaldo.

      Cara, tem um artigo aqui no site que fala sobre isso. Não sei se você já leu; se não, vale a pena. Outra dica que te dou, pras próximas vezes (nós, viciados em viagem, sempre almejamos as próximas vezes, né?) é entrar no site da Kodak (acho que o da internacional). Lá, nas descrições dos filmes que eles fabricam tem uma seção que fala sobre exposição dos filmes a raio-x e que é “altamente não recomendável” esta exposição. Creio que nas próximas, se você levar isto contigo, talvez suas chances possam aumentar…

      Abraços e valeu pelo comentário.

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  • 17/03/2013 em 7:13 pm

    Daniel, as fotos ficaram maravilhosas. Só consigo pensar que deve ter sido uma viagem incrível mesmo!
    Eu também tenho medo do raio-x, mas ainda não tive problemas como isso. Revelei um x-pro da Lomography que passou na ida e na volta da viagem pelo raio-x e as cores ficaram lindonas. Ufa!

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    • 18/03/2013 em 12:14 am

      Oi Dani!

      Eu não diria que morro de medo do raio-x… Hummm, quer dizer… Tá, admito, tenho medo sim. Raio-x é que nem sua mãe mandar você dormir aos 7 anos e apagar a luz do quarto. Você não sabe o que pode vir depois. Só que você dorme, até tem uns pesadelos e quando acorda no dia seguinte, descobre que nada aconteceu. E as vezes até acorda no chão do quarto, porque caiu da cama durante o sono, mas nem percebeu e acordou na boa.

      Bom vou parar por aqui. Minha metáfora já tá esquisita demais.

      Um grande abraço e obrigado pelo comentário.
      (Sim, a viagem foi demais!)

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  • 16/03/2013 em 3:56 pm

    Olá, que camera, lente e filmes vc usou Daniel?
    Abraço!

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    • 17/03/2013 em 12:37 pm

      Olá Hebervan.

      Cara, viajei de mochila, então eu tinha que levar o mínimo possível. A minha vontade era levar tudo! Mas não dava. Então, como estava levando a digital (sabe como é, só pra garantir), levei meu equipamento compatível ao máximo com ela. Trocando em miúdos: levei uma Canon EOS 5 (ou pros mais íntimos A2e), uma lente 50mm 1.8F, uma 28-105mm 3.5/4.5f.

      Filmes, vamos lá: os filmes foram os mais variados possíveis. Como sou leigo e abusado, to sempre em teste. Mas os mais usados foram Ilford Delta 100 e HP5 plus, Kodak ProImage e os cromos foram basicamente os Fuji Velvia. Mas tiveram algumas surpresas. Consegui, como falo no texto, um negativo-cor da Polaroid que nunca tinha ouvido falar e um negativo-PB da Agfa que nunca vi aqui.

      Obrigado pelo comentário.
      Abraços!

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