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Crônica de uma viagem analógica – parte 2

por em 26/03/2013
 

Confesso que eu já imaginava que a primeira parte das Crônicas do Daniel Carvalho (publicada aqui) ia fazer sucesso… mas não imaginava que ia fazer tanto.. :-) Que bom! Porque, assim como vocês, também adorei, e fiquei aguardando a segunda parte. Pois bem, promessa é dívida, e aqui está ela, fresquinha, recentemente saída da cabeça do Daniel.

O dia em que resolvi sair sem câmera.

Todo viajante independente e de mochila sabe que a viagem é corrida, principalmente pra gente que é pobre e quer ver tudo o que puder. A gente já viaja sabendo que vai ser cansativo, que vai dormir pouco, que vai acordar cedo, que vai faltar grana… Agora imagine um viajante apaixonado por fotografia, aquele cara que para toda hora porque tudo merece uma foto: ele viu uma lata de lixo sorridente, um cachorro dançando numa faixa de pedestre, um papai noel fumante protestando contra o imperialismo americano… Se tua companhia de viagem também não é assim, ninguém te quer por perto. Toda hora tem alguém buziando no teu ouvido. “Bora logo!”, “O que você viu nisso, cara?”, “De novo?!” ou até mesmo “Porque tirar foto se já tem na internet?”. É, não é fácil não. Agora imagine se esse “viajamante” fotógrafo é analógico e comete o extremo pecado de refletir antes de bater a foto. A sorte é que minha companheira de viagem é casada comigo (se fugir, paga pensão), que a passagem dela tava guardada comigo (ou então vai a nado) e que a gente só casou há 3 anos (tudo muito novo ainda…).

Quem viaja sabe que a máquina tem que estar sempre preparada. Um segundo e já era. Um segundinho e o cachorro se foi, a lata de lixo fechou e o papai noel voltou a entregar presentinhos pra quem se comportou. Não importava onde fossêmos, minha máquina tava sempre à mão. Era uma extensão do meu braço. Minha mulher com a digital e eu fiel ao filme. Todo mundo desacreditando da minha coroa enxuta, mas lá tava eu, enchendo o saco de todo mundo até me deixarem pra trás e eu poder fazer tudo com a calma que eu queria e precisava.

Um dia cansei. “Não quero peso, não quero raio-x, não quero trombolho; quero feriado”. Resolvi deixar a câmera em casa e curtir um dia de viagem só com a minha mulher. “Um diazinho só”, pensei, “não vai fazer mal”. Maldito momento.

Murphy deve se divertir muito lá em cima. Ele deve ser o fantasma mais sarcástico de todos os tempos. “Não foi por falta de aviso”, ele deve se repetir toda hora, às gargalhadas, enquanto Deus o observa com um olhar de desaprovação, mas com um sorriso de meia boca.

Aconteceu em Paris. Deixei a câmera no apartamento que alugamos. Saí sem nada de fotografia, me sentia pelado num frio de zero graus. Deixamos o apartamento em direção ao metrô, a uns 400 metros de casa. A neve devia estar com uns 5 centímetros, e aquilo foi maravilhoso pra quem nunca tinha visto. Eu só não babava porque o frio congelava a saliva antes. Quando chegamos na esquina, duas menininhas lindas acompanhadas dos pais, brincavam na neve jogando uma na outra bolinhas brancas e rechoncudas; se jogavam e rolavam naquele tapete branco como se fosse um gigantesco brinquedo. Já meti a mão na mochila pra tirar a máquina quando lembrei que ela não estava lá.

“Merd”! Tudo bem, trato é trato.

Seguimos pelo metrô, um senhor tocava em um acordeão aquelas “chansons françaises” que a gente vê em filmes. Pensei na minha câmera, em cima da cama, lá no apartamento. Cheguei a cogitar de voltar, mas lembrei que minha mulher tava na TPM e (graças a Deus!) deixei pra lá. Entramos no vagão. Conversávamos quando um senhor entra no trem e faz um show de teatro de fantoches, com direito a palco, cenário, trilha sonora, tudo! Era o universo dizendo pra mim que eu tinha feito besteira. Era Murphy se contorcendo de rir. Droga!

Fechei a cara. Minha mulher me viu assim e já se encarregou dos seus chamegos. “Trato é trato”, pensei. Simbora! Saltamos na Champs Elysees pela segunda vez na viagem, conhecida como a avenida mais chique do mundo. Pra quem não foi ainda, é o lugar onde todas as peruas do mundo, frustradas ou não, passeiam com seus poodles e suas sacolas com marcas caras e famosas, onde as Ferraris e os Porsches andam como se fossem Fuscas, onde você lembra do lugar de onde você vem e se sente completamente, totalmente, absolutamente deslocado. A neve tava meio lá, meio cá: nem tava fofinha, nem tinha virado água; tava um barro que teimava em não descongelar, extremamente escorregadio que misturava a poeira da calçada com a caca dos pombos e dos cachorros e de tudo o mais que tinha na rua. Como se isso não fosse o bastante pra bater uma boa foto, uma das senhoras “Très Chic” resolve escorregar e cair de bunda no chão, com aquele casaco caríssimo e as bolsas todas voando por tudo quanto é lado. “Cadê minha câmera”?!

Eu poderia ficar aqui contando como encontramos um cara de Hollywood andando por lá, como encontramos trombadinhas se preparando pra roubar bem embaixo de uma placa avisando pra tomar cuidado com os trombadinhas, como avistamos ET’s, anjos e duendes e como tudo de fantástico e inusitado resolveu acontecer logo naquele dia. Poderia dar os mínimos (e ínfimos) detalhes. Sabe porque? Porque a ausência da minha câmera me fez fotografar com minha memória. Se não fosse isso, talvez eu não reviveria tão bem assim esses momentos. Isso quer dizer que a presença da câmera atrapalharia? Claro que não! Deus sabe (ô se sabe) como eu queria ter voltado e ter pego minha câmera. Mas apesar desse arrependimento, foi um dos dias mais legais da viagem. De um jeito muito torto, comecei a aprender a importância de fotografar com a cabeça, antes de fotografar com a câmera.

Lição aprendida: nunca, absolutamente nunca ande sem camisinha e sem câmera fotográfica. Seja o que for, você perderá algo que talvez não se repita nunca mais. Quer dizer, a não ser que você seja casado e tenha uma esposa como a minha (se ela ler isso eu ganho o mês!)…

Todas as fotos que eu não tirei nesse dia estão aqui dentro da caixola, guardadas, organizadas, editadas e ampliadas. E é por isso que esse post não vai ter nenhuma foto pra ilustrar. Porque nesse dia, tudo isso que aconteceu, tudo o que vivemos e experienciamos vai ter que ficar no melhor filme fotográfico do mundo: a memória.

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comentários
 
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  • Nina franco
    27/03/2013 em 6:44 pm

    Que nostálgica sua história!!! amei demais!!!! sabe, morei na Irlanda um ano e fiz esse mesmo exercício, são poucas as fotos que tenho de lá, pq resolvi viver como uma local e ter tudo guardado na memória e quer saber, lembro de tudo, de todos os dias. talvez se tivesse carregando a camera sempre eu nao teria sentindo as mesmas emoçoes e sentimentos tão forte em cada cena que eu via em cada situação q eu viva.

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    • 28/03/2013 em 7:07 pm

      É por aí mesmo Nina.

      É mais ou menos como os adolescentes de hoje que vão pra um show que esperam há anos e ficam o tempo inteiro com a mão levantada tentando filmar alguma coisa qualquer que vai ficar borrada e distante no final. Se eles olharem pro lado, vai estar eu, pulando que nem um louco.

      Mas valeu pelo elogio e pelo comentário.

      Abraços

      Responder

  • 27/03/2013 em 3:02 am

    Olá Silvano!

    Obrigado. Minha professora de redação do primário ia gostar do elogio; o trabalho foi todo dela. E segura o choro de emoção aí rapaz! Deixa ele pra quando a Leica passar a vender as câmeras dela a R$ 1,00 (não custa nada sonhar…). E quanto a sua observação sobre não sair de casa sem câmera, e a camisinha, hein? rsrs

    Brincadeiras a parte, muito obrigado pelo elogio e pelo comentário.

    Abraços

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  • Silvano Rocha
    26/03/2013 em 5:34 pm

    André e Daniel, meus parabéns pela linda Estória sendo muito bem retratada e escrita, quase chorei aqui de emoção com o final, muito boa a redação mesmo.
    É isso aí, em meus passeios eu tento ao máximo registrar os momentos na minha cabeça e inclusive fico trinando (se fosse 50mm, Se fosse uma lente 200mm rsrs, coisa de maluco isso). Quando estou sem câmera faço sempre esse exercício, mas ultimamente não tenho conseguido sair sem alguma das minhas cameras :)

    Responder

    • 27/03/2013 em 3:03 am

      Olá Silvano!

      Obrigado. Minha professora de redação do primário ia gostar do elogio; o trabalho foi todo dela. E segura o choro de emoção aí rapaz! Deixa ele pra quando a Leica passar a vender as câmeras dela a R$ 1,00 (não custa nada sonhar…). E quanto a sua observação sobre não sair de casa sem câmera, e a camisinha, hein? rsrs

      Brincadeiras a parte, muito obrigado pelo elogio e pelo comentário.

      Abraços

      Responder

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