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Se torne um caçador solitário para caçar melhor

por em 29/04/2013
 

Antes de você começar a ler o próximo artigo, só um aviso: ele é uma tradução livre do artigo “Lonely hunter. Better hunt.” do fotógrafo Kirk Tuck, publicado originalmente em seu blog.

Ele é mais um tapa na cara texto incentivador para vocês, leitores, irem fotografar mais e saírem de suas zonas de conforto. ;)

 

Em 1992 fiz uma viagem para Paris só para fotografar pra mim mesmo. Pode soar egoísta, mas eu não tinha filhos para criar e minha esposa estava focada em uma carreira carregada de trabalho como Diretora de Arte de uma agência de publicidade. Fui procurado pela Agfa naquele ano para testar a linha de filmes APX, e pedi duas caixas de filmes – uma de ISO 100 e outra de ISO 400. Eles me perguntaram onde eu queria fotografar e eu respondi “Paris”. Um mês depois, no final de outubro, eu estava lá com uma bolsa de equipamento fotográfico cheia de novas lentes Canon EOS e alguns corpos. Ah, e uma sacola de compras cheia de filmes preto e branco.

Eu tenho um amigo que é francês e vive em Paris. Nós hospedamos a família dele aqui em Austin algumas vezes. Quando viajei para Paris, fiquei em um “quartinho de empregada” que ficava em cima da casa dele em um dos bairros centrais. O apartamento era bem pequeno, com apenas um chuveiro, uma pia e uma cama. Mas do que mais você precisa? Meu amigo é como um salva-vidas de piscina: quando o visito ele me diz o que mudou e o que continua igual. Áreas a evitar e áreas para visitar. Mesmo com ele sempre ocupado com trabalho e sua família, nós acabamos arrumando tempo para um belo de um jantar quando apareço.

Nessa viagem, passei todos os dias praticamente fazendo a mesma coisa: acordava cedo e tomava café da manhã em um café de esquina. Sempre me sentava no balcão e meu pedido era o mesmo: cafe au lait e um croissant. Então eu colocava uma 50mm em uma das inhas EOS-1 (o corpo original profissional com autofoco da Canon) e uma 85mm f/1.2 no outro corpo e então eu ia para a rua caçar imagens por pura diversão. Eu parava para almoçar no café Fauchon ou então me enfiava no McDonald’s da avenida Champs-Élyseés quando sentia falta da culinária de alto nível americana. Durante as tarde me encontrava com amigos americanos que estavam em Paris passando uma temporada e íamos a restaurantes de outros bairros. Era sempre uma aventura.

Naquela viagem usei 100 rolos de filme ISO 100 e mais 100 rolos de filme ISO 400, todos Agfa APX. Quando eu voltei para Austin, enviei tudo para o laboratório BWC em Dallas, onde eles revelaram e fizeram folhas de contato (cortesia da Agfa). Até hoje eu olho meu bloco de anotações que eu escrevi na época, puxo os negativos e sempre digitalizo minhas novas fotos favoritas.

Porém, até essa viagem, eu sempre havia viajado acompanhado, primeiro com meus pais, depois minha namorada de faculdade e finalmente com minha esposa. E em todos esses cenários a fotografia acaba sentando em um banco atrás do contato social de viajar com outras pessoas e passar tempo com eles. Você pode até querer andar sem rumo, mas a outra pessoa ou pessoas com quem você está podem ter uma agenda: uma lista de museus ou lojas a visitar. Eles querem passear no Bateaux Mouche e subir na Torre Eiffel. Faça o teste para perceber o quanto eles não vão te entender: se afaste deles, pare, se vire, tire uma foto. Ande dez passos e faça tudo de novo. A irritação começa a aparecer.

Eu preciso compartilhar que a Belinda é a melhor companhia que qualquer fotógrafo quer. Ela pode ser totalmente autônoma; eu acordo e pergunto para ela o que ela queria fazer quando visitarmos uma outra cidade  e ela tem dois itinerários prontos: um caso eu vá junto e outro se eu não for. Se for a segunda opção, nós nos encontramos depois para jantar.

Mas em 1992 era tudo comigo, infinitamente. Eram os dias antes da internet, então não havia a necessidade de “check in.” Nada de checar e-mail compulsivamente. Sem tweets bobos ou despretensiosos. E nada de celular também. Eu podia ficar dias sem falar com alguém que eu conhecesse e era legal pois eu concentrava toda minha atenção em fotografar ou descobrir novas posições para fotografar.  Eu conheci a EOS-1 de uma maneira que eu jamais poderia conhecer uma câmera agora. Ela era uma câmera incrível (mas esse texto não é um review dela.).

Eis o que eu aprendi: se você quer fotografar de uma forma que realmente satisfaça sua alma e seu ego, você tem que fazer isso sozinho. Esqueça que você tem esposa ou namorada ou melhor amigo ou companheiro fotográfico junto com você. Esqueça todo o conceito de uma “saída fotográfica” que não faz nada além de homogenizar sua maneira de pensar com as dos outros. Deixe todos os seus eletrônicos no quarto de hotel. Corte toda a comunicação, durante o dia, do ou com o “mundo real” e mergulhe na caça por imagens. Aprenda o que o seu cérebro pede e por que. Aprenda a operar a sua câmera como se fosse braile. E tome suas decisões baseado no que o seu curador interior quer que você diga.

Todo o resto é apenas balela.

 

Nenhum dos seus amigos não-fotógrafos irá entender, mas tudo bem. Seus verdadeiros amigos fotógrafos ou sentirão inveja ou concordarão, apreciando e aprovando sua ação porque eles também já o fizeram. Quando você vê o mundo se desdobrar na sua frente, sem o muro de concreto construído pelo social, você se sente livre para ver de forma diferente e tomar decisões diferentes sobre o que você vai fotografar. No final você vai chegar em casa com fotografias intensamente mais pessoais. Diferentes. Poderosas.

Muitos de vocês vão jogar suas mãos para o alto e reclamar que tem crianças ou obrigações e não podem fugir das mesmas. Outros vão choramingar que “suas esposas nunca deixariam eles irem até Paris sem elas”. Mas você só tem uma vida. Se você tem uma esposa assim seria bom pensar em um divórcio temporário. Se você tem filhos você pode pensar no exemplo que você está dando para eles, que a vida é uma aventura e que você pode ou ficar sentado em casa e assistir ou levantar e participar.

Quando meu filho tinha seis meses de idade eu tive a oportunidade de visitar Roma para fotografar nas ruas por 10 dias com filme grátis providenciado pela Kodak. Eu estava com o pé fora de casa assim que encontrei meu passaporte. Minha esposa é uma pessoa forte, que não precisa da minha constante presença para se sentir amada. Ela estava excitada pela minha oportunidade e novamente eu voltei para casa com imagens que eu amo. Crie o seu tempo. Saia para fotografar.

Eu conheço pessoas que só viajam em turnês ou grupos. Elas estão perdendo muito. É como ser guiado pelo paraíso com uma venda nos olhos.

Minha história favorita da viagem para Paris em 1992 foi quando a esposa do meu amigo me levou para almoçar. Ela me encontrou em algum lugar próximo da casa deles com sua Vespa, me passou um capacete e fez eu subir na garupa. Então ela acelerou pelas ruas, como se fosse uma cena de perseguição de cinema. Eu parecia uma “menina” na garupa, estava apavorado. Nós estacionamos em uma calçada e atravessamos um corredor de pedestres até um restaurante que eu nunca mais encontrei novamente. As mesas eram cobertas por um papel branco e os garçons anotavam os pedidos nesse papel. Se pedíssemos vinho, era anotado no papel. A comida era incrível mas mais incrível ainda eram as pessoas que estavam no local. Os garçons arrumando a cozinha. Amantes se inclinando sobre a mesa para trocar um beijo. Homens de negócio em ternos escuros compartilhando garrafas de vinho junto com almoços fartos. E eu, clicando de uma certa distância com a 85mm.

Após o almoço ela me perguntou o que eu gostaria de ver durante a tarde. Eu respondi “Paris.” Ela me beijou na bochecha e saiu em uma cortina de fumaça; eu saí para ver mais. Sempre mais um pouco.

 

O que eu faço com todas essas imagens? Eu olho para elas. Eu lembro dos meus sentimentos, do pensamento de liberdade de viajar sozinho. E eu incorporo esses sentimentos de liberdade, de tempo em tempo, em qualquer trabalho que eu esteja fazendo no momento.

É importante viajar fora do seu espaço visual comum. Para fora da sua zona de conforto cultural. Para fora da sua rede social. É importante aprender a ser mais confortável consigo mesmo. Muitos estudos psicológicos apontam que os grupos têm um poder de sutilmente, ou até mesmo inconscientemente, empurrar você para uma zona de conforto. Sincronizar com o resto do grupo. Se você quer expressar uma visão individual, você deve se tornar individual.Não há outra maneira de fazê-lo.

E se você quiser tirar fotos como todos os outros, ou andar junto com todo mundo, considere a ideia de ficar em casa e baixar fotos de banco de imagens da internet.

  • Rejeite a ideia de “saída fotográfica” a menos que seja uma saída só com a sua câmera.
  • Deixe todas as âncoras sociais em casa. Sempre haverá tempo para uma férias em família.
  • Experimente a alegria da descoberta unica. Muito mais poderosa em diversas formas que a  experiência compartilhada.

E faça isso AGORA antes que sua vida tenha passado por você e você acabe se arrependendo das escolhas que nunca fez.

Câmeras podem mudar mas a caçada continua, inabalável. Não espere pelo alinhamento das estrelas. Não espere a loteria. Nós nos sentimos mais ricos pelas nossas experiências do que por qualquer coisa que compremos. É apenas nossa natureza humana.

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