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#BoaIdeia n°2: Sophie Calle, sua doida!

por em 21/05/2013
 

Observação inicial: se você ainda não leu o post inicial dessa série, dá uma olhada aqui.

Quanto mais eu pesquiso boas ideias, mais desconfio que elas vêm de pessoas um pouco birutas. Aliás, desconfio também que todo gênio é um pouco biruta (embora nem todo biruta seja um pouco gênio e a gente tenha que tomar cuidado pra saber diferenciar os dois).

Sophie é uma artista contemporânea francesa. Ela também é doida, obssessiva, engraçada e bem-sucedida. Tem seu trabalho reconhecido no mundo inteiro e suas obras estão presentes em algumas das maiores galerias do mundo todo. Coisas que vocês precisam saber sobre ela antes de a gente continuar:

1. Ela se tornou artista quando tava pirando em fotografar pessoas dormindo. Uma das pessoas que ela fotografou trabalhava em uma galeria, comentou com o chefe que achou a ideia genial e ela virou oficialmente artista.
2. Ela já se empregou como camareira em um hotel para fotografar o que as pessoas levavam nas malas.
3. Já stalkeou um desconhecido fotografando tudo o que ele fazia simplesmente porque trombou com ele duas vezes no mesmo dia. Ele entrou em um trem e foi pra Veneza, ela entrou e foi também.
4. Já ficou com medo de passar o aniversário sozinha e criou um “ritual do aniversário”. Todos os anos, na data de seu nascimento, convidava um número de pessoas correspondente à sua idade. Dentre eles, um era sorteado e tinha a missão de levar um “convidado surpresa”. Ela fotografava tudo, nunca usava os presentes e, quando decidiu parar com essa história, lançou um livro chamado “ritual do aniversário”, que vendeu feito água.
5. Sophie se casou com um desses convidados. Passou um tempo com ele, mas o relacionamento terminou de uma forma bastante chata: ele ficou com medo de dizer aa ela (eu também teria) e fez a única coisa que não podia ter feito: deixou uma carta de rompimento. No mesmo mês ele lançou o segundo livro de sua carreira, que o projetou internacionalmente. O livro chamava: “O convidado surpresa”. MUITA mancada.

Sophie, então, deu início ao seu “novo” projeto, o “Cuide de você”. Cuide de você era a última frase da carta, e como ela não tava conseguindo “se cuidar”, pediu a ajuda das amigas. Enviou a carta pra 107 mulheres que escolheu pelo destaque em seu meio de trabalho e pediu a elas que a interpretassem de um ponto de vista profissional. Também combinou que ia fazer uma foto das amigas com a carta. E é justamente essa parte que interessa pra gente.

As fotos são sempre dos mesmos objetos: uma mulher, a carta e um cenário (qualquer). E Sophie consegue transmitir, só com isso, todos os sentimentos que fazem parte da vida de uma mulher que leva um pé na bunda. Se ela ia fotografar uma das amigas e estava se sentindo sozinha, era a solidão que ela fotografava.

sophie 01

Se estivesse feliz porque achava que “quem perdeu foi ele”, era a felicidade que estampava sua foto:

sophie 02

E assim, alternando o “ drama” e a “leveza”, sophie compôs as 107 imagens do livro, até que digeriu a história e deixou isso pra lá (depois de editar um livro, percorrer o mundo com a exposição e ganhar rios de dinheiro com a história. Esperta, né?).

O livro também tem as interpretações das amigas, veja uma logo abaixo:

sophie 03

Minha dica pra gente aprender com ela é: Vamos olhar pra essas fotos com atenção, ver que sentimento ela queria transmitir e como foi que ela conseguiu colocar isso na foto. O que é responsável pelo drama (a luz?), o que é responsável pela solidão (o enquadramento? Os lugares vazios?) e por aí vai.

A segunda dica é: A Sophie prova que até a mais besta das situações pode virar uma boa ideia, desde que você a conheça por dentro. Desde que seja a sua dor, a sua vontade, a sua alegria, enfim, desde que venha “de dentro” da gente. Vamos olhar pra dentro da gente e ver se tem alguma coisa boa pra gente fotografar aí?

PS. Essas fotos são bem difíceis de encontrar na internet. Por isso algumas foram reproduzidas do meu livro, que era novo na época e eu não queria estragá-lo. Sorry pelas lombadas =)

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comentários
 
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  • Ana Lu
    21/05/2013 em 10:27 am

    há 2 anos atrás eu fiz uma série chamada “paixões platônicas de coletivo”, retratava discretamente as pessoas interessantes que encontrava nos transportes públicos, aquela pessoa que é o amor da sua vida até que o próximo ponto (ou estação) os separe. Sofro de uma leve síndrome de Sophie Calle, confesso. #prontofalei

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    • 21/05/2013 em 10:40 am

      Oi Ana Lu!
      Essa é uma situação muito bacana mesmo. Tenho um amigo que escreveu um soneto sobre esse “Amor efêmero”: Ela chama Rogério Penna

      Te reconheço de um banco de praça
      cinema-poema, moça que passa
      sem nome, telefone ou endereço
      leva uma história que eu não conheço

      Passa depressa, andando, atrasada
      ou nem me nota sentado ao seu lado
      como eu queria ser seu namorado!
      neste segundo tu és minha amada

      De todas minha amada mais amada
      que agora encontrei, da qual não sei nada
      que belo sorriso, linda, que graça.

      Queima o amor deste ser que te ama
      mas logo se apaga, posto que é chama
      vai-se embora com a moça que passa.

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    • 21/05/2013 em 1:49 pm

      Sofremos todos… sofremos todos… ;-)

      Responder

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