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Amores de verão – um empréstimo e minha primeira vez com filme 120

por em 29/05/2013
 

Sem sobra de dúvida, as primeiras experiências são algumas das mais marcantes na vida de qualquer um. E no verão último verão eu tive mais uma com sotaque russo. Seria uma série de novidades marcariam aqueles dias de sol (ou quase). O primeiro noivado. Primeira vez com vários novos parentes. Primeira vez com uma câmera de médio formato.

Foi com uma dessas que eu me deparei lá no fundo do armário – ainda aqui em Brasília. O dono dessa KIev 88 estava deixando ela acumular poeira a algum tempo e uma vez eu pedi ela para experimentar com o filme 120 – uma grande vontade minha.

Ela já era uma senhora de outros tempos – tempos mais simples, onde a guerra de patentes ainda estava só começando e a industria fotográfica da pátria mãe soviética se beneficiou largamente da sua “inspiração criativa”. E nos proporcionou uma série de soluções para que o proletariado pudesse também dar uns cliques por ai. Se Leicas, Rolleiflex, Contax eram símbolos do imperialismo, a industria soviética – as vezes com um pouco de engenharia reversa – nos ofereceria FED, Zorki, Zenith, Lubitel entre tantas outras.

Também já era uma dama cheia de peculiaridades. Sua vista não denunciava a idade – talvez somente pela ótima renderização da Volna-3, uma 80mm 2.8 muito sagaz – mas o pesado corpo já não era mais o mesmo. Apesar de bem grande, o visor era BEM escuro, obrigando você a usar a lupa em qualquer situação que não seja bem iluminada. O primeiro back tinha sérios problemas com o avanço do filme – minhas 6×6 estavam mais para 16×9 com sobreposição dos frames. Nunca foi a mais suave da sua espécie. O impacto do espelho é tão forte que dava para sentir as vibrações nas mãos a cada disparo – não importava a velocidade que usasse. Certa vez chegou a travar a mola que liberava o disparador – que só voltou a operar depois de muita “conversa e carinho”.

Foram muitas emoções naqueles dias. Os receios de uma câmera bem distinta de tudo que eu estava acostumado. A dificuldade de conseguir manuais e conviver com as bizarras manias dessa ‘Hasselbladski”. A insegurança com uma mídia nova.

Mas no fim, os seus (nossos) negativos não decepcionaram.

 

Fiquei muito feliz de ter conhecido o filme 120 com a Kiev. Foram momentos de descoberta que identificou em mim uma fascinação por um processo mais meticuloso de capturar o drama de cada dia. É uma câmera fascinante, mas não foi a escolha certa para ser a minha primeira médio formato. Nossa relação terminou, mas continuamos amigos. Ainda a vejo no fundo do mesmo armário, mas agora ela pode contar comigo para manter a poeira longe e, quem sabe um dia, sair para um passeio em companhia de um novo amor.

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comentários
 
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  • Celso
    25/11/2013 em 3:38 pm

    Bruno, tenho uma câmera igual a que você descreveu, uma russa Kiev 88 similar à Hasselblad. Só que ao contrário de você, ainda não consegui encontrar o ponto exato para tirar boas fotos com ela. No começo, achei que somente um fotômetro na mão bastava, mas estava enganado. Essas câmeras de médio formato tem as lentes maiores do que uma 35mm normal. Portanto, as regulagens não são as mesmas. Como calcular a combinação abertura/ velocidade ideais para essas câmeras?

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    • 25/11/2013 em 6:24 pm

      Celso,

      DE LONGE, o meu maior problema com a Kiev foi a baixa confiabilidade dela. De certa meneira, várias as câmeras russas criadas com “inspiração” nas marcas tradicionais sofrem desse problema. O dono dela já tinha levado ela para fazer uns ajustes com o obturador dela que estava desregulado (coisa de 1/3 a 2/3 de stop a mais do que devia) e me avisou disso, mas aparentemente o ajuste ficou bom pois eu não encontrei esse problema – acabei achando o problema com o avanço dos negativos que comentei no artigo.

      Durante o período em que esteve emprestada para mim, eu não encontrei (muitos) problemas usando qualquer fotômetro que eu tivesse usando (usei desde focômetros de DSLR até uns apps para iPhone). O principal mesmo foi escolher se eu queria algum erro mais “para baixo” do que “para cima” na exposição – os ajustes da Kiev não são tão precisos (1/3 de stop) como os das câmeras modernas.

      Se eu adorei usar ela como alternativa ao formato menor, a mecânica dela me deixou com receio de comprar ela para mim. Mas eu ainda tenho uns bons rolos de 120 na geladeira – esperando uma câmera que eu possa chamar de minha e voltar àqueles negativos lindos. Se você tem uma câmera que esteja em boas condições (quem sabe não tem alguém perto de você aqui: http://www.queimandofilme.com/links/onde-consertar/), procure um lugar que possa dar uma checada nela a fundo para que você possa ter experiências mais agradável. Posso dizer que, mesmo com todo o trabalho que dá, vale muito a pena!

      Um abraço!

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  • William
    03/06/2013 em 9:46 pm

    Lindo texto! Fotos muito belas porém o retrato da moça com os braços para trás me saltou aos olhos e é nada menos que sensacional!

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  • 29/05/2013 em 10:24 am

    Muito bem redigido, inspira uma conversa com nossas câmera tão queridas. É uma das felicidades de se fotografar com filme.. Máquinas robustas, nada de obsolescência programa, “quantos clicks” ou essa desvalorização do digital (e de todos os equipamentos modernos). Quanto mais antiga, em um paradoxo, melhor. Mais cuidado se têm, mais calma e prazer no uso. E a gratificação por bem tratar nossas meninas, são negativos cheios de vida e emoção!

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