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Marinando suas fotos e outros pensamentos sobre edição – Parte 1 de 2

por em 22/07/2013
 

Foto acima por André Corrêa

Vez ou outra a gente cita o Eric Kim aqui (e aqui, e aqui… dentre outros), e hoje é um desses dias. Mês passado esbarrei com um texto dele que, só pelo titulo, já sabia que teria que postar aqui no QF. Pensei em escrever eu mesmo sobre o tema, mas achei o texto do Kim tão legal, que resolvi traduzi-lo mesmo, na integra (sim, nós temos autorização dele pra isso ;-).

Leiam e depois digam nos comentários o que acharam. Eu mesmo vou deixar meus comentários nos comentários, pra não fazer bagunça no post. 

Como já fizemos outras vezes, vou dividir o post em dois (um pra hoje e outro pra amanhã), já que o texto é muito longo. Mas, se mesmo assim der preguiça, leiam só os primeiros parágrafos. Já vai fazer vocês pensarem… ;-)

Fala Eric!

Eu penso que um dos aspectos mais difíceis da fotografia é o processo de edição (escolher suas melhores imagens). Garry Winogrand uma vez disse:

“muitas vezes fotógrafos confundem emoção com o que realmente faz uma boa fotografia de rua.”

Winogrand era famoso por fotografar que nem um maluco (fotografando vários rolos por dia durante toda a sua vida), mas tinha a disciplina de nem sequer revelar suas fotos antes de se passar um ano desde que elas haviam sido feitas. Porque ele fazia isso? Pra que pudesse se esquecer de ter feito elas, pois assim ele poderia ser mais critico e objetivo quando fosse escolher as melhores imagens.

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Por Lomocouple

É sempre mais fácil julgar e criticar fotos de outras pessoas. Logo, um dos benefícios de se se esquecer das fotos que você fez é o de poder olhar suas fotos como se elas não fossem suas, mas de um estranho.

É fato comprovado que eu sou meu pior editor. Eu geralmente confundo emoções de quando eu tirei a foto com o achar que a foto é realmente boa.Por exemplo, existem certas fotos que faço e que os fotografados ficam nervosos e com raiva de mim (mas mesmo assim eu faço as fotos). Logo, quando vejo a foto, me lembro do momento com clareza, e de como foi difícil fazê-la.

Isso não significa que a foto é boa. Eu já fiz toneladas de fotos nas quais gritaram comigo, me ameaçaram, e equivocadamente achei que eram boas fotos. Simplesmente porque foram difíceis de fazer.

Eu acredito também que no geral fotógrafos não são os melhores editores. Richard Bram, da In-Public, me contou que no geral amigos seus que são curadores, pintores, escritores e músicos são melhores editores de fotografias.

Porque? Porque eles veem de uma perspectiva externa – e um ponto de vista mais holístico. Muitas vezes fotógrafos carecem do vocabulário visual que artistas, pintores e escultores têm. É por isso que Adam Marelli é tão conhecido por composição e design. Quando estava estudando, percebeu que sua graduação em escultura beneficiaria mais sua fotografia do que a graduação em fotografia em si.

Nos últimos tempos estive analisando em meus arquivos fotos que fiz nos últimos dois anos. Comecei a editar algumas das minhas séries e a sequencia-las em mini projetos, com a ajuda de alguns de meus amigos mais próximos. Vejam algumas das coisas que me chamaram a atenção no que diz respeito à edição:

1. Tempo é realmente o teste definitivo.

Eu geralmente digo que você deve “deixar suas fotos marinando” pra que possa realmente descobrir se existe realmente alguma coisa boa ali ou não. Ou seja, usando essa analogia culinária, você deve deixar a carne marinando em sucos e temperos (preferencialmente de um dia para o outro, ou por vários dias) pra que ela fique realmente saborosa. Você não pega um pedaço de carne congelada e tenta cozinhá-lo (acreditem em mim. eu tentei isso na faculdade e foi horrível).

Com fotografia é a mesma coisa. Porém você precisa gastar um pouco mais de tempo (pense em deixar o vinho envelhecendo).

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Por MarianaLeme

Logo, eu gostaria de bater aqui na tecla de que você nunca deve se desfazer de nenhuma de suas fotos. Com filme temos o benefício de não poder “deletar” um negativo (bom… você pode jogá-lo no lixo, mas isso não é tão conveniente e prático quando no digital). Mas mesmo no digital, com os custos de armazenamento caindo tanto, não há motivo para deletar imagens. Novamente, algumas das fotos que inicialmente achei ruins acabaram por ser boas fotos. Se você as descarta prematuramente, você não dá a elas a chance de marinar e revelar seu verdadeiro sabor.

Pessoalmente, eu acho que leva mais ou menos um ano (ou mais) pra que eu consiga decidir se uma foto minha é boa ou não. Eu até olho pros meus trabalhos anteriores e, apesar de na época eu ter achado determinadas fotos boas, acabo concluindo que elas são bem ruins. Várias vezes por ano eu volto ao meu Flickr e começo a eliminar da galeria minhas imagens mais fracas (o que faço é simplesmente marca-las como privadas, no caso de eu querer ter acesso a elas no futuro).

2. Menos é mais.

Uma das filosofias nas quais acredito é a de que “menos é mais”. Acredito também no “conhecimento subtrativo”. Nas duas filosofias a ideia básica é a de que a chave pro sucesso e pra felicidade não é somar coisas, mas sim subtrair coisas.

Eu sei que todos nós tiramos fotos. Elas são nossos bebês. Nós cuidamos delas, e queremos compartilhá-las com o mundo. Mas o que nós temos que perceber é que fotos não são crianças. Elas não estão vivas, e não têm sentimentos. Logo, nós temos que matar nossos bebês. Sim, eu sei que isso soa bem cruel. Mas é uma analogia que tem me acompanhado por bastante tempo. Sempre que vejo uma foto que é um “talvez” (não sei se ela é boa ou não), me pego dizendo pra mim mesmo pra “matar meus bebês”.

Eu vejo muitos portfólios, e sempre procuro novos talentos pra divulgar no meu blog. Um dos maiores erros que vejo fotógrafos cometendo é o de compartilhar coisas demais. Eles são bons fotógrafos e têm fotos realmente muito boas. Mas eles também compartilham suas imagens mais fracas. Se eles compartilhassem menos imagens (só compartilhassem as melhores) acho que seriam fotógrafos bem mais sólidos.

3. Sua pele em risco

Um dos meus filósofos favoritos é Nassin Taleb, que é controverso em suas ideias, mas claro e sem enrolações. Uma das ideias que ele defende é a “sua pele em risco”. A ideia é a de que sempre que sempre que as pessoas tiverem opiniões, elas devem ter a si mesmas envolvidas em um risco de alguma forma, de forma que suas opiniões possam machucar a eles mesmos. Por exemplo, um oficial que decide sobre uma guerra deve ter pelo menos um parente no serviço militar.

Por Buiu

Por Buiu

Aplicando isso à fotografia, eu penso que quando você fotografa com equipamento digital, “sua pele” não está “em risco”. Como assim? Quando você faz uma foto digital, isso não te custa nada. Não existe uma perda (é claro, isso ocupa um pouco de espaço no seu computador, mas isso hoje produz um custo irrisório).

Eu recentemente peguei uma Ricoh GRD V, e de repente me vi tirando fotos demais. Eu estava disparando sem parar, sem nem pensar antes de fazer as fotos. Isso acabou me gerando montes e montes de fotos ruins, o que tornou o trabalho de edição extremamente chato posteriormente.

O principal benefício de se fotografar com filme é também sua maior desvantagem. Custa dinheiro fazer uma foto. Logo, cada vez que vou fazer uma foto penso “essa foto vale à pena?” E isso me ajuda a ser mais critico com relação à foto que vou fazer. E isso ajuda imensamente no processo de edição, por que eu acabo fotografando menos com filme e, portanto, tenho menos fotos pra analisar. Com o digital eu posso facilmente fazer 500 fotos em um dia. Com filme costumo fazer 36. E, cá ente nós, eu prefiro muito mais editar lotes de 26 fotos do que de 500 imagens.

Mas observem que não estou dizendo que fotografia digital é pior do que a com filme. Estou dizendo apenas que a fotografia digital torna o trabalho de edição muito mais difícil.

 

Bom, por hoje é só. Mas já dá o que pensar, né? Amanhã continuamos com, inclusive, um video do Eric falando mais um pouco sobre isso, ok?

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