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Todd Gross: filme x digital, cores e a identidade secreta de Quarlo em Nova Iorque

por em 12/08/2013
 

Dia de entrevista no QF! Dessa vez, uma entrevista com Todd Gross, feita pelo Eric Kim e publicada, originalmente, em seu blog. Vale citar que o áudio do vídeo é em inglês, e abaixo está a transcrição traduzida para aqueles que não falam inglês. Na entrevista, Todd fala sobre preto e branco x cores, filme x digital, seu projeto Quarlo, etc. Enjoy it. ;}

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http://youtu.be/enbq6edQAU4 ]

Recentemente eu tive a chance de entrevistar Todd Gross, um dos meus street photographers a trabalhar com cores, quando estive em Nova Iorque. Nós sentamos no Jackson, comemos comida indiana e conversamos sobre street photography por cerca de 45 minutos. Veja a entrevista em vídeo (acima) ou ler a transcrição abaixo.

Eric: Nós estamos aqui no Jackson, no Queens, em Nova Iorque. Por que você não se apresenta?
Todd: Meu nome é Todd Gross e eu sou um fotógrafo do Queens.

Nos conte mais sobre sua fotografia e como você começou.
Eu comprei uma câmera – foi basicamente o que eu fiz. Eu tinha alguma grana pra gastar e sempre gostei de câmeras, então por que não comprar uma? Eu comprei e combinou comigo. Não tinha ideia do que estava fazendo no momento, então sei lá.

Quantos anos você tinha quando começou a fotografar?
20 e poucos anos.

Você tinha uma queda por artes?
Eu era um artista sem arte.

Pode elaborar isso?
Quando eu era criança eu gostava de desenhar cartoons no estilo Mad Magazine, mas eu não era bom naquilo. Então eu parei – me senti desmotivado. Eu estava sempre procurando por algo. Tentei guitarra, mas só conseguia tocar três acordes. Então eu sempre procurava por algo, e a câmera foi mais uma dessas coisas. Quer dizer, até a fotografia digital. Eu vi photoblogs – os primeiros.

Quais foram os primeiros photoblogs  que você viu?
O primeiro foi o “Lightning Field” do David Gallager. Eu fiquei espantado, do tipo “wow, você pode sair, tirar fotos e colocá-las na internet?”

Quando aconteceu isso?
No final de 2000. E eu pensei comigo mesmo: “que bacana, eu quero fazer isso.” Eu trabalhava fazendo coisas de internet, programando sites, então estava no meu caminho. Eu comprei uma câmera de US$100 da Apple.

A Apple vendia câmeras?
Era a minha referência na época. Eu fui no site da Apple, ela custava US$125 e tirava fotos com resolução de 640×480 pixels. Então eu fui lá e programei meu próprio blog – nada de CMS, banco de dados, nada. Tudo puro HTML. E foi isso – estava lá, criado e publicado. Após alguns meses eu tive uma resposta, e você sabe que está na internet quando recebe uma resposta positiva – é como crack, esquece isso. E eu  fiquei “oh, wow, as pessoas estão interessadas.” Eu não fui atrás delas e elas estão me escrevendo sobre as fotografias. Foi 4 ou 5 meses após eu publicar o blog. Eu estava em Las Vegas, checando meu e-mail – e haviam mensagens sobre minhas fotos. E eu pensando “wow, isso é bem legal.” Eu continuei e me aprofundei, e fui ficando mais obcecado por isso. A câmera já não era boa o suficiente, então eu peguei uma melhor, e digital não era bom o suficiente, então eu fui para o filme.

Então você começou com digital?
Sim – quer dizer, não. Eu comecei com filme, mas isso foi alguns anos antes disso – era filme preto e branco.

Todd em preto e branco?
Sim. Eu tirei uma foto de uma motocicleta da polícia, a qual eu era bastante orgulhoso – eu mesmo a imprimi. Foi o máximo que eu cheguei, todas as minhas impressões foram parar na gaveta. Elas não foram a lugar algum. Só em meados de 2000, 2001, que eu peguei a câmera digital e realmente mergulhei nisso.

Normalmente as pessoas começam no filme e migram pro digital – aparentemente você fez o inverso.
Eu acho que as pessoas fazem isso na maioria das vezes porque pensam em fotografia como fotografia digital, e então elas retornam no tempo e redescobrem o filme. Eu comecei com filme, e então eu voltei pra ele. A razão disso foi porque eu vi uma foto online: um cara tinha uma Lomo e tirou a foto de uma lixeira vermelha em Cingapura, e ele postou a respeito dela. Foi o Eric Alba – ele continua fazendo isso. Ele é um designer de efeitos visuais. Algo acerca do vermelho da lixeira me cativou e eu fiquei “wow, eu quero fazer isso”. Por isso eu comecei a me aprofundar em cores. Eu gostava do visual – e sempre quis uma Lomo. Ele tinha uma Lomo, então eu também comprei uma, a LCA, que é uma câmera de verdade. Sem brincadeiras. E isso fez eu recomeçar com filme, e tinha um laboratório chamado Spectra naquela época. Eles usavam o sistema da Fuji Frontier e as impresões era incríveis. Elas realmente saltavam aos olhos. Aliás, no começo eu fazia o seguinte: eu escaneava as impressões, num scanner de mesa. Em casa eu tenho pilhas de fotos 10x15cm, já que eu fiz isso por dois anos.

O que te atrai nas cores? Por que trabalhar em cores?
Já foi dito antes, mas o mundo é colorido. Essa é minha resposta instintiva. Eu gosto de cores, eu as vejo, eu as sinto. Eu comecei com preto e branco, mas não sei – algo ali nunca funcionou comigo. Você pode dizer que preto e branco é artificial – por que ver o mundo em preto e branco quando ele é colorido? Parece um filtro em si mesmo, o que é uma noção meio ridícula, já que existem fotografias fantásticas em preto e branco. Nós não vemos o mundo em preto e branco, e eu apenas gosto de cores.

Quais fotógrafos que trabalham com cores que te atraem? Eu sei que você gosta de Eggleston [nota do tradutor: tem dois artigos sobre o Eggleston publicados aqui no QF, curiosamente traduzidos dos posts do Eric Kim. Se você ainda não leu, é uma leitura mais que obrigatória! Go for it: aqui e aqui], Martin Parr e Saul Leiter. Por que as fotos deles são especiais para você e quais outros fotógrafos te inspiram?
É quase que a mesma pergunta. Eu acho que, inicialmente, eu fui cativado pelo saltar das cores… Digamos, Martin Parr. Quando eu vi o trabalho dele pela primeira vez, eu nunca tinha visto nada daquele jeito – o flash durante a luz do dia com as cores saltando aos olhos. Parecia real, mas outro mundo, e aquilo me cativou. A mesma coisa com Eggleston – você não consegue fugir nem se esquivar das cores. Não dá. E eu não sei, é difícil para eu explicar – é um instinto. Eu sou atraído por isso. É como explicar porque eu gosto de chocolate, porque é gostoso. Ou por que você toma cerveja? É apenas algo que eu gosto – eu sinto. É algo meio subconsciente, não é algo o qual eu pense a respeito. Eu escrevi em algum blog por ai que quando eu vejo um monte de cores eu corro na direção assim como uma mosca voa até um monte de merda, e eu quero dizer que, que é algo, nós andamos por ai e algo capta nossa atenção. Então uma das coisas pra mim, além de coisas incomuns na rua ou alguma interação é a cor. Eu posso estar andando na rua, olhar para  minha esquerda, ver alguma coisa grande de cor vermelha e azul [nota do tradutor: tipo o Optimus Prime] e ir lá ver o que é de perto.

Quando se trata de trabalhar em cores, eu percebo que você tem um bom senso de harmonia de cores. Por exemplo, existem pelos tons de vermelho contra azul, ou o laranja e marrom do vapor de um café. Você procura por combinações de cores quando está fotografando?
Eu não penso muito a respeito disso. Podem haver exemplos específicos – há alguns anos, quando havia uma parede rosa no Soho. Eu passava por lá um dia, vi o sol batendo com tudo e pensei que daria uma bela fotografia. Para mim, metade da fotografia é a luz. Você precisa de alguma ação ou conteúdo, mas quando eu vejo, já é metade da foto. Às vezes é algo que me atrai. Agora eu sei porque fotógrafos são entrevistados e dizem que tudo é por instinto e não conseguem explicar – é verdade. É apenas, sei lá porque razões nos atraímos por certas coisas. Você só é atraído.

Uma coisa que eu gosto nas suas fotos é que elas são um bom reflexo de quem você é como pessoa. Observando suas fotos e olhando para você agora, em pessoa, me faz crer que suas imagens são bastante autênticas – bastante instintivas. Muitas de suas fotos são simples, normais, despretensiosas  – com uma boa dose de humor. Mas algumas delas são mais sérias. Pode falar um pouco a respeito sobre como você acha que suas fotos refletem um pouco da sua personalidade?
Eu gosto de rir, disso eu tenho certeza. Todos me chamam de Mr. Jokey [nota do tradutor: seria algo como “Sr. Piada”].  É como eu sou recebido nesse mundo. Provavelmente é para quebrar o gelo ou tornar algumas situações suportáveis – eu gosto de fazer piadas, simplesmente flui normalmente. Eu expliquei antes, mas eu estava um pouco desapontado que tudo é um pouco “piada”. Então eu gostaria de mostrar meu outro lado – o lado “sombrio”, que eu considero um outro aspecto da minha personalidade. Eu posso ser um pouco distante, fora de contexto e aborrecedor. Eu costumava achar que esse era o lado que as pessoas viam nas fotos, ao ponto de achar que as pessoas não tinham certeza de que eu queria mostrar esse lado para elas. Havia situações em que eu pensava “ah, agora eles vão ver o homem por trás da cortina!”, mas nossas fotos revelam quem somos. E isso talvez fosse algo do qual que tinha vergonha de mostrar. Um amigo meu, Elliot, disse que o que eu faço é sombrio, e eu disse que talvez não fosse algo bom. Agora eu acho que meu trabalho é um pouco mais humoroso, cheio de vida. Eu meio que quero ir para o outro lado, mas não acho que seja algo capturável. As fotos simplesmente saem e dependem do seu estado de vida, e é isso que dita o que sai.

Quando falamos de seu processo de trabalho, você mencionou que veio do digital para o filme, mas atualmente você faz muitas fotos digitais. Você pode nos dizer as diferenças, prós e contras de ambos. O que você prefere, no final?
Como eu disse, qualquer imagem que me deixe orgulhoso é o que eu prefiro no final.  Mas, se fosse escolher, eu gostaria que fosse uma imagem de filme, porque o filme tem uma aparência melhor. O filme é a fotografia. Com o digital eu sinto como se estivesse trapaceando, não é real. Parece que os fabricantes de câmeras descobriram uma forma de lucrar todos os anos – claro que estou brincando a respeito disso, já que você pode fazer grandes imagens com qualquer câmera. Hoje eu fotografo mais com digital. Mesmo quando eu estou revendo e editando as fotos, e vejo uma que eu gosto, eu olho para ela e digo “bem, gostei, é ok.” Mas é simplesmente a forma como eu comecei na fotografia, em primeiro lugar. Eu comecei com filme, e adorava usar diferentes filmes e ver a diferença entre eles, puxar e empurrar e todo esse tipo de coisa. E o visual, a percepção que eu queria. Eu não tenho dinheiro agora para simplesmente fotografar apenas com filme, então isso me segura. Mas não me entenda mal, obviamente é possível fazer grandes imagens com a fotografia digital.

Para você é tudo a respeito de cores. Nos termos da estética entre a cor digital e a cor de filme, assumo que você faz uma pós produção na imagem. Como você vê a diferença entre elas? Você gostaria de descrever essas diferenças?
A diferença está nas cores, logo de cara. Eu não gosto de editar muito nas minhas imagens usando o Lightroom, não gosto de perder tempo. Talvez porque eu não tenha tanta habilidade para fazer minhas imagens digitais ficarem do jeito que eu quero. Talvez existam pessoas melhores nisso – fazer as cores parecerem melhores. Talvez eu não tenha o conhecimento ou a paciência para fazer isso. Com filme eu não tenho que me incomodar. Eu digitalizo meus filmes – se eu tenho uma boa exposição, estamos bem.

Quando você está digitalizando seus filmes, que scanner e quais configurações você usa?
Eu uso o Epson V700 ou o V750, não me recordo. As configurações? Eu alterno entre o Vuescan e o Silverfast, os resultados são diferentes. Aliás, eu sinto uma interpretação diferente dependendo do software que você usa. Eu acho que o Silverfast te dá uma imagem mais viva logo de cara. Com o Silverfast eu uso o preset de Kodak Portra e parece funcionar muito bem. Se eu estou com o Vuescan, eu ajusto as cores eu mesmo, porque os presets são ruins. Eu prefiro o Vuescan em geral, que me dá uma digitalização mais neutra.

Com quais filmes você fotografa hoje em dia?
Kodak Portra e Fuji Pro H.

Qual você prefere?
Eu gosto bastante do Portra mas eles são meio que o mesmo. Não é como antigamente que você poderia provar diferentes sabores toda semana. A Kodak tinha o Portra UC (Ultracolor) que era mais saturado. Eu usava muito ele – mas agora já era. Mas o Portra é muito bom.

Agora que você fotografa principalmente com digital, sua câmera está ali – a Nikon D7000. Com uma objetiva 24mm, que fica equivalente a 35mm. Quais são as diferenças entre fotografar na rua com digital e com filme?
Você não pode evitar sair de controle com a digital. Quando estou revendo as imagens, eu penso “por que eu fiz essa foto?” É uma espada de duas lâminas. Eu gosto da liberdade de fotografar o que eu bem entender sempre que quiser. Com filme, às vezes, eu hesito em fotografar (o que poderia ser uma boa fotografia). Mas quando eu volto a fotografar com filme, eu acho mais difícil porque eu hesito mais, porque eu sou tão atento aos meus frames que eu duvido de mim mesmo. “Tenho certeza, tenho certeza, tenho mesmo certeza?”  e a foto foi embora. Então com digital eu não sou tão focado em capturar tudo o que eu vejo pela frente. Eu não sei se posso adicionar algo novo ao que já foi dito. Eu me sinto como se tivesse lido ou visto entrevistas onde esse tópico veio à tona. As pessoas sabem os prós e os contras de cada método. Eu diria apenas que, se você só usa um deles e não tentou o outro, que o faça.

Quando as pessoas olham para suas fotos, o que você quer comunicar para o espectador?
Eu só quero que tenha um pedaço de mim no quadro. E quero ter uma foto de sucesso, e eu dentro dela.

Mostrando sua personalidade através de suas fotos?
Talvez eu seja bem sucedido nisso, mas é difícil. Eu acho que é uma forma de expressão. Eu não estou na rua para documentar, mas sempre tento capturar o que está, literalmente, na minha frente. É uma expressão.

Você pode nos falar a respeito do papel das mídias sociais no seu trabalho? Tumblr, Flickr – como as mídias sociais te ajudaram?
Onde mais eu colocaria as fotos? É uma espada de duas lâminas. É bacana saber que as pessoas vêem suas fotos, mas às vezes eu fico muito focado em favoritos ou quem está olhando para quem – e esse, definitivamente, não é o ponto. Isso faz com que você pare de olhar pro objetivo. Mas, ao mesmo tempo, isso te inspira e te encoraja – ver o que os outros fazem.Faz você querer sair e tentar mais. Eu tiro o chapéu para os fotógrafos de antigamente, que precisavam, literalmente, mostrar suas fotos impressas. Como as fotos eram melhores comparadas com as de hoje? Eles não tinham 30 ou 40 pessoas diferentes vendo o que eles faziam todo dia. Quem sabe, talvez após algumas semanas ou finais de semana aparecia um amigo – quem sabe, eles continuavam a fazer isso. Eu não faço ideia do que eles faziam.

Você mesmo disse que não tem tantos contatos fotográficos em Nova Iorque, pessoalmente.
Eu não tenho mesmo, mas isso porque sou eu, tem a ver com quem eu sou, não necessariamente com todos os outros. Talvez seja com Nova Iorque também [nota do tradutor: Nova Iorque possui uma das maiores comunidades de fotógrafos do mundo, inclusive analógicos. Tem mais a ver com quem a personalidade do Todd, de ter poucos amigos, do que com a cidade em si]. Talvez fosse diferente se a cidade fosse menor – menos pessoas fotografando. Você sabe que poderia encontrá-las com mais frequência. por aqui, esquece. Eu sei que existem 500 pessoas praticando street photography aqui no centro de Manhattan. Eu não os vejo, necessariamente, mas já vi o Gilden. Não direto, mas já o avistei na 5th avenue algumas vezes.

No mundo online, você segue o trabalho de quem?
Um dos meus favoritos é o Mark Powell, Locaburg no Flickr [nota do tradutor: não conhecia o tabalho do Mark Powell, e achei bem bacana. Segue o Flickr para quem quiser ver: http://www.flickr.com/photos/locaburg]. Ele é o meu favorito, provavelmente. Ele faz algo que ninguém mais faz – uma abordagem original. Não é bem retrato de rua, nem fotografia de rua – a personalidade dele é diretamente envolvida com o conteúdo que ele produz. Eu não sei como colocar o trabalho dele de outra forma.

Uma coisa que me chamou a atenção no seu trabalho é que ele é diferente do típico estilo “Cartier-Bresson”. Me lembra mais Eggleston, Stephen Shore, Martin Parr – talvez “still life street photography.” Algumas pessoas podem dizer “não é street photography se não tiver uma pessoa” ou isso ou aquilo. O que é street photography e o que significa para você?
Minha definição de street photography é qualquer coisa, qualquer lugar. Pode ser qualquer coisa. Eu já vi várias definições, mas acho que qualquer fotografia que faça você reagir espontaneamente ao ambiente, podendo ser algo estático ou pessoas se movendo. Como fotógrafo, eu acho que se há uma reação espontânea ao ambiente da foto, é uma fotografia de rua, mas cada um tem sua própria definição. Alguns dizem que não street photography se não for preto e branco,  ou se alguém não tem a casca de uma banana na cabeça. Sei lá – cada um tem sua própria definição. Eu não diria nem que eu tenho definida para mim mesmo, eu apenas saio e vou fotografar. Às vezes eu sou inspirado por alguma foto que eu tenha visto em particular, às vezes ela se cria do nada, não sei. Eu não a definiria. Não vamos definir o que é street photography, Eric.

Eu concordo totalmente com o que você diz. Então nos conte como é o seu processo de edição, como você sabe que sua foto está boa?
É torturoso pra caralho, eu arranco meu cabelo todas as vezes. Vamos falar de digital contra filme. Eu olho para minhas coisas digitais e me pergunto “o que estou fazendo?” Eu procuro por motivos para manter uma imagem – então eu fico meio ansioso. Eu não quero saber de editar. Foi por isso que há algumas semanas eu resolvi largar as fotos. Aí eu voltei, olhei para todas e fiz uma rápida seleção. Aí olhei para as fotos algumas vezes, decidi quais eu preferia – e é isso, “bora”. Eu não sou meu melhor editor (boa parte das pessoas também não são). Existem fotos que eu ignorei que provavelmente eram boas fotos, mas eu só sigo meu julgamento.

Como você julga suas fotos? Quando você sabe que estão boas?
Isso muda de tempos em tempos mas, bem – às vezes quando eu estou fotografando eu penso numa memória para guardar, mas aí eu revejo a foto depois eu percebo que a foto estava uma merda. Em algumas outras vezes, eu acho que não é uma foto muito boa – mas eu acho que existe algo nela quee as pessoas acabam vendo. Então eu não sei.

O quanto de uma foto você leva em consideração, em termos de forma contra conteúdo, contra cores, etc?
É tudo diferente. Muita coisa, recentemente, tem, muita coisa acontecendo na foto, como um gesto ou alguns pares de elementos juntos. Eu vou ter que ser sincero, mas eu acho que em 70% do tempo eu descubro se a foto que eu fiz é para ser guardada. E aí existem aquelas que você te chamam a atenção durante a edição. Então é diferente, mas eu acho que na maioria das fotos você acaba sabendo, pensando “O que você acha? Quando está fotografando, você tem uma boa ideia do que vai acontecer ou não?”

Para mim, eu tento fotografar o máximo em um projeto dentro da minha cabeça. Então se eu fotografo para o meu projeto “Suits” [nota do tradutor: algo como “Trajes” numa tradução livre] eu procuro por trajes, etc, mas aparentemente para você é o que te der na telha. Você anda e fotografa o que é interessante para você, talvez numa “linha de consciência fotográfica”. Como você amarra sua ideia de trabalhar com um projeto? Eu não acho que você trabalhe com projetos.
Isso é verdade. O projeto sou eu – o projeto é ‘Quarlo’.

Quem é ‘Quarlo’? O que significa?
Vem de um episódio de ‘The Outer Limits’ – a série original [nota do tradutor: aqui no Brasil essa série foi exibida como ‘A Quinta Dimensão’. Ela teve dois períodos de exibição nos EUA: a original, em 1963 – a qual Todd se refere – e em 1995, um remake]. Nós controlamos o vertigo, nós controlamos a horizontal – você é muito jovem? Era uma série do início dos anos 60, meio que uma cópia descarada de Twilight Zone [nota do tradutor: The Twilight Zone foi uma série lançada em 1959. Essa série foi exibida no Brasil como ‘Além da Imaginação’, e em Portugal com o nome de ‘A Quinta Dimensão’], com duas temporadas. Quando eu era criança – 10, 11 anos – as reprises rolavam, e era no canal 9, televisão local e sempre às 23 horas. Quarlo era de um episódio chamado ‘The Soldier’. Ele é um soldado do futuro, preso em 1962. Quando criança esse nome grudou na minha cabeça. Era estranho, obscuro, tem um Q nele. Então eu me lembrei do nome, e eu sempre o usei para várias coisas.

É seu alter ego?
É só um nome, que me lembra o jeito que o Duran Duran retirou seu nome do filme Barbarella [nota do tradutor: se você nunca assistiu esse filme, minha sugestão é… Faça isso. Tem tanta coisa errada junta num lugar só que torna o filme inteiro certo. Aqui tem o trailer, oh: http://www.youtube.com/watch?v=0Xo6FaypcpY ;}] . É aquele tipo de coisa, um nome que veio de algum outro lugar que chamou minha atenção. Eu gosto do Q, é tipo – o que é isso? Tem um pouco de mistério.

Então você diz que a missão é ‘Quarlo’ – mostrar quem você é.
Várias vezes me pego pensando que eu deveria ter um projeto, se quero ser mais sério.

Eu não acho que você deveria, apenas siga sua personalidade.
Eu acho que tenho ideias muito soltas, mas elas são baseadas em áreas da cidade – e pessoas da cidade. Não é bem um projeto.

Você fotografa muito aqui no Queens, já que é daqui. Você está há 10 minutos de Manhattan.
5 minutos de trem. Eu estou na periferia de Manhattan.

Eu olho para suas fotos do Queens e de Manhattan e encontra diferenças entre elas. Como elas são diferentes para você?
Quando eu vou à Manhattan, eu tenho muita consciência. É que lá tem muita gente fotografando – é lá onde os street photographers famosos fazem seus trabalhos. Então eu acho que devo mostrar mais o Queens, porque não é tão representado. E eu conheço ele tão bem, então eu tento fazê-lo. Mas devo admitir que existem coisas em Manhattan que eu sinto falta. Só que, no final, eu tenho um trabalho mais singular no Queens.

Um trabalho muito mais sossegado no Queens?
Comparado a que lugar? É maluco – tudo depende. Em Manhattan, você pode sair da mesmice e entrar numa área residencial para fotografar lá. Agora eu tenho que me forçar a ir mais longe, não ser preguiçoso, ir mais além.

O quanto você acha que deveria levar seu trabalho para o próximo nível?
Eu realmente não sei. Eu preciso saber? É uma questão e eu não sei como poderia fazer isso. O que seria mais ‘além’? Ser um cara com um livro ou algo do tipo? Vamos colocar dessa forma – eu fotografo sério há 7 anos aproximadamente, talvez? Não é muito tempo.

Mais que muitas pessoas.
Talvez, eu não sei. Eu acredito que estou aprendendo, eu não acho que cheguei ao ponto em que meu estilo está fixado no meu cérebro. Quando eu saio da linha – e sim, eu faço isso. Eu continuo pensando sobre o que eu faço ás vezes. Sobre o assunto, principalmente, mas eu não acho que tenho tudo decifrado. Talvez isso seja levar ao próximo nível, me sentir mais seguro na minha cabeça sobre o que eu faço. Quando você se questiona, é assim que você se força.

Quais outras inseguranças você tem sobre seu trabalho?
Que é uma merda? Haha… Mas é verdade. Eu fico chocado que as pessoas demonstram interesse. Eu sou muito mais crítico atualmente. Há alguns anos eu amava tudo o que eu fazia. Eu olhava as impressões e ficava “uau” – agora eu sou muito crítico. De certa forma, é um pouco mais de trabalho.

Mas não é um sinal de que você está melhorando como fotógrafo? Olhar para suas próprias fotos e dizer que elas estão uma ‘merda’.
Eu posso criticar até um saco de papel. Eu sou o tipo de pessoa que foca no criticismo. Eu poderia encontrar o que está errado nesse vidro pintado. Eu vejo falhas. Quando eu olho para as fotos, mesmo quando é uma que eu fiquei feliz a respeito – eu vejo falhas. O que eu poderia ter feito melhor, ou como eu poderia mostrar melhor o que eu visualizei.

Para as pessoas que fotografam mais em preto e branco, mas interessadas em fotografar em cores – e pessoas que estejam interessadas em fotografar com filme, qual conselho você daria a eles?
Apenas faça. Eu não sei se teria muitos conselhos se eu fosse aconselhar – a não ser ‘aqui tem uma câmera, filme, vamos lá’. Depende da pessoa.

Alguma câmera de filme que você recomendaria?
Eu fotografei por muitos anos com uma Nikon N80 [nota do tradutor: N80 apenas nos EUA. Na Ásia e na Europa ela foi lançada como F80], uma SLR com autofoco de plástico. Ela está baratinha hoje em dia. Se você tem objetivas da Nikon, dá pra comprar essa câmera por menos de US$100. É full frame, é uma grande câmera. O autofoco é meio fraco se comparado com as câmeras atuais, mas funciona. Leve, barata, uma boa maneira de começar com filme. Mas qualquer câmera funciona. Essa aqui, por exemplo (mostra a Olympus XA).

Nos fale sobre a Olympus XA.
É uma rangefinder miniatura, com prioridade de abertura. Uma bela objetiva 35mm. É fantástica e cabe no bolso. Eu a comprei há alguns anos, mas só comecei a usá-la na última primavera – depois de carregar essa DSLR por um ano e meio. Eu fiquei pensando ‘uau’ – eu realmente gostei de andar com uma câmera bem menor por aí. Especialmente na vizinhança dos meus sogros, um subúrbio na Filadélfia. Você não quer ver um cara com uma SLR tirando foto da sua fachada. Se bem que, pensando agora, teve vezes em que eu estava com a XA e recebi olhares estranhos – é como se fosse alguma coisa meio na surdina. Então todo mundo precisa descobrir suas necessidades, seja lá o que funcionar.

Última questão: gostaria de dizer alguma coisa? Alguma coisa que você gostaria de mencionar?
Eliot, eu acho que você deveria pegar uma câmera e começar a fotografar.

Alguma coisa que as pessoas devem esperar de Quarlo?
Não, apenas acompanhem meu Flickr, Tumblr ou meu site.

Obrigado pelo seu tempo, Todd. Paz.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Todd Gross: Site | Flickr | Tumblr





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