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Já viu o álbum do casamento da sua vó? Pode ser bem interessante…

por em 13/09/2013
 

Minha vó é daquelas que guarda tudo: de embalagem que ela acha bonitinha e que pode ser útil depois à lembrancinhas de missa de 7º dia. De fitas K7 das minhas primeiras palavras à muitas versões de 3×4 dos netos em cada fase da vida.

Tudo que tem foto ela guarda com um carinho especial. A caixa de fotos dela é uma lata beeem antiga de bolacha, enferrujada até. Um dia eu me dei conta que as fotos estão todas soltas, não tem um álbum, nenhumzinho pra contar história. Achei curioso e quis saber porque. Ela me disse que não se usava fazer muitas fotografias de um evento, que era caro, os equipamentos eram grandes e não dava pro fotógrafo sair do “estúdio” dele. “– Pra você ver, até no casamento a gente tinha que passar no foto antes de ir pra festa, senão não tinha foto não”, ela contou.

Procurei saber e me deparei com um costume muitíssimo diferente dos que temos hoje. Na década de 50 não se faziam álbuns de casamento. Os noivos iam até o “Foto” bem rapidinho entre a cerimônia e a festa e faziam uma única foto (pasmem!). Quem era rico mandava revelar muitas cópias e distribuia a todos os convidados, elas vinham em uma embalagem especial com um papel de seda rendado. As famílias mais modestas imprimiam apenas para os pais e padrinhos. O barato era colecionar fotos dos casamentos das comadres todas.

A do casamento deles é essa aqui embaixo. Dá pra ver a data escrita à mão pelo meu avô.

dona margarida

Outro detalhe é que meu avô não gostou das orelhas de abano dele e queria desistir da foto. Tinha cortado os cabelos no dia do casamento e elas ganharam destaque. O dono do foto se sensibilizou e pediu pra que ele voltasse quando o cabelo estivesse maior para refazer a parte dele, visto que era inadimissível refazer a foto inteira – seria fake se minha avó se vestisse novamente,  se não fossa a foto do dia da cerimônia, entendem? Já a orelha de abano era um problema ocasional que precisava ser corrigido: ele nunca deixava o cabelo tão curto, as pessoas estranhariam. Ah, esses problemas éticos da fotografia, tão em voga desde sempre ;)

A solução foi posicioná-lo no mesmíssimo lugar da primeira foto, fazer uma segunda fotografia e usar a cabeça da segunda na primeira. Todos ficaram felizes: A foto era do dia do casamento e meu vô estava sem (com um pouco menos, vai ) de orelhas de abano.

Eu nunca soube quem fez essa montagem, mas o cara desse “Foto Paraná” foi ninja. Alguém aí consegue ver indícios desse transplante de cabeças? Essa foi uma descoberta que mudou definitivamente minha relação com a fotografia, foi a primeira vez que percebi que a foto é, como diz o Kossoy*,  um duplo testemunho: daquilo que ela nos apresenta sobre o que foi fotografado e do que mostra sobre quem a fez.

*Boris Kossoy – Fotógrafo e teórico da fotografia. Esse pensamento ele aborda especialmente em seu livro Fotografia e História (http://www.boriskossoy.com/)

 

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comentários
 
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  • Lanna
    14/09/2013 em 12:40 pm

    Essa edição analógica foi muito profissa :o

    E é verdade, minha vó também só tinha duas fotos do casamento dela! E hoje em dia tem gente que recebe 2000 fotos do fotógrafo e está achando pouco =/

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    • 14/09/2013 em 9:25 pm

      Oi Lana, tudo bem? Se você olhar bem tem umas manchas esquisitas mais escuras no terno dele e mais claras no fundo :)

      Sobre as fotos dos casamentos atuais, sabe que foi difícil encontrar alguém pra fotografar o meu? a maioria me parecia mais ansiosa e com maiores expectativas que as minhas, rs. No fim das contas chamei um laboratorista PB chamado Celio Costa. Foi quem me ensinou a revelar filmes pbs e ficaram lindas!
      um beijo!

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  • Daniela
    13/09/2013 em 5:51 pm

    Lila, muito interessante se relato, porque agora há pouco falei com uma prima de Portugal…sobre uma tia que faleceu esta quarta-feira, e na casa de quem, aos 28 anos de idade,vi as primeiras fotos do casamento dos meus pais…Pois minha mãe, muito geniosa, tinha jogado tudo fora! Pois bem, esse testemunho foi precioso para mim, e outro costume q se usa muito no interior é as mulheres te mostrarem o álbum, na primeira visita! Valeu!

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    • 14/09/2013 em 9:22 pm

      Oi Daniela, tudo bem? Que bacana que gostou! Eu fiquei muito surpresa com essa declaração da minha avó e depois que publicamos esse post um monte de gente da minha família, tios e primos entraram em contato dizendo que também não sabiam, rs.

      um beijo!

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