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Entrevista: Lars Fielder e o futuro dos filmes Kodak

por em 14/11/2013
 

Outro dia alguém me perguntou como estavam os filmes Kodak, com o fim da concordata da Kodak, e o nascimento da Kodak Alaris (aqui). Eu falei na hora o que tinha aprendido numa entrevista que o site http://www.filmsnotdead.com. Depois, pensando, achei que seria legal traduzir e compartilhar com vocês essa entrevista, que mostra de maneira clara pra onde a (nova) Kodak está indo.

Lars Fielder, o entrevistado.

Lars Fielder, o entrevistado.

A entrevista foi feita com Lars Fielder, que é Diretor de Marketing de Produtos para Europa, África e Oriente Médio da Kodak Alaris. Nela, ele fala sobre Kodachrome, retorno de antigos filmes, fabricação e distribuição de filmes, e planos de longo prazo da empresa.

Se você se interessa pelo futuro do analógico, é uma boa leitura ;-)

FND: Você fotografa com filme?

LF: É claro!

FND: com que frequência?

 LF: Sempre que saio de férias levo minha velha Canon T9 e a Lomo Spinner comigo. Carregadas com filmes Kodak, é claro!

FND: O que te faz fotografar com filme?

LF: Eu gosto da emoção associada a cada disparo. Pra mim o digital tende a te fazer disparar como um louco, e você dispara simplesmente por disparar. COm filme você vai lá, abre bem os olhos, tem uma abordagem diferente. Por exemplo, se você tenha 10 rolos de filme com você, isso te limita na hora de encontrar uma ótima imagem. Existe ainda uma certa incerteza, que muita gente tenta evitar, mas que ao mesmo tempo está ligada à expectativa de ver a imagem pronta. Existe mais emoção. 

Aqui cortei alguns trechos “nada a ver”. O Lars volta abaixo falando sobre como a Kodak Alaris está bem pra começar essa vida nova:

LF:  (…) Todas as unidades de negócio da nova companhia são bastante lucrativas e na forma da Kodak Alaris, nós não temos dívidas ou obrigações, e não estamos em concordata. Muito pelo contrário: somos apoiados pelo novo dono, o Fundo de Pensão Kodak (Kodak Pension Plan, ou KPP), que realmente acredita nos produtos, e que vê um futuro positivo e de crescimento, e que além disso está preparado pra investir na empresa. Portanto, estamos bastante empolgados, porque estamos praticamente começando do zero. A unidade de negócios de Imagens Personalizadas é formada por quatro pequenos negócios. Enquanto esses quatro eram apenas alguns das dezenas e dezenas de negócios da Eastman Kodak, todos os nossos clientes, que incluem fotógrafos profissionais, revendedores e laboratórios, podem esperar de nós um foco muito preciso. Seja alguém que adora fotografar com filme, esteja procurando tirar o máximo de qualidade de uma impressão, ou simplesmente fotografe por diversão com uma compacta digital, nós estaremos dedicados a entregar os produtos que melhor atendam a essas necessidades.

[Nota do Tradutor: “Imagens Personalizadas é uma tradução livre para “Personalized Imaging”]

ekc130FND: Um belo futuro pela frente! Então o Plano de Pensão Kodak atende a ex-funcionários da Kodak do Reino Unido. Ou seja, a Kodak Alaris pertence agora ao pessoal que trabalhou na Kodak pelos últimos 20 ou 30 anos?

LF: O Plano de Pensão Kodak do Reino Unido é um fundo criado para pagar pensão e benefícios para funcionários atuais e ex-funcionários da Kodak do Reino Unido que fizessem parte do Plano. Apesar do Plano usar o nome Kodak, ele sempre foi e continuará sendo completamente independente da Eastman Kodak Company.  

FND: Então é do interesse de todos os envolvidos que o futuro seja bom para a empresa…

LF: Eles são, provavelmente, os melhores investidores possíveis e imagináveis, já que entendem do negócio melhor do que qualquer um. Outra coisa boa é que, como eles são um fundo de pensão, eles estão pensando décadas à frente, e não em anos. Eles estão seguindo uma estratégia de longo prazo. Eles estão preparados pára investir porque eles sabem que investimentos são necessários para garantir o sucesso no futuro. Com todos esses smartphones, tablets, e esse mundo super conectado no qual estamos hoje, existem muitas oportunidades lá fora para produtos inovadores que suportem fotografia e impressão. Por outro lado, filmes são definitivamente uma peça-chave da estratégia da Kodak Alaris de seguir em frente. Porém, acho justo dizer que é um mercado já amadurecido. Ele ainda está diminuindo, ao invés de crescer. Mas temos claros sinais de que jovens fotógrafos estão descobrindo o filme, e de que o velho é o novo para eles, o que é maravilhoso. Porém, ainda é um mercado já amadurecido.

FND: É muito bom saber que continuaremos vendo as caixinhas amarelas por aí, ainda mais quando a alguns meses atrás se dizoa o contrário.

5352838367_24848d05c8_zLF: Poder usar a marca Kodak não apenas no nome da empresa, mas também em todos os produtos, da mesma forma que as pessoas já estão acostumadas a ver hoje em dia é algo chave para nós. E é provavelmente mais importante ainda para os seus leitores saber que não existe nenhum plano pra mudança do portfólio.

FND: Ou seja, em termos de filme, o que temos é o que temos, e é garantido que os teremos por um bom tempo ainda?

LF: Seria pura especulação dizer “Eu posso garantir que é isso”. Estamos vendo o crescimento na fotografia em geral, guiado pelos smartphones, com bilhões de imagens surgindo a cada segundo, e isso abre oportunidades e necessidades. Estamos olhando bem lá pra frente pra lançarmos produtos que atendam a esse público. Ao mesmo tempo, estamos observando de perto o mercado e pra onde a demanda por filme está indo. Falando claramente, eu não vejo qualquer razão pra descontinuarmos filmes completamente neste ou no próximo ano. Com certeza não vejo isso. Enquanto houver uma boa e contínua demanda por nossos filmes, não vemos nenhum motivo para mudar ou cortar nada.

FND: Nos manteremos a demanda… pode ter certeza!

LF: Isso é o que temos que continuar fazendo. Eu não estou dizendo que vou ficar aqui sentado dizendo que depende só dos fotógrafos. O que nós queremos com certeza é continuar disponibilizando esses produtos de primeira classe, como o premiadíssimo PORTRA ou o clássico TRI-X. Mas também queremos tornar mais fácil para todos os amantes de filmes encontrar nossos produtos, e onde revela-los. Até porque isso é outra parte importante da coisa. É importante continuarem existindo bons lugares pra revelar e imprimir as fotos.

FND: Olhando para a demanda de filmes como um todo, vocês observaram algum aumento na curva de demanda nos últimos anos?

LF: É difícil dizer pra onde o mercado como um todo está indo. Até alguns anos atrás nós tínhamos dados razoavelmente detalhados do mercado. Isso meio que sumiu com uma série de gente saindo do mercado e, com ele diminuindo e outros mercados crescendo, o foco deixou de estar nesse tipo de análise. Eu diria que a demanda em geral continua em queda, porém a queda vem reduzindo nos últimos anos. Porém, podemos dizer que estamos de fato vendo pequenos altos em algumas subcategorias. Não em todo o mercado. Mas existem altos e baixos, especialmente no mercado de filmes preto e branco.

Quando lançamos o EKTAR a alguns anos atrás, estávamos vendo uma demanda realmente alta por negativos coloridos. Já os filmes cromo estão realmente em queda livre, mas os negativos coloridos estão de certo modo ganhando força. As pessoas que costuimavam fotografar com filmes slide decidiram mudar pra negativos coloridos. Isso simplesmente porque a dez anos atrás filmes cromo eram imbatíveis no que dizia respeito a digitalizações. Mas hoje em dia não existem problemas em se conseguir excelentes scans de um EKTAR ou um PORTRA. Ocorreram algumas evoluções realmente significativas nesse sentido, e foi aí que focamos nossos esforços nos últimos anos. Se voltarmos algumas Photokinas atrás, na época do lançamento do melhorado T-MAX 400, veremos que lançamos versões melhoradas do PORTRA 160, 400, e tinhamos também o EKTAR 100. Todos melhorados pra produzirem digitalizações perfeitas.

35d5bd0afdf486e9134b0919acfb7da8bacb39FND: Quando o PORTRA foi relançado, as camadas de base foram otimizadas pra digitalizações. O objetivo final é a digitalização. É isso mesmo?

LF: Nem tanto. Estamos apenas respeitando algo que acontece bastante. Nós vemos como até mesmo alguns fotógrafos profissionais, apesar de terem migrado para o digital, nos perguntam em feiras e eventos sobre nossos filmes. E temos muita gente mais jovem perguntando sobre os filmes que temos. Os profissionais nos dizem que fotografaram apenas com digital nos últimos anos mas que agora querem voltar a fotografar com filme. Para algumas camadas do público o negativo realmente vaia acabar sendo digitalizado. Mas de forma alguma estamos abandonando as ampliações. Pelo contrário. (…).

FND: Uma brincadeira que fazemos é sobre ganhar na loteria e começar a fabricar Kodachromes de novo. Quando o KPP passou a controlar a Kodak Alaris, os direitos e patentes de todos os filmes passaram pra vocês?

LF: É uma boa pergunta. Até onde eu sei, temos todas as marcas registradas atuais e todas as submarcas, como Kodak Express, PORTRA, T-MAX, TRI-X. O necessário pra garantir que possamos, com exclusividade, produzir e vender esses produtos continuamente.

FND: A Kodak Alaris vai absorver todo o estoque de filmes produzido nos Estados Unidos?

LF: Sim, nós estaremos apoiando essa fábrica em um acordo de exclusividade. Um dos motivos pra isso é que, nessa fábrica, além dos filmes fotográficos, a Eastman Kodak continua produção de filmes pra cinema, o que é uma grande parte da produção. Portanto, faz sentido que a produção dos filmes continue com a Eastman Kodak.

Por outro lado, toda a parte de fabricação de papéis fotográficos está com a Kodak Alaris e, portanto, mudamos tudo pra uma estrutura aqui em Harrow, e temos outras estruturas no Brasil, China, Russia e Índia.

FND: Você falou praticamente de todos os continentes. Isso mostra o quanto essa operação é grande…

LF: Somos menores do que a Eastman Kodak, mas estamos bem ativos em todo o mundo.

FND: Podemos ter um retorno dos cromos Kodak, talvez na forma de uma versão cromo do EKTAR 100 ou em produções pequenas de Kodachrome 64 com relevação exclusivamente pela Dwaine Photo e Orms Direct?

[Nota do Tradutor: essas duas empresas foram as últimas a parar de revelar filmes Kodachrome, pouco antes da sua extinção. O Kodachrome possuía um processo próprio de revelação, diferente do tradicional E-6, e bem mais caro e complicado. ]

kodak--KODACHROME-med2LF: Eu estava esperando essa pergunta e vou ser bem sincero: Nós queremos continuar com o portfólio atual. Nós continuamos monitorando para onde os mercados estão indo, como já falamos. Enquanto os filmes preto e branco e negativos coloridos continuam lutando, os filmes cromos caíram muito. Filme reversível colorido se tornou um mercado de nicho bastante pequeno, apesar de não termos dúvida de que ele sempre vão existir fãs do Kodachrome, aos quais agradecemos muito por terem usado esse filme por todos os 75 anos de sua existência. Porém, o processo de revelação era bastante complicado e lento, e tinhamos que usar muita química, em comparação com outros processos.

A boa notícia, e mensagem mais forte que queremos deixar aqui é a Kodak Alaris pretende manter o mesmo portfólio continuamente. E devem haver alguns fotógrafos de filme que não devem nem saber de todos os formatos que temos, como as enormes folhas de filme de papel e que estão disponíveis por encomenda.

FND: Bom. Então não faz sentido alimentar rumores sobre o retorno de antigas emulsões?

LF: Como eu já havia dito, podemos olhar com carinho pra diferentes formatos de filmes existentes. Mas falar sobre antigos tipos de filmes/emulsões é bastante complicado pra ser sincero. Nós entendemos que temos hoje uma variedade muito boa, e temos a intenção de permitir que todos tenham acessos a esses produtos.(…).

FND: Bom, tenho certeza de que todos estão felizes. E vamos torcer pra grama continuar verde. Com o Kodachrome eu sei que ela fica! Disso eu tenho certeza.

LF: Essa eu vou rebater! Você sabe que a famosa foto de Steve McCurry da menina afegã foi feita com Kodachrome. Mas quando ele voltou lá muitos anos depois pra fazer outra foto dela, fez usando o filme E100G (Ektachrome). E eu amo a segunda foto, talvez mais do que a primeira. Não existem dúvidas de que o Kodachrome era um filme fantástico. Mas o que eu quero dizer aqui é que existem muitos filmes bons no nosso portfólio atual. Convidamos as pessoas a experimentarem.

 

Quem quiser conhecer mais sobre o Lars, recomendo fortemente o blog da Kodak Alaris  http://1000words.kodak.com onde ele e outras pessoas escrevem sobre fotografia (em muitos casos de filme).

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