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Opinião: Pioneiros somos nozes

por em 16/11/2013
 

Ao contrário do que você provavelmente está pensando, não vou focar esse texto na antiga geração de químicos, físicos e outros loucos que inventaram a fotografia. Mas sim, em nós, jovens vanguardistas, que trouxemos a fotografia analógica a tona novamente.

Ontem escutei o podcast do André Corrêa para o Papo de Fotógrafo e fiquei intrigado com algumas coisas que ele disse sobre os entusiastas que estão novamente curtindo a fotografia analógica. Bom, primeiramente concordo com grande parte do que foi dito no podcast e recomendo que você o escute, vale a pena. Adiciono apenas algumas reflexões que matutei na minha cabeça.

Para mim, o sentimento de vanguardismo é uma das maiores motivações para fotografar com filme. Sim, é estranho falar de vanguardismo em um assunto que já foi desenvolvido e aperfeiçoado durante mais de um século. Mas, de qualquer forma é inquestionável que nos dias atuais, se você é adepto a esse hobby/profissão você é automaticamente um pioneiro.

É simples: mesmo encontrando vários loucos como nós neste site, se pararmos para pensar na quantidade de pessoas que continuam queimando filme chegaremos a conclusão que somos uma espécie rara… minoria esmagadora dos fotógrafos. Por esse motivo, temos que correr atras de equipamentos, filmes, laboratórios, químicas e informação… todos nós sabemos que não é fácil encontrar nenhuma destas coisas, mas mesmo assim vamos looonge para consegui-las.

Assim como os antigos pioneiros, apesar de trocarmos informações com outros entusiastas, na hora H é você e sua câmera. Uma dupla dinâmica de experimentações.

Gambiarra, Kodak Retinette f convertida para Pinhole (puristas não me matem, a câmera estava péssima e todas as peças estão guardadas...)

Gambiarra, Kodak Retinette f convertida para Pinhole (puristas não me matem, a câmera estava péssima e todas as peças estão guardadas…)

E, principalmente quando se trata de experimentalismo, o resultado nem sempre é positivo – quem nunca perdeu um filme inteiro? Isso é a alma da lomografia, eles nos incentivam a brincar com filtros, com validades, com processos novos e a passar Coca Cola, azeite e outras substancias estranhas nas nossas fotos.

Entusiastas de câmeras antigas são obrigados a lidar com máquinas em péssimo estado, e, depois de um tempo, vejo alguns virando até “engenheiros” com suas lindas gambiarras.

Talvez isso seja uma reação ao mundo moderno, onde tudo está sempre pronto para ser usado e não existe mais espaço para desenvolver nossa criatividade ou artimanhas. Talvez nós, seres humanos, sintamos falta disso? De qualquer forma vejo a fotografia analógica como uma boa saída para escapar das coisas fáceis e instantâneas da vida, assim como aprender a tocar um instrumento musical ou aprender a falar alemão =)

Mas longe de mim ser filosófico nesse momento! Então vamos voltar ao assunto.

Nunca vou esquecer quando fui tirar uma foto com uma Zeiss Ikonta de fole no metrô. As pessoas que passavam me olhavam como se eu estivesse (ainda mais) maluco usando aquela coisa esquisita! Assim como os velhos pioneiros somos vistos como doidos pelo resto das pessoas.

Olha a cara deste fotógrafo: “Humm, não tente me entender”

Olha a cara deste fotógrafo: “Humm, não tente me entender”

Mas esse não é o problema. Assim como aqueles velhacos do começo do século, nós curtimos ser os esquisitões do mundo da fotografia. E não é a toa, nossas cameras além de mais legais, são mais estilosas que as DSLR’s que os “fotógrafos nomais” costumam portar (a inveja foi tão grande que veja a cara da nova Nikon DF).

Bom…esse sim é o grande problema, nos sentimos tão bons por usar cameras “de verdade”, por fazer exposições no olho, foco manual, revelação (e todas as outras coisas legais que fazemos) que no fim acabamos ficando um pouco… hum… digamos… metidos (para não dizer insuportaveis!). A comunidade da fotografia analógica é em geral simpática e receptiva mas infelizmente ainda existe um pouco de preconceito com os novatos, exercido não apenas pelos entendidos, mas também pelos “menos novatos”.

Eu sei que é difícil (afinal, fotografia é arte e artistas geralmente não são os seres mais humildes do mundo) mas, talvez se deixarmos o orgulho de lado de lado teremos um mundo com mais pioneiros, gambiarras e experimentações.

 

P.S: Pra quem não entendeu a referência do título, clique aqui.

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comentários
 
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  • Luciana
    19/11/2013 em 7:16 pm

    Adorei o texto, muito bom. Bacana essa coisa de ir além, de experimentar, de construir e desconstruir máquinas e fotografias… O melhor mesmo é “‘escapar das coisas fáceis e instantâneas da vida”, independentemente se se é esquisito, doido, normal ou legal, o importante é a expressão, que nos difere. Fazer diferente, olhar diferente, tão diferente quanto a referência do título. Não deixem de ler e ver, pois é Imperdível, muito engraçado e divertido. Adorei a composição…muito inesperada e… diferente.

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  • Lanna
    17/11/2013 em 8:54 pm

    Ótimo texto. Mas eu ainda acho que comparando com a maioria da comunidade fotográfica (digital) a galera dos filmes e experimentalismo é até bem mais aberta.
    Todos nós estamos fazendo arte, criando (ou destruindo, hahahaha)… sinto que os fotógrafos convencionais principalmente que fazem disso seu trabalho, acham que qualquer novato é um concorrente em potencial =(

    Na real, acho a galera da fotografia analógica muito legal! :)

    Responder

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