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Asma, paixão pela fotografia, e a melhor câmera do mundo

por em 16/12/2013
 

Filmes de 35mm, 36 poses, formato do sensor de uma câmera digital full-frame, o foto jornalismo em cima da ação. O que tudo isso tem em comum?

Vou contar a história de um cara que realmente gostava de fotografia. Não, ele não gostava de criar ensaios ou fotos elaboradas, nunca emplacou nenhuma foto famosa, aparentemente ele apenas gostava de registrar seus piqueniques em família e tirar fotos das suas viagens, simples assim.

Por volta de 1900 e sei lá quando veio a grande ideia, como ele mesmo disse numa entrevista: “Na época, eu tirava imensas fotos com a minha câmera com placas 13×18, com 6 cassetes duplas e estojo de couro enorme que se assemelhava a uma mala de amostras. Era muita bagagem para transportar quando viajava e ia passear aos domingos pela Floresta da Turíngia. Foi enquanto arqueava ao subir a montanha (para melhorar a situação, também sofria de asma) que me surgiu a ideia: não haveria outra maneira de fazer isto?”

Ele tentou dividir as placas fotográficas 13×18 (grande formato) em pequenos campos individuais usando uma lente de foco curto, alinhando entre 15 e 20 frames na mesma coluna através de um aparelho especial (pense nisso como uma Olympus Pen pré-histórica, que ao invés de dividir a foto em duas, dividia uma grande formato em 20 fotos). O resultado foi um fracasso completo, as imagens ampliadas ficavam péssimas devido ao granulado grosseiro das placas fotográficas.

Essa foto é muito diferente das suas?

Mas a ideia de usar um negativo pequeno para produzir uma imagem grande não saiu da cabeça dele. Afinal imagina carregar uma câmera grande formato morro acima com asma, não era fácil.

Em 1911, ele começou a trabalhar na Optische Werke Ernst Leitz em Wetzlar, na Alemanha. Uma fábrica de microscópios, lentes e binóculos que estava começando a desenvolver equipamentos de gravação cinematográfica. Em 1912 esse fotógrafo amador, construiu seu primeiro aparelho de gravação de cinema com filme 35mm, e… uma câmera fotográfica bem pequena, para testar as películas de cinema e lentes (ou mais provavelmente para testar sua ideia de usar um negativo pequeno para fotografia, e não ter mais que carregar sua câmera pesada morro acima).

Ele não foi o primeiro a ter a ideia de usar um filme negativo de cinema de 35mm (na época disponível em rolos bem grandes) para tirar fotos, mas ele teve a ideia genial de usa-lo na horizontal para produzir imagens maiores, e por estar na horizontal ele poderia simplesmente dobrar o tamanho de um frame de cinema 24x18mm para 24x36mm, a mesma proporção 2:3 usada até hoje nos sensores das câmeras full-frame digitais.

Mas quantas fotos essa nova câmera tiraria? Mais ou menos 36 fotos 24x36mm, isso não era nenhum número cabalístico, era simplesmente o que cabia de fotos quando esse fotógrafo amador pegava um pedaço de filme cinematográfico 35mm para carregar na sua nova invenção e abria os braços (jeito bem fácil de medir num quarto escuro, também devia facilitar na hora de revelar porque com certeza ele não tinha os tanques com espiral que temos hoje).

Ele também pediu para seu colega de empresa Max Berek desenvolver uma lente pequena para usar nessa nova câmera. Berek fez uma lente 50mm f/3.5, retrátil, ela entrava para dentro da câmera quando não estava em uso e deixava essa câmera bem pequena. Dava para carregar no bolso.

Ótimo, agora dava para levar uma câmera pequena e leve, mas que produzia fotos de qualidade no bolso e tirar 36 fotos antes de procurar o quarto escuro mais próximo.

Ótima camera para viagems.

Ótima camera para viagens.

O primeiro protótipo estava pronto por volta de 1914 e o filho do dono da empresa, Ernest Leitz II resolveu levar essa câmera nova numa viagem para Nova York, e voltou com todas as 36 fotos de sua viagem em uma pequena câmera. Ele viu que essa ideia poderia dar certo…

…mas então começou a primeira guerra mundial e essa ideia literalmente virou peso de papel, menos pro seu inventor, o fotógrafo amador que provavelmente preferia carregar sua câmera pequena morro acima.

Apenas em 1925 Leitz , agora presidente dessa fábrica de microscópios, resolveu tentar levar a ideia a frente, mesmo contrariando seus conselheiros, eles achavam que esse formato de câmera não tinha futuro.

Na versão final dessa câmera para venda, para facilitar as coisas, eles colocaram esse pedaço de filme de 1,65m (as 36 poses) dentro de um cartucho que poderia ser carregado na câmera a luz do dia sem queimar o filme.

Para ter um view finder para compor as fotos e para encaixar outros acessórios essa câmera também tinha um encaixe de sapata, em cima, idêntico ao encaixe usado até hoje na sua câmera (seja ela analógica ou digital, para encaixar o flash). Assim nascia a pequena CAmera da LEItz.

Esse fotógrafo amador nunca tirou nenhuma foto memorável para história, mas com certeza muitas fotos memoráveis apenas para ele e sua família. Mas na busca por uma câmera menor e mais fácil de carregar, ele mudou a história da fotografia, e deixou tantas boas ideias que elas são copiadas até hoje, nas câmeras digitais mais modernas. Com sua invenção, o fotojornalismo agora estava dentro da ação, no momento em que ela acontecia porque a câmera fotográfica era bem pequena.

A fotografia ficou mais fácil e qualquer um poderia colocar uma câmera no bolso com um filme 35mm de 36 poses e levar ela para fotografar morro acima, mesmo com asma. A partir daí o filme cinematográfico de 35mm se tornaria o formato mais popular de filme fotográfico até os dias de hoje.

Essa é a história de Oskar Barnack e sua mais famosa invenção, a LEItz CAmera, ou como é mais conhecida, Leica.

Oskar Barnack em sua oficina.

Oskar Barnack em sua oficina.

 

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