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Opinião: Fotos interessantes, boas câmeras e o paradoxo de Tostines…

por em 19/12/2013
 

Foto acima de Udayam R. Bassul

Sabe aquela foto que você tirou e acha que ficou muito boa, aquela que você mostra pros amigos, compartilha nas redes sociais, que todo mundo que vê, diz que você fotografa muito bem?  Se você já tem uma foto assim, já deve ter ouvido de algum amigo a pergunta: “Puxa que foto boa, qual câmera você usa?”

Ou se você gosta de fotografia, mas nunca estudou fotografia a fundo, já deve ter passado por aquela pergunta, ao ver uma foto muito legal: “Que foto boa, que câmera será que esse fotógrafo usa?”

Coitado dos fotógrafos, aquela pecinha atrás da câmera. Muita gente acha que foi a câmera e não o fotógrafo que fez aquela boa foto.

Ok, mas todas as grandes fotos que vejo por aí (estamos falando de fotos populares, que qualquer um que a veja vai achar muito boas, estilo National Geographic ou da revista Life e não fotos artísticas que necessitam interpretação) parecem ter sido tiradas pelas mais caras Canons, Nikons, Leicas, Hasselblads, sejam elas digitais ou analógicas.

Então a foto é boa porque o fotógrafo tem uma câmera boa, ou o fotógrafo tem uma câmera boa porque as fotos são boas? É o paradoxo de Tostines.

Foto de Felipe Serrano

Primeiro vamos entender o que é preciso para uma foto ser boa (para o povão, e não para críticos de arte).

Uma foto boa é aquela que faz você parar para olhar, que chama sua atenção e as vezes até desperta algum sentimento,  geralmente ela retrata algo incomum ou algo comum de um ponto de vista incomum. Quando você vê algo que seus olhos não estão acostumados a ver, isso te chama a atenção, você pode gostar ou não do que vê, mas se chama a atenção, isso provavelmente rende uma foto boa, daquelas que merecem um “joinha” no facebook. E se o que vai ser fotografado não chama a atenção por ser algo corriqueiro, cabe ao fotógrafo buscar um novo ângulo, um ponto de vista novo, incomum para tornar a foto interessante. Ou o sujeito da foto é interessante (quando digo sujeito pode ser o sujeito, o caboclo, as mina, a paisagem, o prédio, o cachorro, o gato ou sapato) ou o fotógrafo o torna interessante. Ponto.

para atingir esse objetivo um bom fotógrafo vai mexer com iluminação, ângulo, enquadramento, movimento, exposição, cores ou a falta delas, linhas, profundidade de campo, etc, etc, etc. Mas isso são recursos de composição para chegar naquele ponto de vista que é interessante e atraente pro olho humano. Aí a câmera é apenas a ferramenta. Dê a câmera mais cara ao melhor fotógrafo e peça para ele fotografar apenas uma parede branca…não vai ter a menor graça.

Por isso aquela foto daquela paisagem belíssima que você viu nas férias resultou numa foto boa para os outros (mesmo que você tenha tirado ela com o celular) a paisagem já era naturalmente interessante, e por isso fotos fisheye, colorsplash, dupla ou longa exposição, ou mesmo instagram ficam tão legais, seja pela lente, por cores ou por filtros a foto está mostrando algo (provavelmente) comum de um ponto de vista incomum, afinal não enxergamos com filtro x-pro e nem temos visão fisheye. Quando a câmera ou a edição te ajuda a retratar um ponto de vista diferente você vai ter um recurso a mais para tirar fotos interessantes. Mas a câmera sozinha, por melhor que seja, não tira fotos interessantes.

Então não é a câmera? E as vezes nem o fotógrafo pode se gabar muito também…tem muitos temas/paisagens/sujeitos que já são naturalmente interessantes, aí basta estar lá na cena e disparar a câmera.

Sim, o mérito do fotógrafo é estar no lugar certo, na hora certa (seja pra captar o momento, ou pegar a melhor luz do dia). Vá para um lugar remoto e tire fotos de pessoas de outra cultura que todas suas fotos vão ficar boas e interessantes (para pessoas da sua cultura), mesmo se você usar uma câmera velha de filme.

Foto de André Correa

Foto de André Correa

Então porque os fotógrafos profissionais (e cheios de fotos boas) usam as mais caras Canon, Nikon, Leica e outras detonadoras de contas bancárias?

Por dois motivos principais. Primeiro se o fotógrafo tem uma super câmera, super cara, ele tem todo direito, afinal se ele é profissional (ou não é, mas leva o hobby muito a sério) tem o direito de escolher as melhores ferramentas e mais confiáveis do mercado para executar o seu trabalho. Outros poucos ganham a câmera do fabricante apenas para aparecer com elas, escrever um review e fazer você pensar que para tirar fotos boas você precisa de uma câmera igual, isso quando não são pagos para andar por aí com elas (ou você acha que o Neymar realmente prefere a Claro?).  Então as melhores fotos não saem necessariamente das melhores câmeras, mas quem já tira boas fotos tende a ter boas câmeras.

O Henri Cartier-Bresson usava Leica, mas as fotos memoráveis dele congelavam um momento único, ele tinha um enorme treinamento artístico e usava esse conhecimento ao compor sua fotos. Ele só usava Leica porque quando ele fotografáva era a ferramenta mais discreta e confiável para ele atingir seu objetivo. Mas o mérito pelas fotos estava na habilidade dele de mostrar coisas corriqueiras de um ponto de vista incomum. Se ele estivesse fotografando hoje em dia talvez usasse um iPhone que é mais discreto.

Os astronautas das missões Apollo usavam Hasselblad, mas fotos da Lua e da Terra vista do espaço até se fossem tiradas com um celular mequetrefe seriam interessantes, afinal eles tinham um ponto de vista que nós aqui na Terra não estamos acostumados. Aí não precisava nem de câmera e nem fotógrafo bom, bastava o sujeito da fotografia. Também não faria sentido “economizar” levando uma Diana para fotografar a Lua.

E o Steve McCurry e o famoso retrato da menina afegã? O segredo da foto está nas cores, no olhar marcante da menina. Gosto das fotos dele, mas nesse caso pouco importava a câmera e o maior mérito do fotógrafo não está nem na técnica mas pelo (não tão) simples fato de ter ido fotografar um campo de refugiados numa zona de guerra. Aquele retrato provavelmente ficaria igualmente bom com um Minolta Talker (pensando bem, não, a menina começaria a rir depois de ouvir “To dahk, use fresh”, e isso iria arruinar o drama do retrato)

Não tenho nada contra câmeras caras e boas, muito pelo contrário, se alguém quiser me dar de presente, vou ficar muito feliz e prometo fazer bom uso. E quem critica essas câmeras, acho que no fundo está com invejinha. Se você não é o Eike Batista e tem dinheiro pra comprar uma câmera cara aqui… não compre. Pegue o dinheiro, faça uma bela viagem e compre a mesma câmera lá fora, tire belas fotos com ela. A diferença de preço vai te pagar a câmera, a viagem e ainda pode ser que te sobre um trocado. É muito provável que você volte com ótimas fotos também, mas lembre que dificilmente elas dependeram da câmera cara para serem interessantes. Ou o local era simplesmente interessante ou você, fotógrafo, com seu ponto de vista o tornou interessante.

E você, que não quer gastar, quer tirar boas fotos? A maioria das pessoas comuns (we, the people) gosta de fotos em que o sujeito fica nítido e o fundo desfocado. Pega a mais barata Olympus Trip 35 funcionando, junto com o mais barato filme, arruma um sujeito pra tirar um retrato (mas não capriche demais no sujeito, arrumando uma menina afegã, para não tirar os méritos do fotógrafo), no anel da lente que marca a abertura deixe no 2.8, no anel do foco, deixe apenas uma pessoinha e fique a mais ou menos 1m do sujeito, peça para o sujeito(a) sorrir (e se o sujeito for seu gato ou papagaio e ele sorrir pensa em quantas curtidas isso merece), tire a foto.

Foto de Bruna Pastore

Foto de Bruna Pastore

Pronto, você deixou o sujeito interessante e sua foto vai chamar a atenção.  Assim você vai tirar uma foto com uma câmera velha (mas boa pra caramba na minha opinião), que você acha pra comprar por R$50,00 ou menos, usando um filme, que é uma tecnologia de antigamente e vai acabar com um retrato com um belo desfoque ao redor da pessoa retratada, aquele ponto de vista que só se tem quando está apaixonado.

Foco seletivo é um recurso de composição. Todos seus amigos que não são críticos de arte vão achar que você tirou uma foto muito boa, e vão te perguntar: “Que câmera você usou???”

Aí você responde: Não é a câmera, é o fotógrafo ;-)

PS.: Todas as fotos desse post foram tiradas por uma Oly Trip 35.

 

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comentários
 
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  • 02/02/2014 em 1:28 am

    Poxa, tô até agora procurando a Olympus nesse preço citado em Marcello! Hahahaha Ótimo post!

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    • Marcello Galvão
      02/02/2014 em 9:12 am

      Pois é Tamiris, parece que alguns corretores de imóveis resolveram negociar as trips 35 e aplicaram a mesma valorização $urreal das moradias para essa camera que já teve mais de 10.000.000 de unidades circulando por aí. O jeito é apelar para o ebay ou buscar na região das antiguidades no Bixiga em São Paulo, lá as vezes você acha preços menos $urreais. Mas infelizmente tem gente que cobra preço de Olympus OM em Trip 35, compre a OM nesse caso :-)

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      • Mauro R. Veiga
        02/02/2014 em 9:28 am

        Verdade! Pelo preço que pedem melhor pegar uma reflex ou rangefinder.
        Mas aconselho a Tamiris a não desistir. Dica – procure em brechós. Quanto mais fuleiros, melhor.
        Comprei uma Olympus Trip num camelô que vende coisas usadas por 15 reais. Veio funcionando e com a lente mofada que me deu um monte de fotos enevoadas, mas pelo preço não posso reclamar. Valeu a diversão. :-)

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      • 03/02/2014 em 10:09 am

        Seu Dino, na feira do Bixiga, na frente do coreto, sempre tem os melhores preços pra câmeras, e quase toda semana tem Trip 35…

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    • Bruna
      03/02/2014 em 12:41 pm

      No Mercado Livre ainda tem algumas por R$ 50,00. Paguei R$ 90,00 na minha, mas veio com dois filmes vencidos <3 e falsh. Vale o investimento. =)

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  • 19/12/2013 em 1:36 pm

    post super interessante… dá uma olhada no meu tumblr

    http://memoria-analogica.tumblr.com/

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  • Mauro R.V.
    19/12/2013 em 1:21 pm

    Ótimo post!
    Acho engraçado essa mania de perguntarem qual a camera.. Quando comem um prato delicioso num restaurante não perguntam qual o fogão. ;)

    Uma duvida: a seleção manual de abertura da Olympus Trip 35 não é só para quando se usa flash?

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    • Marcello Galvão
      19/12/2013 em 1:37 pm

      Mauro, obrigado!
      Sobre sua dúvida, a seleção manual não é apenas para flash, você pode usar ela para controle criativo também, só que pelo que sei o shutter dela fica fixo em 1/40 quando está no modo “manual”. Então em f2.8 você pode tirar uma foto bem exposta até mesmo dentro de casa sem flash com um filme iso400, mas se usar ele num dia muito ensolarado a foto pode ficar super-exposta.

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