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“My Leica Year”: 1 ano de fotografia analógica preto e branco II – A Missão

por em 09/01/2014
 

[Nota do autor ao editor: André, o link do Leica-Year, 1 ano depois eu tinha guardado para o segundo post, mas você foi e entregou o segredo no primeiro post aqui]

[Nota do Editor: foi mal aê… ;-) ]

No post “My Leica Year”: 1 ano de fotografia analógica preto e branco, comentei sobre uma ideia de fotografar durante 1 ano com uma câmera analógica totalmente mecânica, com apenas uma lente e usando filme preto e branco, se ainda não leu, volta lá e lê. Para esse post reservei como fazer um Leica Year por aqui, como (sem querer) fiz algo parecido e quais foram os efeitos colaterais disso.

Em 2011, na busca por uma tampinha de lente para minha Olympus Trip 35, me deparei com uma câmera que parecia ser bem antiga, bem usada e daquela marca que custa caro, a Leica. Olhei, olhei mais um pouco, mas não era uma câmera baratinha, mesmo sendo nitidamente velha. Saí da loja mas fiquei com aquilo na cabeça. Nos dias seguintes fiz a lição de casa, pesquisei na internet sobre que câmera poderia ser aquela, o que ela era capaz, quanto custava no ebay (importantíssimo antes de sair comprando qualquer coisa por aí), se uma Leica era realmente uma câmera diferente ou apenas uma versão cara de câmeras mais baratas.

oldphoneA pesquisa só me revelou que aquela poderia ser uma Leica III (mas sem ver não tinha como saber se era o modelo a, b, c, ou f), que era uma câmera rangefinder clássica, e que tinha várias pessoas que ainda tiravam ótimas fotos com uma câmera dessas por aí. Então, dias depois voltei na mesma loja e se a câmera ainda estivesse lá e estivesse funcionando eu levaria pra casa. Ela ainda estava lá e dentro do pouco que tinha aprendido a verificar pela internet, ela estava perfeitamente funcional.

Comprei.

Com ela em mãos analisei melhor, descobri que era uma Leica IIIc de 1950 , que o viewfinder dela com campo de visão de uma lente 50mm não me mostrava exatamente o que sairia na foto, porque a lente que veio com ela era de 35mm, que carregar o filme nela era bem complicado, que fazer foco não era moleza e ao usar o primeiro filme descobri que ela não estava assim “puxa, que perfeita que está essa câmera”. Tinha uns light leaks muito loucos, 2 ou 3 filmes depois descobri que os light leaks eram da cortina do shutter, afinal como uma câmera totalmente metálica e que o filme entra por baixo poderia ter light leaks em outro lugar? Arrumei os light leaks com tinta para tecido, fui atrás de uma lente 50mm para ela e por fim levei para o Sr. Perez da Anatec dar uma geral nela. Voltou nova, dentro do que se pode esperar de uma câmera de 1950.

Mas, pensa no que essa câmera já devia ter visto, tinha o dobro da minha idade, e agora funcionava perfeitamente, e ainda poderia tirar muitas fotos.

Comecei a usar ela cada vez mais, minha DSLR para as fotos coloridas, mas sempre do lado estava a Leica IIIc para tirar fotos com filme P&B. 1 ano e umas dúzias de Ilfords XP2 depois (P&B com revelação C41 que é mais barata) carregar o filme já não parecia complicado, já conseguia acertar o foco em (quase) todas as fotos, já não precisava usar o App Light Meter para fazer fotometria, porque já sabia que velocidade ou abertura usar para cada situação de luz.

Com o tempo comprei um scanner de filmes, filtros para as lentes, mais lentes de rosca (encaixe padrão da Leica III), e 2 anos depois um rebobinador e um rolo de filme P&B de 30m, descobri o cafenol e passei a revelar minhas fotos em casa, e por fim recentemente me deparei com o post do cara que acha que uma Leica analógica e mecânica pode ser seu “professor” de fotografia…isso é…A MAIS PURA VERDADE.

Não planejei ter meu Leica Year, nem sabia que existia isso, mas de fato as dificuldades e limites na medida certa que uma câmera dessas te oferece podem sim te ensinar muito sobre fotografia, desde que você insista em usar uma câmera dessas com frequência.

A minha eu usava, e continuo usando, não só pelas fotos boas que ela tira, mas porque o processo todo é divertido, é tudo, tudo mesmo manual do inicio ao fim. Do rolo de filme de 30m até a foto pronta na tela do computador eu preciso rebobinar o filme, cortar um belo pedaço dele para inserir na câmera, definir a velocidade do shutter baseado na olho-fotometria, a abertura da lente, fazer o foco manual pelo visor de foco e depois compor a foto pelo visor com o campo de visão de uma lente 50mm (sim as Leicas III tem dois visores separados para compor e fazer foco), preparar o cafenol, revelar o filme, escanear o filme, por fim tenho a foto. O fim (a foto) pode até ficar bom (as vezes) mas  independente do fim, o meio (o processo) já foi suficientemente divertido pra mim. E para chegar nesse fim que é a foto, o aprendizado com o meio não tem preço (mas você ainda pode comprar a câmera com MasterCard).

Agora chegamos na receita da Versão Brasileira (Herbert Richers) do Leica Year:

Munique– 1 câmera analógica totalmente mecânica, na realidade não importa a marca, mas é bom que ela tenha uma boa seleção de shutter e se trocar de lente melhor, vai ampliar muito suas possibilidades, mas acho bom evitar as toy câmeras para um projeto desses. Se quiser usar uma Leica mas não quer pagar uma fortuna, esqueça as Leicas M e vá de Leica III, você encontra uma boa com lente limpa por não mais de 1500,00 reais (ou bem menos se comprar fora) e de fato são câmeras muito boas e confiáveis (tanto que funcionam bem ainda em 2014, mais de 60 anos depois que a ultima delas foi fabricada) e sem dúvida ela é mais difícil de usar que uma Leica M, se você dominar a III a M vira brincadeira.

– 1 rebobinador de filme e um rolo de filme P&B de 30m, vai cortar o custo do filme para até 1/4 do que custaria se você comprasse cada filme de 36 poses separado, além de te dar a possibilidade de fazer filmes menores de 2, 3, 6, 10 fotos, assim você roda e revela ele mais rápido.

– 1 kit para revelar filmes P&B em casa e o químico de sua preferência (eu recomendo o Cafenol fervido, não mexido ;-)

– 1 scanner para filmes (afinal você precisa ver como suas fotos estão saindo e digitalizar é o meio mais barato), se você usar filmes P&B pode até mesmo usar o da Lomography, que você escaneia no celular e para fotos P&B os resultados não ficam ruins.

Dessa forma seu custo por foto vai ser bem baixo, o investimento inicial não é incrivelmente alto, e de fato após 1 ano nessa brincadeira você provavelmente será um fotógrafo melhor. Não por causa da Leica, ou por usar filmes para suas fotos, mas simplesmente porque os limites impostos por 1 ano de fotografia analógica preto e branco vão te ensinar muita coisa.

Efeitos colaterais após meu(s) Leica-Year(s):

– Não tenho medo de fazer foco manual na minha DSLR, e posso comprar lentes antigas, manuais (e baratas) para usar nela.

– Tiro muito menos fotos digitais. Não por tirar mais fotos analógicas mas porque a Leica me ensinou a só disparar a câmera na hora certa, então eu não preciso mais tirar 12 fotos idênticas para escolher 1 na DSLR, para mim ficou mais fácil acertar na primeira.

– Aprendi a “enxergar” preto e branco e consigo prever como a foto vai sair com filtros coloridos (isso só se aprende com a prática).

– Aprendi que não preciso ter a DSLR mais nova para tirar fotos legais, porque se uma câmera de 1950 manual da conta do serviço, não é a câmera, mas sim o fotógrafo que tira a foto.

– Aprendi que ainda tenho muito para aprender e explorar sobre fotografia, controlar o processo do inicio ao fim de fotografia analógica preto e branco é apenas a ponta do iceberg.

– Andar com uma câmera antiga dessas por aí virou o meu “instagram” #nofilter. Tiro fotos da família, dos amigos, revelo quando chego em casa, e todo mundo gosta de “posar” pra ela, porque acha a câmera curiosíssima.

O autor do post original sobre o Leica-Year publicou um outro post 1 ano depois (conforme o André Corrêa já entregou aqui) com um monte de relatos de pessoas que tentaram ter seu Leica-Year do seu próprio jeito, teve gente que usou digital, outros grande formato, tem muitas idéias, vale a pena ler lá.

Enfim, o Leica-Year é isso. E você se impor limites e aprender muito a medida que você supera e domina esses limites.

E você, topa o desafio?

Abaixo algumas fotos dos meus Leica-Years?

 

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