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Entrevista: Luiz Cláudio Marigo e o Chocolate Surpresa

por em 13/01/2014
 
Marigo com Hasselblad x-pan - foto Gustavo Marigo

LC Marigo com Hasselblad x-pan – foto: Gustavo Marigo

Quem foi criança nos anos 1980 deve se lembrar do Chocolate Surpresa. Como era gostosa aquela barra de chocolate ao leite, com a imagem de um animal em alto relevo. Era macio e derretia na boca. “Mas e daí, o que isso tem a ver com fotografia?” Você deve estar se perguntando. E daí que junto com o chocolate vinha um cartão com a foto de um animal da fauna brasileira e a ficha técnica do bicho no verso. E o post de hoje é uma entrevista com Luiz Cláudio Marigo, o principal fotógrafo contratado pela Nestlé para registrar os animais em seus habitats naturais.

Marigo fotografou quase todas as séries de animais silvestres (antes da Nestlé pirar o cabeção e começar usar desenhos de cachorrinhos e dinossauros). Armado com câmeras Nikon, o fotógrafo saía à caça com bastante munição (até 100 rolos de filme). Não era fácil. Cada série exigia meses de trabalho, quase um ano, e ele chegou a ficar 14 dias à procura de uma borboleta! Mas valia a pena pelo caráter educativo do trabalho, que mostrava às crianças a riqueza das nossas matas, campos e sertões. Deu tão certo que muitos meninos e meninas se tornaram biólogos e fotógrafos de natureza inspirados pelas fotos colecionáveis.

QF – Por quanto tempo trabalhou nas séries fotográficas do Surpresa? Quais séries foram fotografadas por você?

LC Marigo – Acho que durante uns seis anos. As duas primeiras séries em que todas as fotos utilizadas foram minhas, mas sem o meu texto para o álbum e as figurinhas, foram a Mata Atlântica e a Amazônia. Depois eu fiz fotos e texto para Campos e Cerrados, Os Sertões (a Caatinga) e Litoral e Ilhas Oceânicas. No primeiro álbum, do Pantanal, tive apenas duas ou três fotos.

QF – Era um trabalho demorado? Levava quanto tempo para dar a série por encerrada?

LC Marigo – O trabalho durava meses, quase um ano. Enquanto uma série estava sendo distribuída eu estava trabalhando na próxima. Para formar um álbum e suas figurinhas, eu viajava quase todo o Brasil, para ter espécies representativas dos biomas. O Litoral e Ilhas Oceânicas, por exemplo, tem espécies do Amapá ao Rio Grande do Sul, e mais Fernando de Noronha. Eu levei14 dias procurando uma borboleta da restinga ameaçada de extinção. O trabalho era sério. Eu queria conscientizar as crianças para a diversidade da nossa fauna, queria mostrar espécies representativas dos ecossistemas, ameaçadas e raras.

QF – Quando você fez esse trabalho para a Nestlé, tinha noção da contribuição que daria para a formação das crianças, em termos de consciência ecológica, cultura, aprendizado sobre a fauna brasileira?

Foto: Cecília Marigo

Foto: Cecília Marigo

LC Marigo – Sim, claro. Eu me preocupava com isso e me esforçava para fotografar espécies importantes, características dos ecossistemas. Naquela época não existiam livros, não tinha quase informação nenhuma sobre nossa fauna e nossos ecossistemas. Foi meu trabalho mais importante pelo impacto nas crianças e pela distribuição do chocolate, pelo alcance do trabalho, que deve ter sido de milhões de figurinhas e milhares de álbuns. Imagina que todo barzinho do Brasil tinha esse produto de uma poderosa multinacional. Uma exposição atinge quantos visitantes? Ou mesmo um livro?

QF – Esse trabalho deve ter influenciado algumas pessoas, despertado interesse pela Biologia, ou até mesmo pela fotografia. Você sabe de alguma história do tipo “ah… eu gostava tanto do Surpresa e das fotos que me tornei biólogo (ou fotógrafo)”? Fale um pouco sobre isso.

LC Marigo – Encontrei vários biólogos que me confessaram que escolheram essa profissão por causa do Chocolate Surpresa. Gente que foi fotografar natureza também. O Chocolate Surpresa mostrava a natureza com o prazer e simbolismo afetivo de comer chocolate! Era carinho com as figurinhas, entende? Criança gosta de chocolate e gosta de bicho, de natureza. Eu estava consciente disso, porque sentia a mesma emoção em mim.

QF – Agora vamos entrar um pouco mais a fundo em questões fotográficas. Que equipamentos você usava para fotografia de animais selvagens?

LC Marigo – Eu trabalhava com Nikon F2 e F3 (não me lembro se naquela época já tinha a Nikon F4) com motordrive, e lente macro 200mm/ f:4 e teleobjetiva de 800mm/f:8 para os animais. Para paisagens, lentes normal e grande-angulares. Filme Ektachrome e Fujichrome Velvia 50 ISO. Ou melhor, 50 ASA na época.

QF – Quais são os desafios de se trabalhar em condições tão adversas (sol, chuva, mata fechada, mosquitos, “modelos” ariscos)?

Foto Cecília Marigo

Foto: Cecília Marigo

LC Marigo – Naquela época era filme, claro, e a gente contabilizava cada foto, pois filme de slide e sua revelação eram caros! Não dava para ver o que era fotografado na hora, e repetir se estava errado. O fotógrafo passava um mês viajando e só depois podia ver tudo o que tinha feito. Precisava levar os filmes com ele no calor da Caatinga, na umidade da mata, das praias, no raio-x dos aeroportos. Não tinha foco automático e estabilizador de imagem. Modelos ariscos com ISO 50, foco manual e teleobjetiva F:8 eram problemáticos… Esses eram os maiores desafios. Mata fechada era um problema, pois com ISO 50 era difícil fotografar na floresta, Eu usava muito flash. Mosquitos, desconforto etc. Eu tirava de letra. Gosto dessa ralação no mato até hoje. Não valorizo essas coisas.

QF – Hoje em dia é muito comum as pessoas acharem que os fotógrafos da “era pré-digital” eram como magos, que faziam verdadeiras mágicas para conseguir fotos muito boas sem terem um visor LCD na parte de trás da câmera. Era mesmo tão difícil fotografar a natureza com filme? Diga como era o método de trabalho. Quantos filmes você levava na bolsa, quantas câmeras, quantas lentes, quais eram os desafios?

LC Marigo – Éramos como magos mesmo. Já expliquei algumas dificuldades acima. Eu tinha sempre dois corpos de máquina (usava os dois com lentes diferentes ao mesmo tempo e também se uma máquina quebrasse enquanto eu estivesse no Amapá, por exemplo, não precisava voltar para casa!) e quatro ou 5 objetivas. “O fotógrafo é, antes de tudo, um burro de carga” – até hoje! Eu viajava com até 100 rolos de filme. Os maiores desafios era achar os animais. Naquela época não tínhamos os guias de hoje, nem tanta literatura, e a caça era muito comum e por isso os bichos eram muito mais ariscos e difíceis de achar. Também não existiam pousadas de ecoturismo, esquemas de condução, essas facilidades de hoje. Eu tinha que contratar táxi, barco, cavalo para entrar no interior, pedir ajuda para os vaqueiros e caboclos do mato, etc. Era tudo improvisado.

QF – De um rolo de filme, saíam quantas fotos publicáveis, em média?

Fotos boas mesmo, tecnicamente boas (foco, exposição etc.) e com composição, pose do animal, interesse da cena, momento etc. Saía cerca de 20% do filme. Isso porque eu repetia muito a mesma foto para depois ter bons originais e depositar as fotos nas minhas agências no exterior. Eu ficava com os direitos autorais de todas as fotos.

QF – Você ainda fotografa com filme? Por quê? Se sim, fotografa profissionalmente ou só para fotos pessoais

Foto Cecília Marigo

Foto: Cecília Marigo

LC Marigo – Eu tenho uma Hasselblad x-pan que usa filme 35mm e faz um cromo de 24×65 mm, uma panorâmica linda. Fotografo profissionalmente com ela. Mantenho essa câmera porque gosto de ver a tripa de filme, usar as mãos para cortar o filme, colocá-lo na moldura ver na mesa de luz etc. Saudosismo? Sim, cresci com filme e gosto dele. Mas, gosto também de fotografia digital, da qualidade de cor e resolução do digital, do controle no computador e todas essas vantagens. Gosto de tudo: uma coisa não exclui a outra. “Eu me contradigo? Muito bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões”(do poeta Walt Whitman).

QF – Nossos leitores são meio viciados em fotografia analógica e muitos deles têm a natureza como tema preferido. Que dicas você daria para eles conseguirem fotos boas?

LC Marigo – Estudem a literatura sobre os animais e procurem as pousadas e os lugares onde os animais são protegidos, são abundantes e ficaram mais mansos. Às vezes vale mais a pena investir numa viagem do que numa nova objetiva. Se possível, contrate um guia de observadores de aves para atrair as aves com playback, a técnica de tocar a voz da ave e atraí-la. O Pantanal é maravilhoso para fotografar animais. Comece por lá e depois, com um pouco mais de prática, procure os outros ecossistemas mais difíceis de trabalhar.

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comentários
 
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  • Paulo Victor Loureiro
    04/06/2014 em 10:51 pm

    Parabéns pela matéria! Aprendi a gostar de biologia comendo esses chocolates com imagens de animais!

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  • 03/06/2014 em 3:57 pm

    Sr. Elbert, é com muita tristeza que acabo de ler a reportagem sobre a morte do fotógrafo Luiz Cláudio…na mesma cidade que ele tanto amou, não obteve o atendimento necessário porque o hospital estava em greve..uma pena, ele foi uma pessoa espetacular! abraço

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  • Érica Lima
    31/01/2014 em 10:33 am

    Quando eu era criança não gostava de chocolates porque passava mal sempre que comia algum. Pois bem, sempre gostei de animais e ficava doida com os anuncios do chocolate surpresa e esse era o único chocolate que pedia só por causa das fotos. Quando acabaram com ele fiquei meio que decepcionada. Amei essa entrevista. Amo o Queimando Filme. Abraços.

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  • 23/01/2014 em 10:51 am

    Parabéns pela matéria, muito interessante. Pode parecer óbvio demais, mas desde que comecei a me interessar por fotografia tenho uma noção melhor de que cada imagem, revista, outdoor, cartão postal, etc tem alguém por trás disso. um fotógrafo. Parece meio besta falar isso, mas é que eu nunca tinha parado pra pensar que existe muita história por trás das fotos do chocolate surpresa. E achei muito legal o queimando filme trazer isso para os leitores ;)

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  • 19/01/2014 em 2:30 pm

    Matéria Excelente, realmente uma ótima publicação Parabéns pela matéria. E gostaria de aproveitar para agradecer ao Sr. Luiz Cláudio Marigo por fazer parte da minha educação e formação, realmente foi uma contribuição que irei repassar para meus filhos e se possível netos porque tenho “quase tudo” dos chocolates surpresa e das suas fotos, sou um colecionador nato, e sempre estou recordando e estudando este material. E concordo com os colegas que a Nestlé poderia e deveria voltar com este projeto que se iniciou na França e lá só em 2009 saiu do mercado mas deixando mais de 1000 fotos de animais e a sugestão do colega é muito interessante podem ser feitos vários projetos com este “animais da África” e muito mais há de ser explorado, estudado e conhecido. Vamos entrar em contato com a Nestlé, por mais difícil que seja este intuito educacional não deveria se perder ainda mais nos dias de hoje. Abraço a todos!!!

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  • Danilo Balthazar
    15/01/2014 em 5:07 pm

    Com toda certeza uma das razões de eu ter me tornado biólogo foram as fotos do chocolate surpresa. As fotos do Marigo têm uma grande importância p/ a minha vida. Infelizmente não tenho mais nenhuma comigo hoje em dia!.

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  • Lu
    14/01/2014 em 9:29 pm

    Matéria muito lega! Parabéns!

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  • 14/01/2014 em 6:59 pm

    Eu tenho todos os albuns do chocolate surpresa que eram com temas de animais. Admiro o trabalho do LC. Excelente fotógrafo. É uma pena a nestle ter cancelado esse projeto tão bacana. Cheguei a mandar emais para eles sugerindo projetos com animais de outros países. Temas com “Animais da África”, Realmente é uma pena. Parabéns Luiz Claudio. Parabens mesmo…

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  • 14/01/2014 em 9:46 am

    Matéria magnífica! Sou obrigado a confessar que me emocionei, estas fotos dos chocolates com certeza ajudaram a formar quem eu sou hoje,

    Muito obrigado, mesmo por proporcionar esse momento!

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  • Luiz Carneiro
    13/01/2014 em 2:42 pm

    Bem legal..Infelizmente o único álbum Surpresa que completei foi o Dinossauros, então não em fotos.. rsrs

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  • Allan Monteiro
    13/01/2014 em 2:07 pm

    Antológica essa matéria. Não sou fotógrafo, mas entendo e compreendo a importancia de um trabalho como esse. Esse senhor, graças a Deus, formou minha infancia e juventude. Proporcionou conhecimento com sentimento, através de trabalho árduo, sincero e dedicado.Que falta faz isso hoje em dia (tenho somente 29 anos…rs).

    Nestlé voces fizeram um grande favor à geração dos anos 80-90, uma pena terem mudado o rumo…mas mercado é mercado…Não sei se já fizeram, mas seria muito legal um “remake” desse produto.

    Queimandofilme.com, parabéns pela excelente matéria! Muito bacana esse resgate de parte de nossa história.

    E senhor Claudio Marigo, um muito obrigado por ter sido uma influência na minha vida e de muitos da minha época. Não formei-me biólogo nem tampouco fotógrafo, mas a base de meu conhecimento, estudo e formação tem um pouco do seu trabalho. Um belíssimo trabalho por sinal. Que continue contraditório, como voce mesmo disse, mas que não perca nunca essa dedicação, carinho e entrega.Um pouco entre muitos.

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