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Puxando – ou empurrando – o ISO em minilab: é possível?

por em 23/01/2014
 

No artigo anterior, eu falei um pouco sobre o código DX e expliquei o motivo de você não perder seu tempo trocando o negativo de bobina para “enganar” a máquina porque você está enganando apenas a si próprio. Mas, tentando evitar que o artigo ficasse muito grande, deixei uma pergunta ~no ar~, que foi…

Ok, Bruno, mas se não é possível “enganar” o minilab e o processo é padronizado, por que alguns laboratórios oferecem revelação puxada?

Bom, vou tentar explicar de forma simples – e rápida – como um minilab faz o processo de puxar o filme. Respondendo à pergunta título desse artigo, sim, é completamente possível puxar o ISO na revelação de um minilab – e existem três maneiras de se fazer isso:

Método 1: “parando” a máquina processadora de filme

Lembra o que eu escrevi sobre os roletes da máquina nunca pararem? Então: eles realmente não param…Se a máquina estiver em um fluxo normal. O operador, porém, pode desligar a chave que aciona os roletes, fazendo-os parar, estando com um negativo dentro ou não.

Entendeu? Ao parar os roletes com um negativo, você acaba deixando o negativo por mais tempo em contato com a química, o que funciona para revelar negativos puxados para mais, como é o caso de um ISO 100 fotografado como ISO 400. O grande perigo aqui é o negativo ficar inconsistente, visto que não são todas as processadoras de filme que conseguem manter um rolo de 36 poses completamente mergulhado na química. Ou seja: se o operador não for um cara muito bom, ele pode simplesmente cagar seu negativo inteiro tentando fazer isso.

Método 2: aumentando – ou diminuindo – a temperatura dos químicos na máquina processadora

O segundo método é um pouco mais seguro, mas muitos laboratórios não gostam de fazer por motivos de fluxo. A processadora de filmes opera numa temperatura padrão, então você pode forçar a temperatura do químico, deixando-a mais alta caso queira revelar um negativo batido com ISO maior que o original, ou menor caso queira revelar um negativo que foi batido com um ISO abaixo do original. A grande questão é que, para isso, você consome um tempo precioso.

Esse método é mais seguro pois não envolve tempo, já que nesse ponto a exposição do negativo ao químico será a padrão e funciona muito bem para negativos batidos num ISO abaixo do original. O perigo mora caso seja uma puxada para mais extrema, tipo seu negativo ser de ISO 100 e você utilizá-lo como ISO 3200. Não é que seu negativo não aguente e você vai perder seu rolo. Longe disso, pode ser que a latitude dele consiga guardar informações desse nível. O problema é que a temperatura precisa estar tão alta, mas tão alta, que ou a máquina vai desligar como segurança ou seu negativo vai derreter na química. Ou os dois.

Método 3: usando a latitude do seu negativo durante a impressão/digitalização

Esse é o método mais comum entre os laboratórios que fazem revelação puxada. A maioria das pessoas que puxa filme acabam usando dentro dos parâmetros aceitáveis de latitude do negativo. O que acontece é que, ao colocar o negativo na trilha do scanner, a autocorreção irá perceber que o negativo está levemente subexposto – ou superexposto – e vai corrigir as altas e baixas luzes. Caso a latitude não seja suficiente e a autocorreção não funcione bem, ainda é possível que o operador force mais – ou menos – luz na hora de imprimir/digitalizar, aumentando – ou diminuindo – a densidade do negativo, o que faz com que aumente – ou diminua – o contraste.

E é justamente esse o motivo que o torna o mais utilizado em laboratórios: como você não precisa mexer nem no tempo da química reveladora do negativo quanto ficar pausando a processadora, esse método é o mais rápido. É o que dá o resultado “pior” entre os métodos citados, mas ainda assim é melhor do que tentar clarear ou escurecer uma foto através de algum programa de edição.

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Curtiram? Pois bem, abaixo estão alguns lembretes e curiosidades acerca desse processo de puxar o filme em minilab.

  • Alguns laboratórios mesclam os métodos 2 e 3 na hora de revelar negativos puxados. Como? Dessa forma: se você bateu um filme de ISO 400 como 1600, você puxou dois stops, correto? Então, ao invés deles subirem a temperatura do químico para cobrir esses dois stops, eles sobem a temperatura apenas para cobrir um stop, e deixam para cobrir o outro durante a digitalização/impressão. Desse modo a máquina volta ao fluxo de trabalho – ou seja, a temperatura normal – mais rápido.
  • Alguns laboratórios cobram mais para revelar puxado justamente pelo fluxo. Normalmente, se o valor da revelação puxada for bem mais alto que o da revelação normal, é bem capaz deles utilizarem o método 2, que mexe com a temperatura. Talvez eles também entreguem o serviço num prazo maior – mas isso varia de laboratório para laboratório e não há um padrão.
  • Vale citar que todas essas maneiras são meio que “na confiança” e nada garante que vá sair um resultado exatamente preciso. Se você quiser a certeza de que seu filme ISO 200 puxado para 800 tenha um resultado mais preciso, é mais interessante usar um laboratório completamente manual, como é o caso do Gibolab, aqui em São Paulo.

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comentários
 
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  • Leandro
    19/08/2014 em 12:48 am

    Puxada em C41 é só pra foto “artística”, onde vale tudo de acordo com o projeto do fotógrafo.

    Ahh, além de temperatura e parar o minilab, não sei se todos, mas no que eu trabalhei além da temperatura eu podia escolher em quanto tempo o filme ia passar pelos tanques, e esse processo,na minha opinião,é o mais seguro pois puxar ISO

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  • 04/02/2014 em 12:03 am

    Excelente post! Mas sendo bem honesto, é possível enganar o leitor da máquina facilmente alterando o código DX. Cada quadrado pode ser condutivo ou não condutivo, e é assim que é identificado o iso do filme. Portanto, é só raspar a tinta do quadrado que deve passar a conduzir e colar uma fita bem fina (ou pintar) o quadrado que não deve mais conduzir, seguindo essa tabela:
    http://en.wikipedia.org/wiki/DX_encoding#Reading_DX_codes

    Espero ter ajudado.

    Responder

  • Lu
    23/01/2014 em 10:56 pm

    Ótimo post, aprendi muito!

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  • 23/01/2014 em 11:24 am

    ola bruno.

    eu como sofredor dono de laboratorio fotografico dos anos 70 ate 90, e ex aluno do centro educional kodak. trago algumas consideracoes ..sobre o processo c41. de revelacao de filmes negativos coloridos.

    A diferenca fundamental entre os filmes pb e os coloridos quando se puxa ou empurra os filmes. e que mesmo os dois tipos utilizando a prata .a mesma tem funcao diferente.
    no caso do pb. a prata forma a imagem negativa. e e fixada ali …pra sempre.

    no processo colorido ela serve somente como acoplante ou seja fixar o pigmento colorido na emulsao. dessa forma toda a prata e removida no processo branqueador.

    o que acontece na verdade e que deixar revelar mais ou aumentar a temperatura. so mudam a caracteristica da densidade da base. nao alterando a sensibilidade do filme.

    eu revelava muito e sofria na mao dos fotografos. que sempre inventavam um jeito de melhorar o processo de revelacao. mas podem acreditar a melhor coisa ..em se tratando de revelacao a cores e seguir a receita de bolo.

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