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Reflexões sobre a psicologia de filme vs digitais

por em 06/03/2014
 

Eu gosto de dizer que as minhas influências veem de todo lugar. Mas o material que o fotógrafo malaio Ming Thein produz é fora de série. Costuma juntar duas coisas que eu muito procuro encontrar nas minhas próprias fotos: alto rigor técnico e sutil sensibilidade. Não é o primeiro texto dele por nossas bandas (o André já traduziu um artigo mui interessante aqui) mas esse (publicado originalmente no site dele) me parece ser mais um daqueles que todos nós devíamos ler.

Damas e cavalheiros, o sr Ming Thein!

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Conseguiria algo diferente com digital? Provavelmente nada, além de ficar frustado com minha inabilidade em obter essa tonalidade.

Aqui está uma questão interessante: por que é que o rendimento (ou volume daquelas imagens “para guardar”) muito é maior com filme do que com o digital? Vamos olhar as estatísticas da minha excursão pela Europa, e tendo em mente que eu aplico os mesmos padrões de exigência para ambos filmes e digitais:

  • Ricoh GR, disparo único: 137/1795, para um rendimento de 7,6%;
  • Olympus OM-D, principalmente disparo único, algumas sequências: 54/2370, para um rendimento de 2,4%;
  • Hasselblad com filme P&B (Fuji Acros 100): 76/168 (14 rolos), para um rendimento de 45%;
  • Hasselblad com filme de slide (Fuji Provia 100F): 28/60 (5 rolos), para um rendimento de 47%.

Resultado global com digital: 191/4165, para um rendimento de 4,6%.
Resultado global com filme: 104/228, para um rendimento de 46%.

Isso é dez vezes maior. O que está acontecendo?

A primeira coisa que vem à mente da maioria das pessoas é que nós temos mais cuidado com o filme, porque há um custo real e tangível para cada frame; conseqüentemente nós também baixamos os nossos padrões a fim de aumentar a taxa de “acerto” – mais uma vez, por causa do custo associado ao descartar com um quadro. Eu sei que isso é altamente subjetivo, mas eu juro que se aplicam os mesmos padrões para cada captura, independentemente do meio utilizado. Alguns meios levam a taxas de rendimento mais elevadas – por exemplo, se eu detalhar o uso da D800E e equivalentes, estou quase certo que haverão mais keepers de uma composição cuidadosa do que disparos a la run-&-gun com um iPhone. Mas essas diferenças são jogados para fora da janela quando usamos todas as câmeras nas mesmas condições, o que foi o caso aqui – eu carreguei tudo comigo o tempo todo durante a viagem, e disparei muito pouco durante a noite (o que, se feito a mão, teria mais fotos, mas um rendimento ainda nas digitais). Havia luz suficiente durante as vezes que eu estava ao ar livre para que eu pudesse usar filme lento confortavelmente, handheld.

Talvez nossos cérebros vejam objetos a serem fotografados de maneira diferente: possível, mas em geral eu diria que improvável. Tive sobreposição no uso entre a Hasselblad e o a Olympus com uma lente zoom, e sem dúvida a única fixa que eu escolhi – 80mm, para equivalente a 45 milímetros em FF – é muito mais fácil de usar do que o conversor de 21 milímetros que eu mantinha permanentemente ligada à Ricoh GR . Eu usei a minha mistura habitual de reportagem urbana e natureza-morta envolvendo assuntos em movimento e detalhes arquitetônicos estáticos com ambas as câmeras.

Há uma outra possibilidade: a da escassez. Você só pode levar um número fixo de rolos com você a cada dia – para mim, cinco ou 60 frames – e você quer fazer elas valerem a pena, mas, além disso, você fica com medo que você vai terminar o último quadro e, em seguida, se deparar com algo que você gostaria de ter outro rolo para registrar. Ou não, já que você também está levando duas câmeras digitais, também. Na verdade, o oposto era verdade. Eu tive dificuldade em encontrar coisas para fotografar às vezes; haveria um último quadro sobrando e eu gostaria de mudar para cores ou a preto e branco; muitas vezes levava horas para encontrar essa foto. Lembro-me de enviar os meus alunos para um exercício de disciplina fotográfica em Praga – eles só poderiam pressionar o botão apenas cinco vezes em uma hora – e durante esse tempo, e no próximo exercício, eu fiz apenas um quadro. Será que a câmera nos condiciona a ver de uma certa maneira? Talvez.

Uma expressão diz que “se você usar uma escopeta e é certeza que vai acabar acertando em alguma coisa”, o que implica que eu faça o chamado spray-and-pray; novamente, aqueles que me viram fotografar vão discordar disso. Aqueles que me viram fazendo edição vão discordar ainda mais: eu vou gastar uma quantidade surpreendente de tempo escolhendo entre 9 a 10 arquivos quase idênticos, qualquer um seria ‘ok’; mas eu estou procurando a um “excepcional” . Eu fotografo quando algo muda, ou quando eu quero tentar algo; geralmente, as únicas diferenças são sutis mudanças na composição ou expressões dos sujeitos. Esta não é a fotografia estocástica, estamos perseguindo a enésima potência. E todas essas sutilezas fazem a diferença: talvez eu persiga a perfeição com digital, porque eu posso. Será que é porque nós aceitamos a imperfeição e falta de controle de filme e ignoramos os pequenos erros? Eu certamente não.

Eu suspeito que a resposta pode ser muito mais simples: é porque temos um feedback instantâneo. Se você vê que algo está errado, e você tem a chance para outra tentativa, qualquer pessoa que tenha qualquer orgulho em sua produção, que seja ela, vai aproveitar essa chance. Nós não temos isso com filme; só temos que esperar o melhor. Mas isso não explica por que você não faria mais uma segunda foto por segurança, especialmente se você está em um lugar que você não vai visitar novamente, ou se você está fotografando a trabalho, ou se você está sob constante mudança nas condições de luz. Mas talvez haja um grão de algo aqui: meus negativos mostram grau zero de quadros repetidos.

Uma pausa, para fazer um pouco de matemática: se eu estou tentando 5-10 variantes de cada quadro com digital, mas apenas um único frame com filme para, em seguida, esperar uma taxa de acerto de 10 vezes menor com digital; eis que, aí está! Portanto, há uma diferença: está em perseguir o último pedaço de perfeição. Mas como podemos nos contentar com a imperfeição e risco de usar filme? Ou será que é essa mesma imperfeição e incerteza que estamos perseguindo, que por si só se torna-se uma perfeição orgânica? Coloquemos desta maneira: podemos lamentar as imagens não feitas? Eu certamente o faço. Há sempre uma ansiedade subjacente que está faltando alguma coisa, ou que eu poderia obter um quadro substancialmente melhor se eu esperasse um pouco mais, mas a vida continua; não há como refazer. Admiro os fotógrafos de filmes de longa data que trouxeram essa disciplina inerente para o digital, e não sentem a necessidade de apertar de novo o obturador; eu fui pelo outro caminho e trouxe meus maus hábitos comigo.

Curiosamente, se olharmos para as folhas de contato dos grandes nomes da época filme (que já falamos aqui, aqui e aqui também), descobrimos que eles não eram do tipo que só fazem um único disparo por vez: eles levavam até dois rolos até ‘pregar’ a imagem; e só depois que eles paravam. Parcialmente porque eu acho que eles estavam disparando frames por segurança, no caso de o quadro que eles queriam nunca ter se materializado, e em parte porque eles também estavam pensando e refinando a idéia a medida que iam fotografando.

Não há abordagem à fotografia que seja certa ou errada; eu só estou me perguntando por que eu não consigo levar minha disciplina de tiro com filme para o digital; irônico, dado que eu comecei digital e, em seguida, trouxe esses hábitos para o filme em primeiro lugar. No entanto, há vantagens de se ter um fluxo de trabalho em que não precise ter que lidar com tantas imagens; ainda mais se o seu objetivo final é de melhora contínua na fotografia. Inquestionavelmente, digital oferece um feedback mais imediato.

Curiosamente, eu não me sinto como se o meu progresso com haletos de prata tem sido lento, de toda forma; em menos de 100 rolos – 1.200 quadros – eu me familiarizei com a não-tão-intuitiva Hasselblad; treinado meu olho para medir com precisão suficiente para usar filme de slide; levando meu processo de desenvolvimento até o ponto que eu estou feliz com os resultados e ter o nível de controle que eu quero; o resultado final se parece a maneira que eu vislumbro no momento do disparo. E eu conheço três filmes (Delta 100, Delta 400 e Acros 100) bem o suficiente para saber quando usar cada um, e para que tipo de luz. Demoro facilmente o mesmo número de quadros para me familiarizar com o comportamento de um nova câmera digital – mesmo com a minha experiência no sistema.  O review da E-M1 , por exemplo, exigiu cerca de 3.000 quadros.

Talvez seja algo com a complexidade de tudo isso; há realmente mais variáveis ​​para lidar com o digital, especialmente quando se trata do comportamento individual da câmera. Mas certamente que não há de prevalecer sobre a complexidade e o grande número de variáveis ​​e resultados possíveis quando se trata de revelação do filme? Por exemplo, o grão de Delta 100 é muito sensível à freqüência de agitação e velocidade; Efeito de borda e halação também são afetados, e filmes diferentes respondem de forma diferente à equação concentração tempo-temperatura-desenvolvedor; Acros estende 3/4 de detalhes de tom por, pelo menos, um stop ou mais, se você dobrar o tempo de revelação e reduzir pela metade a concentração. E é claro que você tem que usar e revelar um rolo inteiro antes que você perceba isso … e de preferência mais de um para afastar as dúvidas sobre os efeitos de uma só vez.

Eu só posso concluir dizendo que, pelo menos dessa vez, eu estou realmente perdido. Mas eu gostaria de ouvir o que o público pensa: você fotográfa de forma diferente com a película e digital? Você tem taxas significativamente diferentes acerto, ou limiares de aceitação? Por que outra razão você acha que pode fotografar de forma diferente através de diferentes meios? MT

(Se quiser ler o que os leitores do post original opinaram, basta ler os comentários no site do MT. Mas não se esqueça de deixar os seus aqui também!)

OBS: Por solicitação do autor, publico abaixo o rodapé que ele mantém em todos os seus posts. Ou seja, as palavras, e os links, abaixo, são dele, e não meus :-)

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comentários
 
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  • Mauro R. Veiga
    06/03/2014 em 12:41 pm

    Também passo por esse dilema. Vim da fotografia analogica, fotografava muito nos anos 90. Depois desanimei e voltei a me animar agora a usar filme curiosamente depois da compra de uma Sony Cybershot, e passo por isso – “gasto” muito mais cliques na digital que na analógica mesmo tendo consciencia disso e querendo agir com o mesmo criterio em ambos os casos.

    Acho que quanto mais limitante é o meio, mais instigante à criatividade e pesquisa ele é, daí acaba empolgando mais.

    Só um palpite.. ;-)

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