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Porque você não precisa de uma rangefinder para street photography

por em 01/04/2014
 

“Sem título” / Foto: Bruno Massao

Você já deve ter escutado – ou lido – em inúmeros lugares que uma câmera rangefinder é melhor para street photography. Seja pela discrição – já que são “menores” e mais silenciosas, em tese – ou pela fama que nomes como Robert Capa e Henri Cartier-Bresson deram para esse tipo de câmera, criou-se um mito de que você não pode fazer fotografia de rua se não tiver uma rangefinder.

Sabe o que eu acho disso? No bom e velho inglês, existe uma expressão bem válida para esse tipo de afirmação: BULLSHIT. Sim, rangefinders são câmeras animais, mas você não precisa de uma delas para fazer street photography. Você precisa é conhecer a câmera que você tem em mãos para não se embananar todo na hora de fotografar.

É óbvio que poderíamos ficar debatendo por horas aspectos técnicos entre rangefinders e SLRs e até mesmo compactas, então eu não abordarei o assunto dessa forma. Ao invés disso, eu vou citar alguns fotógrafos – que praticam fotografia de rua em níveis consideráveis – e que não usam – ou utilizam muito pouco – rangefinders. Considerem cada um desses fotógrafos um motivo. ;)

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Julius Motal, do The Phoblographer

Julius Motal, do The Phoblographer

Julius Motal

Julius é editor executivo do site The Phoblographer, e também acaba por escrever alguns testes e artigos para o site. O que pouca gente sabe é que Julius, por algum mérito do acaso, é o membro do The Phoblographer que mais escreve e pratica fotografia de rua.

Apesar de não ser exclusivamente um fotógrafo de rua, Julius é belo exemplo de que street photography pode ser praticado por qualquer pessoa e com qualquer equipamento, seja ele uma SLR, uma mirrorless ou um celular. E o mais legal é que, recentemente, ele transformou uma pergunta de uma leitora em um post editorial sobre o assunto, inclusive contando que sua primeira foto nesse segmento foi feita com uma SLR da Minolta. Ele costuma publicar suas fotos em sua conta no Instagram.

Kai Wong, do DigitalRev TV

Kai Wong, da DigitalRev TV

Kai Wong

Kai Wong, apresentador da DRTV, dispensa apresentações. O “cara asiático de sotaque britânico” é um dos maiores fotógrafos de rua da atual geração.

Devido ao programa, Kai é obrigado a testar a grande maioria de câmeras e lentes lançados mensalmente, e para isso ele apela para a fotografia de rua. Seja usando uma Hasselblad, uma compacta avançada como a Canon Powershot G1X ou então uma DSLR como a Nikon Df, o chinês utiliza o que tem em mãos para praticar street photography. Inclusive, no AnalogRev com a participação do Eric Kim, ele faz fotos melhores que as do Eric Kim – just sayin’.

Pedro Garcia, o Cartiê-Bressão

Pedro Garcia, o Cartiê-Bressão (no espelho)

Pedro Garcia

O único brasileiro da lista, Pedro não está aqui por suas fotos serem as melhores, ou por qualquer coisa do tipo. Pedro está aqui por ser o perfeito exemplo de que qualquer pessoa pode praticar street photography.

Sob o pseudônimo de Cartiê Bressão, Pedro registra a rotina e o cotidiano cariocas de forma bem humorada e interessante utilizando apenas o Instagram. Nada de VSCOcam, nada de Snapseed ou qualquer outro app. Apenas o aplicativo da maior rede social de fotos mobile do mundo. Sua ideia, transformou Pedro, um então fotógrafo amador e que não se considerava “profissional”, em um dos fotógrafos mais conhecidos do Brasil, com direito a livro lançado com suas fotos.

Mais interessante ainda é saber que Pedro tem um pé na fotografia analógica. Além de ter citado isso em algumas entrevistas, como nessa para a MADMAG.com.br, o fato também é descrito em seu livro.

Kirk Tuck

Kirk Tuck

Kirk Tuck

Kirk já deu as caras aqui no Queimando Filme, com a minha tradução do excelente artigo “Se torne um caçador solitário para caçar melhor” e, apesar de ser mais um retratista do que um street photographer, Kirk vive se arriscando na rua com suas câmeras.

O artigo que eu traduzi conta a história de uma viagem de Kirk à Paris, em 1992, onde foi convidado pela Agfa a testas os filmes APX de ISO 100 e 400. As câmeras selecionadas? Duas Canon EOS 1, uma com uma 50mm e outra com a EF 85mm f/1.2L USM – e quem conhece sabe que esse não é dos kits mais discretos para se fotografar na rua. Mesmo assim, Kirk produziu imagens de altíssima qualidade, retratando o cotidiano da capital francesa sem nada montado ou encenado.

O fotógrafo ainda mantém o blog Visual Science Lab, onde dá dicas e escreve textos verdadeiramente inspiradores, além de compartilhar muitas, mas muitas fotos.

John Free

John Free

E, por último, John Free

Deixei por último o melhor street photographer em atividade. E ele é o melhor não apenas pelas suas fotos, mas também pelos inúmeros conselhos valiosos que ele é capaz de dar a respeito de fotografia no geral. Ele, inclusive, já chegou a aparecer aqui no Queimando Filme no artigo “Conselhos de um veterano para você fotografar melhor“.

John está na lista pois acaba por ir na contramão da maioria dos fotógrafos de rua: ao invés de usar uma rangefinder, ele prefere suas boas e velhas SLRs, inclusive tendo trabalhado com uma Nikon F por anos. E a Nikon F, assim como a EOS 1 do Kirk Tuck, nunca foi conhecida como a câmera mais discreta de todos os tempos. Outro ponto interessante de John Free é sua preferência por trabalhar utilizando filme. Mesmo em seus vídeos atuais (leia como pós-2010) ele aparece utilizando alguma SLR analógica!

Ah, eu falei em vídeos? Pois bem, além de ter um blog e ministrar workshops, John possui um canal no Youtube onde compartilha dicas com quem estiver interessado em aprender um pouco mais sobre fotografia de rua.

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Entendeu? Não importa se você usa uma Leica M6, uma Canon EOS 30, uma Nikon FM10 ou uma Olympus Trip 35. Dentro da fotografia de rua, o que vale é você conhecer a sua câmera, operá-la de cabo a rabo sem ter que olhar para ela. Você tem que saber onde está cada botão, cada função, como o fotômetro dela se comporta.

Isso, no final, vale muito mais do que você decidir se usa uma rangefinder ou não. ;)

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comentários
 
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  • Vitor
    06/12/2015 em 11:16 am

    Sempre a disputa de quem é melhor, de qual é maior, de qual parece mais profissional. Nikon ou Canon? lente 1.4 ou 1.8? Lança a 5d Mark 1000 e o fulano vai lá e compra só pra mostrar que está atualizado, que tem grana pra comprar. Se a pessoa quer usar rangefinder, quer aparecer porque é babão do Bresson. Dá uma preguiça desse povo. Cada um usa o que quer, o que atender suas necessidades, o que está dentro do orçamento, o que o deixa mais feliz. Pronto.

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  • 15/05/2014 em 2:07 pm

    ta certo ,

    você não vai escrever belas frases , porque sua caneta é de ouro .

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  • Martin
    05/04/2014 em 4:20 pm

    Nos anos 40/50 as revistas de fotografia viviam com reportagens “vamos ver o que o grande fotógrafo faz com uma Kodak caixão”. Claro que os resultados eram bons – o que vale mesmo é o fotógrafo. As rangefinders apenas são mais fáceis de usar na rua. Um amigo precisou correr mais de uma vez por sua SLR dar bandeira demais… ;)

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  • 01/04/2014 em 10:14 pm

    Show. Eu estava procurando um post como esses fazia tempo. Essa aura toda em volta de alguns fotógrafos de rangefinders tem suas justificativas e argumentos, porém é algo muito específico. Talvez seja muito mais a criação de uma imagem de “bons” fotógrafos e da justificação da marca “Leica” que tornou todos os novos fotógrafos “babões” de Cartier-Bresson, Leica e Cia. Não que eles sejam ruins, mas se pode fazer muito também com as reflex e compactas.

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  • 01/04/2014 em 11:22 am

    A NEX-F3 não sai mais da mochila e estou aprendendo muita coisa utilizando ela para fotografar na rua. Além de economizar os filmes, gosto dela por ser mais compacta que a Zenit 122k ou a Nikon F70.

    Muito bom ler esta matéria, exemplos como estes são sempre bem vindos. :D

    #ficaMassao

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