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Revelando um filme em dois banhos

por em 24/04/2014
 

Hoje temos a participação especial (quem sabe se ele não gostar não fica sendo participação constante? :-) de um cara que curte um manual de revelação das antigas. Martin Carone, advogado criminalista e fotógrafo (claramente com um estilo noir) nas horas vagas. Fala Martin!! O que você conta pra gente?

Quem curte fotografar em lugares com a luz artificial existente com certeza já enfrentou situações que o contraste do negativo é excessivo, com muito pouco detalhe nas sombras e as altas luzes “lavadas”. Por exemplo, digamos que esteja fotografando uma mesa de carteado, com apenas um lustre iluminando por cima. Vamos ter áreas MUITO iluminadas (as cartas, a careca de algum jogador, etc), e outras muito pouco – o fundo, roupas, sombras nas olhos, etc).

A ampliação desse negativo será um verdadeiro inferno – o papel fotográfico não consegue “pegar” essa relação de luminosidade. E mesmo a edição digital desse fotograma não será fácil.

Outra ocasião é quando se está fotografando em bares. Os “spots” invariavelmente fornecem uma luz dura e focalizada. Se fotometrar pela luz mais intensa, as partes escuras desaparecem. Se for pelas sombras as partes mais luminosas estouram. Se for pela média… Ninguém sai do jeito certo. Um revelador 2 banhos dá uma força para sair algo adequado.

bar

Essa foto abaixo é legal para comparar as fontes de luz e o que a gente quer colocar na foto. Tem a janela. Tem a lâmpada na sala (mais ou menos como o exemplo da sala de carteado). Fotometrei para o mais importante (esse Sr dando entrevista): 1/5s f:3,5, 400 ASA. Era para a luz da janela ficar “estourada”, sem dizer que a luminária ficaria como uma chapa branca, quase como um disco voador!

entrevista

Isso não é de hoje, claro. Daí terem surgido algumas técnicas para resolver isso. A maior parte delas é só mera curiosidade histórica, da época das chapas de vidro ortocromáticas (não são sensíveis ao vermelho, então dava para acompanhar por observação a formação da imagem).

Outros métodos jamais “fisgaram” realmente os fotógrafos, injustamente – como a revelação em dois banhos. A idéia é tremendamente simples. O primeiro banho revela apenas as partes mais densas do negativo e satura a gelatina com a solução. Reveladores só gostam de trabalhar quando são alcalinos – o segundo banho é alcalino e irá levar de fato a revelação adiante, agindo com o revelador que entranhou na gelatina. As partes mais densas do negativo gastam rapidamente o revelador “A” por causa de muita prata que recebeu luz, mas nas partes fracas a revelação seguirá por bastante tempo. O resultado é uma diminuição do contraste, com mais detalhes nas partes fracas – exatamente o que seria necessário para o exemplo que demos.

Ao que eu saiba a primeira fórmula que apareceu a respeito foi divulgada pela Ernst Leitz (fabricante da Leica) em 1932:

Banho A
Metol….5g
Sulfito de Sódio…100g
água até…1 litro

Banho B
Sulfito de Sódio…6g
Carbonato de Sódio..15g
Água até… 1 litro

Banho A: 4 minutos
Banho B: 3 minutos

O banho “A” é, na prática, um revelador famoso, o D-23 (queridinho de um monte de fotógrafos da antiga, Ansel Adams principalmente! Ainda escrevemos sobre ele e seu irmãozinho mais esperto, o D-25). Só que não dando tempo para revelar a fundo o filme, só as altas luzes (para revelação completa, só o “A”, demandaria algo como 15 a 18 min com um filme de 100 ASA). Claro que para funcionar o filme vai de um banho para outro sem lavagem.

Em tese o sistema funciona com praticamente qualquer revelador normal ou grão-fino. O banho “B” seria uma solução a 5% de Borax ou 10% de Bicarbonato de Sódio (meu predileto – Bicarbonato impede o negativo de ficar acizentado e, claro, é encontrável em qualquer supermercado! Para fazer solução a 10% dissolva um saquinho de Bicarbonato (100 gramas) em um litro de água). Já os tempos de revelação variam demais conforme suas técnicas de fotometria e agitação do tanque. Um bom ponto de partida é diminuir o tempo do revelador em uns 25% e deixar no “B” por aproximadamente 4 ou 5 minutos. (Obs.: o banho “B” é sempre descartado depois do uso!)

Também às vezes é preciso “regular” os tempos conforme o que você tem no filme. Às vezes os detalhes nas sombras estão tão fracos que é preciso levar adiante o banho “B” por um LONGO tempo. Na foto aí embaixo essa Sra estava entretida com um celular em restaurante bastante escuro – a única fonte de luz fora o celular era uma lâmpada fraquinha. Para ter um pouquinho de detalhe nas sombras, só mediante expedientes no revelador – e mesmo assim essa cópia foi difícil de fazer.

celular

Bem, é isso! Agora todo mundo pode revelar suas fotos das sessões de poker das terças à noite sem sofrer!

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comentários
 
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  • Silvano
    08/05/2014 em 2:16 pm

    Seria muito interessante Luiz Jorge, legal!

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  • 06/05/2014 em 7:08 pm

    Nao se esqueca do Diafine, que aumenta a velocidade efetiva do filme. Faço Tri-X a 1250 sem puxada, ou seja, sem aumento do contraste. Se fizer a 400, fica bastante sem contraste, algo como N-2.
    Se tiver interesse, posso escrever algo sobre ele.

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  • Martin
    25/04/2014 em 7:41 pm

    Caramba, Silvano! Gostei muito de suas fotos!

    Realmente revelar em dois banhos pode ser chato – tem que fazer a solução de bicarbonato e, de todo o jeito, é um banho a mais. Porém foi uma baita descoberta para mim, pois adori fotografar em lugares de luz ruim, artificial.

    Abs e obrigado!

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  • Silvano Rocha
    25/04/2014 em 8:26 am

    Fantastico o post, gostei muito, parabens. Só achei meio complicado de aplicar, mais pra quem quer um resultado primoroso vale muito a tentativa. Encontrei situação semelhante, porém fiz com revelação normal, D76. Seu metodo teria me ajudado muito nesse caso meu, onde pode-se verificar a grande perda nas sombras, diferente das suas fotos que apresentam sombras ricas.
    https://www.flickr.com/photos/41853805@N07/12367867745/

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