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O natal de 1974

por em 02/02/2016
 

Meu pai sempre foi o fotografo oficial da família, fotografava a gente com sua Bieka da DF Vasconcelos e seus filmes 120, eu sempre achei aquela câmera estranha fazia poucas fotos por rolo, não tinha flash nem se parecia com as câmeras que eu via nos filmes e anúncios da Seleções, sempre tive em mente que quando tivesse meu salário iria economizar e comprar uma câmera minha, para quando eu tivesse meus filhos poder fotografa-los, meu objetivo era uma câmera 35mm sempre gostei das latinhas dos filmes, eram menores, mais poses, e com uma variação maior de possibilidades. 

No meu caminho de todo dia passava pela Av. Rangel Pestana e foi la na altura do numero dois mil que eu me decidi, a loja era a Lutz Ferrano, uma loja de aparelhos científicos e ópticos, entrei por curiosidade perguntando ao vendedor sobre câmeras e ele me mostrou a Olympus Trip 35, hoje pode não parecer grandes coisas, e mesmo na época existiam câmeras melhores e mais completas, mas aquela câmera me conquistou, tinha fotômetro sem pilha, controle de abertura, foco e o preço era algo que eu podia alcançar economizado um pouco por mês, alem de ser muito bonita e fácil de transportar e usar.

20150721_214812Já tinha decidido meu objetivo uma Olympus Tryp 35, meu salário de continuo não dava pra, ajudar em casa e comprar a câmera, isso eu já imaginava, comecei então a juntar dinheiro, lembro que meu cofre era uma lata de bolacha Piraquê, no fundo da gaveta da cômoda, todo mês depois de dar algum para meus pais guardava um pouco na lata, sempre que podia andava a pé, o que economizava ia pra lata, aos fins de semana quando dava ajudava um tio que tinha um “Feneme” a carregar e descarregar mercadorias o que me rendia mais alguns trocados, eram tempos difíceis a inflação aumentava os preço quase mais rápido do que eu conseguia juntar dinheiro, cheguei a pensar em fazer um crediário, assinar promissórias ou algo assim mas como era menor de idade isso não era possível, meu pai chegou a se oferecer para me ajudar na compra, afinal ele também gostava da ideia de uma câmera nova em casa, mas eu era teimoso e queria eu mesmo comprar minha câmera sozinho.

20150721_214840Era novembro de 1974, já faziam alguns meses que eu vinha juntando dinheiro, e passando em frete uma outra loja da mesma Lutz vi na vitrina uma Trip o valor anunciado não era o que eu esperava, sabia de cabeça os valores de todas as lojas que eu conhecia, por algum motivo o preço não estava atualizado pela inflação do mês, entrei e perguntei ao vendedor, ele me explicou que se tratava da ultimo daquele lote ou algo assim, ele me explicou o porque mas eu não lembro, a única coisa que ouvi era que aquela trip estava ao meu alcance, devido a amizade que tinha conquistado passando sempre ali para paquerar as câmeras o vendedor concordou em retira-la da vitrina com o compromisso de que eu ficaria com ela, mas algumas coisas parecem piadas de mau gosto, justamente naquele mês o salário atrasou, o quinto dia útil era uma quinta feira, mas meu cheque só chegou na sexta, até ir no banco e trocar o cheque não deu tempo de voltar na loja, e eu havia dado minha palavra que sexta eu iria buscar a câmera, passei o fim de semana apreensivo será que a câmera ainda estaria la na segunda. Será que o preço estaria o mesmo?

20150721_214736No fim de semana acabei viajando com meu tio do “Feneme”, o que me rendeu mais algum extra. Na segunda cedo peguei minha lata contei cada cruzeiro e o valor até passava um pouco juntei o que havia ganho na viagem com meu tio e antes de sair de casa meu pai veio e disse que embora eu não aceita-se a ajuda para câmera eu não podia negar um presente de natal adiantado e me deu dez mil cruzeiros, coloquei todas as minhas economias, uma pequena fortuna em um maço amarrado com elástico, escondi no fundo da minha capanga, na hora do almoço fui até o numero 280 da Av. Ipiranga e la chegando o vendedor me recebeu com um sorriso, abaixou e pegou a caixinha vermelha e preta que me custou Cr$ 119800,00, em um ano que o salario minimo não chegava a Cr$500,00  minhas economias ainda deram para comprar um flash, a partir daquele dia me tornei o fotografo oficial da casa, recebendo a incumbência que por anos foi do meu pai, o natal de 1974 em casa pela primeira vez foi registrado com filmes 35mm as memórias daquele fim de ano foram eternizadas com Kodacolor e Fujichrome.

Este é um texto de ficção baseado em uma câmera real que encontrei em um bazar.

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comentários
 
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  • 16/02/2016 em 12:08 am

    Legal o conto. Mas a proporção é mesmo essa? Na década de 1950, um carro popular custava mais ou menos 45 SM. No início do Plano Real, 1994, 100 SM.
    Essa câmera custava mais de 200 SM?

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    • Luiz Henrique Carneiro
      17/02/2016 em 10:17 am

      Olha pelo valor que consta na nota fiscal e o valor do SM que vi no saite da OAB é pra ser isso mesmo…

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  • Carlos Coelho
    03/02/2016 em 5:41 pm

    Muito interessante sua história Luiz Henrique. Também sou louco por fotografia desde pequeno e fotografei bastante com a Trip. Apenas por curiosidade, você ainda a possui? A gente acaba criando uma paixão por alguns modelos e marcas e pelo que elas representaram em nossas vidas.

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    • Luiz Henrique Carneiro
      04/02/2016 em 7:33 am

      Oi Carlos, acho que você se confundiu.. a história é uma ficção. A câmera é minha mesmo, mas achei em um bazar, a ideia da história veio de ela ter nota, garantia e etc, mostrando que o antigo dono era um apaixonado por esta maquininha.

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  • Kowa Kowala
    03/02/2016 em 11:42 am

    Muito bacana essa história :)

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