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A História da Contax – Parte 7 (e final)

por em 29/03/2016
 

Depois de seis artigos a respeito da história da Contax… Chega a parte encerrar tanta conversa e “colocar a mão na massa” – queimar filme com essas câmeras. A idéia desta “parte 7” é ser um guia prático.

disparoProvavelmente já deu para notar qual é o grande problema delas: manutenção. Como praticamente tudo da Zeiss Ikon a mecânica das Contax é infernalmente complexa. Os múltiplos pontos de ajuste permitem toda a precisão do mundo – mas exigem que o técnico entenda aquele mundaréu de parafusos e tenha tempo de sobra (especialmente quando se trata de trocar as tiras de seda do obturador).

Por outro lado também há uma crônica falta de acessórios e objetivas – afinal estamos falando de uma câmera que saiu de linha há mais de cinquenta anos e que jamais vendeu além de uma fração do que sua concorrente direta (a Leica) conseguiu durante praticamente o mesmo período.

Muitos problemas para lidar com uma câmera? Bem, talvez – mas a Contax vale a pena. É uma obra-prima de mecânica de precisão. Encaixa maravilhosamente nas mãos ao fotografar e é um dos melhores instrumentos para experimentar a fotografia como era imaginada nos anos 30/50. É a câmera escolhida por um monte de bambas – Robert Capa utilizou uma II para cobrir a 2a Guerra Mundial, e quando faleceu na Indochina estava fotografando com uma IIa. Robert Doisneau era outro fã nos anos 40 – como aliás cerca de um terço do staff da revista LIFE (pau a pau com a turma da Leica naquela publicação). E se você olhar para a foto de capa da parte 3 vai descobrir que Ansel Adams também era fã da Contax. Além disso há, claro, um jogo formidável de objetivas.

6806083_41d05adb97_mCÂMERAS

Na prática: a I não é uma câmera para sair por aí fotografando. Via de regra já passaram por excesso de técnicos. Uma delícia de usar de quando em quando, mas provavelmente não vai aguentar o tranco por muito tempo se queimar diariamente dois ou três rolos de filme. As primeiras (número de série U e V) geralmente estão com o telêmetro ruim e o obturador, mesmo quando novo, não era muito regular.

Uma II ou III operacional merece uma limpeza, lubrificação e ajuste. Não force o mecanismo para não arriscar romper as tiras do obturador. Muitos técnicos preferem deixar as molas do obturador com uma ligeira folga, então faça uns testes antes de sair batendo slides. O telêmetro impressiona e quase sempre está em ponto de bala – só desista se estiver fora de alinhamento vertical: quer dizer que alguma coisa está BEM errada dentro da câmera. A III é maior e mais pesada – o que significa preços mais amigáveis.

As IIa e IIIa são as mais comuns aqui no Brasil. Devido a algumas simplificações no mecanismo é mais fácil encontrar técnico que aceite mexer e, mais importante, que consiga deixar a câmera operante. Preste atenção se as cortinas estão encaixando corretamente e se o telêmetro está com contraste razoável. O telêmetro delas pode sair de alinhamento horizontal e vertical, mas um técnico corrige isso com simplicidade e rapidez.

contametersOBJETIVAS

Não vou trazer aqui uma listagem completa das objetivas produzidas para a Contax. São muitas e, para todos os efeitos, seria só para ocupar espaço em um artigo mais prático – muitas são raras, especialmente de antes da guerra.

Os cuidados óbvios com objetivas antigas se aplicam para a Contax. Fungos em lentes paradas há décadas são quase que a regra – o que significa limpeza profissional e, dependendo do tanto que tiver, uma queda da qualidade de imagem frente a um exemplar perfeito.

Também há nessas objeivas uma certa tendência de “embranquecimento” dos cristais (fogging). No mais das vezes dá para resolver com uma limpeza, mas nem sempre é possível.

contador contaxAs objetivas mais comuns de encontrar aqui no Brasil, na minha experiência:

21/4 Biogon – fantástica grande-angular, por muito tempo deixou na poeira muita objetiva clássica como a Super-Angulon. Infelizmente é algo rara – na época  esta objetiva custava uma pequena fortuna, bem mais do que a própria câmera.

35/2.8 Biogon – a grande angular mais comum. Só preste atenção que a IIa e IIIa só aceitam as versões da Alemanha Ocidental do pós-guerra! A Alemanha Oriental continuou fabricando o modelo antigo, para as Contax I, II e III. Para identificar uma objetiva feita na Alemanha oriental no anel estará escrito “Carl Zeiss Jena” e numeração acima de 3.000.000. As da Alemanha ocidental vêm escrito Zeiss Opton ou Carl Zeiss. As cópias soviéticas desta objetiva também não servem nas IIa e IIIa (são cópias das Biogon pré-guerra)

universal finder50mm Tessar 3,5 e 2,8 – A Tessar provavelmente foi a objetiva que a Zeiss colocou em mais câmeras de qualidade. As 2,8 são sempre de antes da guerra – o que pode ser complicado se você quiser usar parassol e filtros. Os específicos para ela são quase impossíveis de encontrar por aqui.

50mm Sonnar – a f:2.0 é disparado a mais comum, a “standard” para as Contax. É sempre excepcional. Só era suplantada pela irmã mais rápida f:1.5, que por outro lado é bem mais pesada e não é retrátil.

85/2 Sonnar – excepcional, resultados fantásticos. Disparado uma das melhores objetivas já produzidas. É pesada, mas vale cada grama (mesmo com possibilidades de torcicolo depois). O parassol original é difícil de aparecer, mas felizmente qualquer um de rosca 49mm serve.

135/4 Sonnar – provavelmente a lente extra mais comum. Nos anos 30/50 prestava-se muita atenção em “relação de ampliação/perspectiva”. Teoricamente a imagem de uma ampliação em tamanho postal tem a perspectiva correta quando o negativo foi tirado com uma 135mm. Isso fez uma popularidade extra das 135mm. De qualquer maneira, é hoje a mais barata objetiva para Contax – mesmo sendo uma das melhores.

Zeiss_Ikon_Flash_Sync 1366ACESSORIOS

A Contax possuía um jogo impressionante de acessórios para tudo quanto é possibilidade – mas hoje são difíceis de encontrar, especialmente no Brasil. Acessórios para as Kiev servem para as Contax I, II e III. Os comuns por estas bandas:

Visor universal: vulgo “revólver”. Com ajuste de dioptria e paralaxe. Geralmente para as objetivas 21, 35, 50, 85 e 135mm (os de antes da guerra possuem para 28 e, mais raramente, para a 180mm).

Parassol e filtros: o padrão da rosca para parassol da Contax é 40,5mm. Parassol pós-guerra S1118 é para a 35 e 50mm, S1119 para Triotar 85mm e Sonnar 135mm (com o código “A” é de encaixe por pressão). Vários desses parassóis (e filtros) fabricados para as Contaxreflex na Alemanha Oriental servem perfeitamente (também 40,5), e são bastante mais em conta. Atenção para as Tessar de antes da guerra: os padrões para filtro e parassol são outros.

Foto macro: relativamente comum de encontrar no Brasil é o Contameter. Acessório bem prático: há um telêmetro externo que é regulado para 20, 30 ou 50cm de distância do objeto e coloca-se a lente de aumento correta na frente da objetiva. Focaliza-se indo para frente e para trás até a imagem conicidir no telêmetro externo. O produzido no pós-guerra serve em todas. O de antes da guerra possuía variação para a III (código 1343) ou para a I e II (1340) a fim de compensar a diferença de altura das câmeras.

s-l300USANDO A CONTAX

Toda Contax deveria vir sempre com um carretel vazio – o que nem sempre acontece. Na verdade eles caem com uma facilidade maior do que deveria. Fazendo um pequeno corte diagonal no miolo de qualquer carretel de filme serve como gambiarra eficiente.

O foco com as 50mm era feito pela pequena roda logo em cima da janela do telêmetro, após liberar a trava do infinito que fica ao lado. Com as demais objetivas se utiliza o anel de foco normal, exclusivamente (as engrenagens não aguentariam o peso).

A idéia é fazer todos comandos da câmera sem tirar o visor do olho. Assim o foco é com o dedo médio, e o disparo é realizado com a primeira articulação do indicador – não com a ponta do dedo.

Com as Contax I, II e III altera-se a velocidade antes ou depois que o obturador for armado (melhor depois, para preservação do mecanismo). Na II e III levanta-se o botão de disparo. Com as IIa e IIIa há um anel independente para as velocidades.

contax26As Contax, quando a mecânica está perfeita, são extremamente silenciosas – na verdade mais do que as Leicas até o modelo IIIc.

Flash? Meio sem sentido utilizar uma Contax com flash, mas vamos lá. Para a II e III existiam alguns sincronizadores mecânicos para flash de bulbo, como o “Burvin”, na época um dos mais eficientes. Trambolhão que jamais vi de perto.  Com as IIa e IIIa há a diferença já comentada na “parte 6”. Se for câmera “black dial” você terá que arranjar o conector mecânico para fazer a sincronia (catálogo 1361 para flash de bulbo, 1366 para flash eletrônico). Se for “color dial” a sincronia é interna e a câmera tem a entrada normal para flash.

Se está com uma Contax II ou III deve ter notado no numerador de poses um ponto vermelho ao lado do número 26 – e deve se estar perguntando o que diabos significa. É que uma das opções de filme da época era um híbrido de filme 120 com o 135. Havia uma longa tira de papel ao redor da bobina, que não tinha cassete. Colocava-se na câmera prendendo a ponta de papel e se avançava até o contador marcar “0”. A partir daquele ponto seria película. Para facilitar para esse tipo de filme há outro recurso que é, com a cãmera desarmada obviamente, apertar e girar o botão de disparo (daí mais dois pontos vermelhos ali). Isso desengata o obturador e é possível avançar o filme livremente.

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