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Cuba analógica

por em 22/09/2016
 
O Tiago Pedro saiu de fortaleza e foi estudar cinema em Cuba, e nesta aventura meio que redescobriu a fotografia analógica, e agora ele vem até nós compartilhar sua experiencia.
“Quando sair de Fortaleza a dois anos atrás para estudar cinema em Cuba na EICTV (Escuela Internacional de Cine y Tv) sabia que minha vida ia mudar completamente, estava saindo pela primeira vez do Brasil, para morar em outro pais para estudar em uma das cinco maiores escola de cinema do mundo, uma escola fundada por Gabriel Garcia Marquez, com 30 anos de historia e vários premios de qualidade de ensino pelo mundo. 
Quando fiquei sabendo que a escola tinha um laboratório de fotografia me empolguei mais ainda com a oportunidade de estar estudando ai. Em Fortaleza quase não existe mais laboratórios de fotografia,  120mm ninguem revela mais, preto e branco somente com particulares, e película cada vez difícil de encontrar. Sai de Fortaleza então com duas latas de peliculas presenteadas por um amigo professor e fotografo, uma tinha preto e branco e a outra de colorido, alguns royos de 120mm preto e branco e colorido, mais alguns de 35mm, uma yashica medio formato, uma olypus pen, uma pratika e uma camera super oito, 3 cartuchos de super oito trix-reversibe, e um cartucho de 16mm reversible também que troquei com uma americana por uns vinis brasileiros…
Tinha outras cameras, vendi tudo e so me quedei com essas para estudar em Cuba. 
Quando cheguei na escola, uma tristeza, o laboratorio estava em reforma, estavam diminuindo o seu tamanho por falta de uso… o que logo depois o acabou cerrando, ficou assim por um ano mais ou menos sem atividade, o que le cuidava, que tomava conta Olvidio, morreu logo depois, um fotografo de muito tempo de profissão e de vida em laborátorio.
Poco a poco eu fui pedindo permissão para trabalhar no laboratório, primeiro vi que havia muito quimicos em outro deposito, muito papel velado porque foi exposto a luz infelizmente…pedi para levar para o laboratorio e fui organizando o espaço, depois alguns ampliadores que estavam em outra sala, vi que o laboratorio era pequeno mais tinha de tudo todavia. Pedi para uma professora da escola, que já foi quimica de cinema no ICAIC (Instituo de cinema e arte de cuba) me ajudar a fazer os químicos, depois ajuda a alguns estudantes amigos meus, li livros antigos de fotoquimica que havia na biblioteca, mirei muito o forum do Queimando Filmes, postei pedindo ajuda, e pouco a pouco fui apredendo, por sorte havia muito professores que vinham visitar a escola e pedia a eles conselhos, um em especial me ajudou a criar formulas para reversible, revelei assim minha primeira super oito.
A escola mesmo me deu a oportunidade de fazer um corto em 16mm colorido, e depois um em 16mm em preto branco, esse ultimo revelado em um balde, a essa altura já sabia muito de quimica fotografica.
Meu primeiro royo revelado foi um de 120mm, já que em Fortaleza não se revela isso mais, quis experimentar ai, era uma pelicula vencida mais o resultado foi satisfatorio, fiz um ensaio sobre a escuela de cine, quando filmei em 16mm colorido seria a ultima vez que a escola de cine ia gravar em pelicula, decidir usar outro royo de 120mm para cobrir o fato, bom dessa vez nao tive sorte, pus poco quimico e o filme se revelou pela metade…igual me pareceu um efeito interessante…mas tentei não erra mais, porque meus papeis, quimicos e royos eram poucos.
Um dos momentos mais fortes foi na Serra Maestra, ja fazia alguns meses que trabalhava com analogico, e levei muita pelicula para ai, por sorte também alguns professores tinham me presenteado com mais royos novos, sair sacando fotos, que ponho algumas aqui. Passaria um mes no coração da revolução cubana, e esse lugar em especial ainda é bem isolado com mutia vegetação, contato com a natureza, pessoas muito boas e simples. Fui em um exercicio da escola chamado one to one, onde praticamente sozinhos temos que dirigir, fotografar e editar um documentário retratando  algum personagem nessa região. Fiz sobre um fotografo chamado José, que já trabalhou com analogico(preto e branco e colorido) e hoje esta com o digital, fazendo montagens que mudam toda a paisagem dos fotografiados, segundo o pedido mesmo dos clientes.
Creio que um momento lindo ai foi conhecer um fotografo que durante a revolução seu trabalho era tirar fotos dos revolucionários, ver as fotos em preto e branco, as copias, a qualidade delas, e seu equipamento foi lindo, era de ótimas qualidade. 
Cuba e a escola é um lugar especial para sacar fotos, todo sitio e situação te faz uma boa fotografia. 
Na escola mesmo descobrir que o analogico não é um formato ultrapassado, é um estilo e textura proprios, que o fotografo tem o direito de usar se ele quiser, o super oito tem sua textura de colores distinta do 16mm e o 35mm, a pelicula reversible tem com seu auto contraste de 4 pontos da seu aspecto único, e ademais a tecnica de solarização somente existe ai.
Em especial no meu taller de 16mm em experimental descobrir muitas coisas, filmamos com uma bollex, a curva de luz era distinta, podia se filmar manualmente e se sentia a a velocidade outra, distinta do que o digital poderia me dar, ademais manipulei fisicamente o material, tirei pedaços e fervi na agua, outros pintei manualmente, eram efeitos unicos, podia trabalhar manualmente com o meu material, isso é importante para mim. O transfer? fiz em uma moviola antiga que a escola tem funcionando por incrivel que pareça. 
O desafio agora é aprofundar mais no experimental em analogico, fotografiar mais em pelicula, todavia me restam muito filme e a escola me deu uma lata mais para trabalhar o que eu pretendo partilhar com os alunos da escola também. Meus proximos filmes quero fazer em 16mm e revelar artesanalmente no laboratorio. Tenho um ano com a internet lenta da escola para divulgar meu trabalho e estudar mais, espero pode ser reconhecido como fotoquimico e fotografo documental profissional ao final disso. Igual a experiencia de vida e conhecimento já tenho.
Todavia vivo em Cuba, estou estudando documentário na EICTV, Escuela Internacional de cine y Tv, uma escola de cinema com 30 anos de historia, fundada por Gabriel Garcia Marquez, umas das 5 mais premiadas do mundo, unica com premio cannes… Meu curso, curso regular, tem tres anos de duração, acabei agora o segundo ano de experiencia e vou indo em direção ao meu ultimo. Ou seja me queda mais um ano de estudos em Cuba e na escola de cine.
Diga de passagem que morar em Cuba é incrivel, morar na escola de cine mais ainda. Somos 80 alunos de nacionalidades diferentes, vivendo juntos, em uma escola no campo, estudando 24horas cinema, é intenso. Por exemplo, em meu corredor tenho como vizinhos mais próximo uma Dinamarquesa, um espanhol e um amigo de San Vicent, uma ilha do caribe, vivo com pessoas de Guatemala, Porto Rio, Costa Rica, Panama, Nicaragua, Australia, Brasil, Chile, Republica Domicana e etc… no tempo que vivi na escola tive a oportunidade de conhecer Ford Copolla, passou uma semana na escola, fez uma pasta para gente e nos presenteou muito vinho, Abbas Kerostami, também esteve ai uma semana e foi forte saber que esse mestre morreu faz pouco tempo, também passou pela escola Costa Gravas, o ex-presidente uruguaio Mojica que nos deu uma palestra fortissima, e alguns cineasta brasileiros entre eles Cao Guimaraes um dos cineastas que mais admiro em minha vida. Agora mesmo que estou em méxico a escola recebe a visita de Naomi Kawase por exemplo…
Sou timido, muito timido. O documentário para mim é uma terapia, uma forma de sair de mim. Ademais é com outro que eu aprendo mais, conversando, discutindo, escutando. O que mais me interessa em fotografia é justamente as pessoas em lo contexto que ela vivem. 
O instante preciso de um gesto, naquele lugar. Com o analogico aprendo um poco mais disso também, as vezes me quedo em um sitio, sei que ali vai passar uma pessoa, que vai acontecer uma situação, e vejo ela chegando, espero o momento certo para o primeiro click, muitas vezes é andar com a camera na mão, na serra fazia muito isso, e permitir que a camera fotografia nao tenha muita mais importancia, as pessoas deixam, se elas nao deixaram te falaram, ai nao tive problemas com a camera, creio que o fotografo e o filosofo tem que se impressionar com o mundo, as coisas mais banais podem estar carregadas de significado e poesia as vezes”. 
Abaixo as redes do Tiago onde podemos ver seu trabalho tanto o analógico como a digital e também algumas do fotografo cubano Barrio Chino que ele conheceu em Sierra Maestra. 

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